Guerra com o Irã ameaça fertilizantes e pode encarecer alimentos

Escassez de fertilizantes no Golfo atinge agricultores em plena temporada de plantio e pode reduzir colheitas, pressionando os preços dos alimentos

ilustração de um garfo com um globo. Ao fundo, duas setas vermelhas para cima, tudo ambientado numa plantação/campo
Talaj via Getty Images / Darla Hueske via Unsplash

Aniruddha Ghosal e Allan Olingo 8 minutos de leitura

Agricultores de todo o mundo estão sentindo o impacto da guerra com o Irã. Os preços da gasolina dispararam e o fornecimento de fertilizantes está diminuindo devido ao quase fechamento do Estreito de Ormuz por Teerã, em retaliação aos bombardeios dos EUA e de Israel.

A escassez de fertilizantes coloca ainda mais em risco o sustento dos agricultores em países em desenvolvimento — já afetados pelo aumento das temperaturas e pelos sistemas climáticos instáveis ​​— e pode levar a um aumento nos preços dos alimentos em todo o mundo. O Brasil, como um dos principais produtores de alimentos do mundo, também está sob apreensão por conta do risco de desabastecimento.

Os agricultores mais pobres do Hemisfério Norte dependem da importação de fertilizantes do Golfo, e a escassez ocorre justamente quando a época de plantio começa, afirmou Carl Skau, vice-diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos.

"Na melhor das hipóteses, o aumento dos custos de produção será incorporado aos preços dos alimentos no próximo ano.”

Carl Skau, do Programa Mundial de Alimentos

“Na pior das hipóteses, isso significa menores rendimentos e quebras de safra na próxima temporada. Na melhor das hipóteses, o aumento dos custos de produção será incorporado aos preços dos alimentos no próximo ano.”

Baldev Singh, um agricultor de arroz de 55 anos em Punjab, na Índia, afirma que os pequenos agricultores — a maior parte dos agricultores do país — podem não sobreviver se o governo não puder subsidiar os fertilizantes quando a demanda atingir o pico em junho. “Neste momento, estamos aguardando e torcendo”, disse ele.

A GUERRA INTERROMPE O FORNECIMENTO DE NUTRIENTES ESSENCIAIS

O Irã está limitando seriamente os embarques pelo Estreito de Ormuz, uma passagem estreita que normalmente movimenta cerca de um quinto das remessas mundiais de petróleo e quase um terço do comércio global de fertilizantes.

Mapa do Oriente Médio com destaque para o estreito de Ormuz
Mapa do Oriente Médio, com destaque para o Estreito de Ormuz (Fonte: Enciclopédia) Britânica

Na sexta-feira (27), o embaixador iraniano nas Nações Unidas em Genebra, Ali Bahreini, disse que Teerã aceitou um pedido da ONU para permitir a passagem de ajuda humanitária e remessas agrícolas pela importante via navegável, mesmo sofrendo ataques às suas instalações nucleares.

A restrição de fertilizantes ameaça a agricultura e a segurança alimentar em todo o mundo.

O plano de ajuda seria o primeiro avanço no gargalo da navegação após um mês de guerra. Embora os mercados e governos tenham se concentrado principalmente no bloqueio do fornecimento de petróleo e gás natural, a restrição de fertilizantes ameaça a agricultura e a segurança alimentar em todo o mundo.

Nitrogênio e fosfato — dois importantes nutrientes para fertilizantes — estão sob ameaça imediata devido ao bloqueio.

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O fornecimento de nitrogênio, incluindo ureia, o fertilizante mais comercializado, que auxilia no crescimento das plantas e aumenta a produtividade, é o mais afetado devido aos atrasos no transporte e à alta do preço do gás natural liquefeito — um ingrediente essencial.

O conflito restringiu cerca de 30% do comércio global de ureia, afirmou Chris Lawson, do CRU Group, uma consultoria de commodities com sede em Londres.

Alguns países já enfrentam escassez crítica, de acordo com Raj Patel, economista de sistemas alimentares da Universidade do Texas. Por exemplo, a Etiópia obtém mais de 90% de seu fertilizante nitrogenado do Golfo Pérsico, através do Djibuti, uma rota de abastecimento que já estava sobrecarregada mesmo antes do início da guerra, em fevereiro.

A época de plantio é agora”, disse Patel. “O fertilizante não está disponível.”

O fornecimento de fosfato, que auxilia no desenvolvimento das raízes, também está sob pressão. A Arábia Saudita exporta cerca de um quinto dos fertilizantes fosfatados do mundo, e a região exporta mais de 40% do enxofre mundial, um ingrediente essencial e subproduto do refino de petróleo e gás, explicou Lawson.

COMO FICA O CENÁRIO

Mesmo após o fim da guerra, os produtores do Golfo precisariam de garantias de segurança claras antes de retomar os embarques pelo estreito, e os custos de seguro quase certamente aumentariam, apontou Owen Gooch, analista da Argus Consulting Services, com sede em Londres.

