A ciência também pune ideias certas – e a história prova isso
Ao longo da história, não poucos cientistas foram desacreditados por preconceito, desconfiança, inveja ou pura e simples má-fé

A ciência frequentemente sufoca ideias ousadas, não convencionais ou ameaçadoras por causa de ego, hierarquia, competição, sexismo e fraude. Essa cultura prejudica o progresso. Para cumprir de fato seu papel social, a ciência precisa de reformas estruturais e culturais que protejam a integridade e incentivem o risco intelectual.
A seguir, Matt Kaplan, correspondente de ciência da revista "The Economist", compartilha cinco insights centrais de seu novo livro I Told You So!: Scientists Who Were Ridiculed, Exiled, and Imprisoned for Being Right (Eu te disse!: cientistas que foram ridicularizados, exilados ou aprisionados por estarem certos, em tradução livre).
1. SILENCIADOS DE FORMA ABSURDA
No auge da pandemia, eu entrevistava pesquisadores que tentavam derrotar a Covid-19 ou ajudar pacientes em hospitais.
O que mais me impressionou foi a frequência com que ouvia ideias brilhantes, claramente dignas de reportagem, e, logo em seguida, o cientista dizia: “não, não, não. Você não pode publicar isso.” Quando eu perguntava por quê, ouvia respostas como:
- “Outros cientistas deixariam de me levar a sério.”
- “Sou doutorando e essa ideia ameaça o trabalho do meu orientador. Posso ser demitido.”
- “Preciso testar isso muito mais e nunca vou conseguir financiamento, então nem vale a pena falar.”
- “Isso é imunologia, Matt… e, convenhamos, eu sou mulher.”
Aquilo parecia absurdo. Estávamos no meio de uma pandemia, com milhares de mortes, e havia pesquisadores dizendo “não divulgue minha ideia porque podem rir de mim, meu orientador pode não aceitar ou porque sou mulher.”
Esses não são bons motivos para esconder ideias importantes em um momento no qual tantas pessoas estão morrendo. Mas será que a ciência sempre foi assim? A resposta é: sim.
2. PUNIDOS POR PENSAR FORA DA CAIXA
O obstetra húngaro Ignaz Semmelweis trabalhava no Hospital de Viena, na Áustria. Ele passava os dias realizando partos e se angustiava com o fato de muitas mulheres morrerem logo depois – e, quase sempre, seus bebês também.
A doença era conhecida como febre puerperal. Após uma série de experimentos, Semmelweis concluiu que médicos que lavavam as mãos apenas com água e sabão transmitiam bactérias presentes sob as unhas, causando a infecção, quase sempre fatal.
Ele então desenvolveu um método de higienização com solução de cloro, que eliminava as bactérias e praticamente erradicava a doença. Era um avanço enorme. Mas, ao tentar convencer outros médicos, foi duramente criticado. Acabou demitido, exilado na Hungria e internado à força em um manicômio por seus próprios pares.

A história ecoa na trajetória da bioquímica húngara Katalin Karikó. Ela demonstrou que o RNA mensageiro poderia produzir praticamente qualquer proteína no corpo, abrindo caminho para novos tratamentos.
Mas ninguém acreditava no potencial da tecnologia, já que o RNA se degradava rapidamente no organismo. Trabalhando com o imunologista Drew Weissman, Karikó mostrou que era possível estabilizá-lo usando proteínas específicas.
Mais tarde, já na BioNTech e na Pfizer, os dois ajudaram a desenvolver vacinas contra a Covid-19. Antes disso, porém, Karikó foi rebaixada pela Universidade da Pensilvânia, demitida e ameaçada de deportação pelo Departamento de Estado dos EUA, além de não conseguir financiamento para sua pesquisa.
Sem sua resiliência, provavelmente não teríamos as vacinas contra a Covid.
3. MENTIRAS, FRAUDES E ARTIGOS CIENTÍFICOS
Na França rural, os veterinários Henry Toussaint e Pierre Galtier tiveram papel fundamental no desenvolvimento das vacinas contra o antraz (1880) e a raiva (1881). Mas seus nomes foram apagados pela história.
O motivo atende por Louis Pasteur.
Determinado a conquistar o prestígio por derrotar essas doenças, Pasteur teria copiado as técnicas dos dois, mentido sobre sua origem e usado sua influência política para desacreditá-los.

O mais impressionante é como a história tratou esse comportamento. Alguns estudiosos chegaram a sugerir que sua habilidade política o tornava “um cientista melhor”. Outros apontaram que era preciso levar em conta "o ambiente altamente competitivo das universidades francesas no século 19". Mas um ambiente competitivo justifica práticas antiéticas?
O problema persiste. Em 2023, o Retraction Watch (um blog que rastreia retratações sobre artigos científicos) registrou quase 19 mil artigos retratados apenas na área biomédica. Embora alguns casos envolvam erros, a maioria se deve a plágio ou fraude.
4. REVISÃO POR PARES OU RIVALIDADE?
O cirurgião Joseph Lister, atuando em Edimburgo e Glasgow na era vitoriana, descobriu que poderia evitar infecções pós-operatórias ao aplicar ácido carbólico nas feridas e esterilizar o local durante a cicatrização.
Apesar do interesse inicial, ele enfrentou forte oposição liderada pelo também cirurgião James Young Simpson, que mobilizou a comunidade médica contra ele.
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O motivo? Simpson queria ser o responsável por resolver o problema e defendia uma técnica própria, a acupressão, sem evidências de eficácia. Atacar Lister era essencial para manter sua teoria viva. E ele fez exatamente isso.
O padrão continua atual: cientistas atacam ideias não porque são ruins, mas porque ameaçam territórios de pesquisa já estabelecidos. Mas a ciência não deveria ser uma disputa de egos e sim um esforço coletivo pelo avanço da humanidade.
5 E AGORA, O QUE FAZER?
No combate à fraude, é preciso criar mecanismos mais eficazes para rastrear e punir cientistas que desviam recursos de financiamento a pesquisas. Hoje, no máximo, eles perdem o emprego, o que está longe de ser suficiente.
Ao mesmo tempo, é fundamental não penalizar ideias fora do senso comum. Se uma hipótese é bem fundamentada e acompanhada de um plano sólido, ela também deveria ter acesso a financiamento.
a ciência não deveria ser uma disputa de egos e sim um esforço coletivo pelo avanço da humanidade.
Hoje, o sistema privilegia apenas pesquisas com alta probabilidade de sucesso, o que limita a inovação. Grandes desafios, como alimentar oito bilhões de pessoas ou enfrentar as mudanças climáticas, exigem apostas mais ousadas.
Por fim, é essencial discutir abertamente como a ciência funciona – e falha. O público precisa entender que o erro faz parte do processo científico.
Afinal, são os cidadãos que elegem líderes e definem prioridades de financiamento. Sem apoio a pesquisas arriscadas, dificilmente veremos os grandes avanços de que precisamos.
Este artigo foi publicado originalmente na revista do Next Big Idea Club e reproduzido com permissão. Leia o artigo original