Na Índia, o governo priorizou o fornecimento de ureia para uso doméstico e fornece aos fabricantes de fertilizantes cerca de 70% de suas necessidades de gás natural. Algumas fábricas ainda operam abaixo da capacidade, resultando em menor produção.

“O sistema alimentar é frágil e depende de cadeias de suprimento de fertilizantes estáveis ​​para garantir que os agricultores possam produzir os alimentos dos quais o mundo depende."

Hanna Opsahl-Ben Ammar, da Yara International

“O sistema alimentar é frágil e depende de cadeias de suprimento de fertilizantes estáveis ​​para garantir que os agricultores possam produzir os alimentos dos quais o mundo depende”, disse Hanna Opsahl-Ben Ammar, da Yara International, uma das maiores empresas de fertilizantes do mundo, que tem negócios também no Brasil.

A ESCASSEZ ATINGE UM MOMENTO CRÍTICO


Os fertilizantes geralmente são aplicados pouco antes ou no plantio, o que faz com que as plantações percam estágios iniciais de crescimento cruciais e as colheitas possam cair quando as entregas atrasam, mesmo que o abastecimento melhore posteriormente.

O impacto já está sendo sentido nos Estados Unidos e na Europa, onde a principal temporada de plantio está em andamento, e espera-se que atinja a primeira temporada de plantio em grande parte da Ásia nos próximos meses.

“Nossas plantações precisam de nitrogênio agora — quanto antes, melhor — para que possam ter um bom começo, ajudando-as a se estabelecer e a acumular reservas para a colheita no final do verão”, disse Dirk Peters, engenheiro agrônomo que administra uma fazenda nos arredores de Berlim.

Os preços dos fertilizantes estão abaixo dos picos observados após a invasão da Ucrânia pela Rússia, mas os preços dos grãos estavam mais altos naquela época, ajudando os agricultores a absorver os custos, disse Joseph Glauber, do Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares.

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Os preços dos grãos estão mais baixos agora, o que significa que as margens de lucro são menores e os agricultores podem ter que optar por culturas menos intensivas em fertilizantes — como a soja nos EUA — ou aplicar menos fertilizantes, reduzindo a produtividade. Produtividades menores podem levar a preços mais altos para o consumidor.

Outras nações provavelmente não compensarão a falta. A China, maior produtora mundial de fertilizantes nitrogenados e fosfatados, está priorizando a oferta interna e os embarques de ureia provavelmente não serão retomados até maio, disse Lawson. As fábricas na Rússia, outro grande produtor, já estão operando perto da capacidade máxima, afirmou.

PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO SÃO VULNERÁVEIS


As interrupções já estão sendo sentidas em toda a África, onde muitos agricultores dependem de fertilizantes importados do Oriente Médio e da Rússia.

As fortes chuvas precoces na África Oriental deixaram os agricultores com cerca de uma semana de tempo seco para preparar os campos e aplicar fertilizantes, disse Stephen Muchiri, produtor de milho queniano e CEO da Federação de Agricultores da África Oriental, que representa 25 milhões de pequenos agricultores.

A escassez de fertilizantes e o aumento dos preços afetam duramente os agricultores, forçando-os a usar menos e levando à redução da produção. Mesmo pequenos atrasos podem reduzir a produção de milho em cerca de 4% em uma safra, disse Patel, citando uma pesquisa da Zâmbia.

Os governos podem intervir aplicando subsídios, promovendo a produção interna e controlando as exportações.

A Índia já subsidia fertilizantes para aliviar a pressão financeira sobre os agricultores, mas esses subsídios deixam menos dinheiro para investimentos agrícolas de longo prazo. O orçamento destinado este ano para subsídios à ureia foi de US$ 12,7 bilhões, segundo o Instituto de Economia Energética e Análise Financeira (IEEFA), dos EUA.

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Os esforços para produzir ureia internamente aumentaram a dependência da Índia em relação ao gás importado, e o uso excessivo de ureia prejudicou o solo local, afirmou Purva Jain, do IEEFA, que apoia o uso de fertilizantes orgânicos.

Uma menor dependência de fertilizantes importados poderia proteger agricultores e consumidores das oscilações nos preços da energia e dos impactos climáticos, disse Oliver Oliveros, coordenador executivo da Coalizão Agroecológica.

"Este pode ser um ponto de virada", afirmou.

(Os jornalistas da Associated Press Jamey Keaten e Kerstin Sopke contribuíram para esta reportagem)

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* Esta matéria foi publicada originalmente em 27 de março de 2026. Foi atualizada em 30 de março de 2026 para corrigir a informação sobre a participação da Arábia Saudita na indústria de fertilizantes. A Arábia Saudita exporta cerca de um quinto dos fertilizantes fosfatados do mundo. Ela não produz cerca de um quinto dos fertilizantes fosfatados do mundo.


SOBRE O AUTOR

Aniruddha Ghosal e Allan Olingo são da Associated Press saiba mais