A IA monitora carbono, mas ignora trabalhadores
A expansão dos data centers levanta dúvidas sobre as condições dos trabalhadores nas cadeias globais de construção

Toda vez que você pede ao ChatGPT para redigir um e-mail, ou recorre a um assistente de IA para decidir qual geladeira comprar, em algum lugar, um data center entra em operação para tornar isso possível. Essas instalações, que podem ocupar o tamanho de uma pequena cidade, são a infraestrutura física por trás da revolução da IA.
São edifícios cavernosos repletos de servidores, resfriados por sistemas industriais e consumindo energia em uma escala que pressiona redes elétricas locais. O que quase ninguém comenta é quem são as pessoas que constroem tudo isso.
Para erguer um único data center, desenvolvedores mobilizam milhões de toneladas de concreto, aço, cobre, lítio e metais críticos, vindos de cadeias de suprimentos que atravessam dezenas de países. Na ponta final dessas cadeias, as condições de trabalho muitas vezes são pouco transparentes e, em alguns casos, profundamente preocupantes.
O setor fez avanços importantes no monitoramento de sua pegada de carbono. Mas praticamente não avançou em rastrear se os trabalhadores que tornaram essas construções possíveis estavam livres ou submetidos a trabalho forçado.
Essa lacuna foi o foco de um debate no centro cultural e humanitário Grace Farms, no nordeste dos EUA, onde executivos do Google e da Bloomberg se juntaram ao líder de uma importante associação do setor de data centers para debater uma pergunta simples: num momento em que a indústria de tecnologia constrói mais rápido do que nunca, quem está pagando o custo humano?

A iniciativa Design for Freedom, da Grace Farms – lançada em 2020 pela CEO e fundadora da entidade, Sharon Prince – é um movimento global para eliminar o trabalho forçado e infantil das cadeias de fornecimento de materiais de construção.
Seu encontro anual reúne lideranças de arquitetura, engenharia, construção, tecnologia, governo e mercado imobiliário para avançar o que a organização descreve como um movimento em prol de uma indústria de construção mais humana. Este ano, o setor de data centers foi um dos focos mais urgentes, e os participantes tinham poder real para fazer algo a respeito.
Os números impressionam. Segundo Nora Rizzo, diretora de materiais éticos da Grace Farms, existem atualmente cerca de cinco mil data centers nos Estados Unidos, com Alemanha, Reino Unido e China logo atrás.
A capacidade global de data centers deve crescer 14% ao ano, com cerca de 100 gigawatts de nova capacidade entrando em operação até 2030. Só o mercado de construção de data centers nos EUA deve atingir US$ 112 bilhões nesse período, o equivalente a US$ 1,2 trilhão em geração de valor imobiliário.
O PODER DE QUEM PAGA A CONTA
As maiores empresas de tecnologia são hoje os clientes mais ativos e relevantes da construção civil no mundo. Por isso, têm um poder incomum de impor melhores práticas ao longo de suas cadeias de suprimentos.
“Quando nos posicionamos coletivamente como indústria, as pessoas tendem a ouvir e mudam seu comportamento”, disse Noah Goldstein, responsável por sustentabilidade na construção de data centers do Google.
Ele destacou que fornecedores, ao assinarem contratos com a empresa, já se comprometem a reportar emissões, treinar suas próprias cadeias e trabalhar para reduzir seu impacto ambiental.

O Google criou um programa de reconhecimento para sua cadeia de suprimentos, premiando equipes de construção com placas físicas – “molduras de US$ 7 da Amazon” – por melhores soluções de baixo carbono ou melhor nível de transparência.
O efeito competitivo tem sido considerável, segundo Goldstein. “Os CEOs dessas empresas são extremamente competitivos. Eles querem vencer no ano seguinte. Querem competir em sustentabilidade e querem aquela placa de sete dólares na parede.”
Os impactos desses contratos não são abstratos. Os materiais que entram na construção de um único data center passam por cadeias de suprimentos que cruzam dezenas de países e envolvem milhões de trabalhadores, muitos deles em regiões com poucas proteções trabalhistas e pouco recurso quando surgem abusos.
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Uma cláusula contratual exigindo relatórios sobre direitos humanos pode parecer distante de uma mina na África Central ou de uma fundição na Malásia. Mas, quando essa cláusula é assinada por uma empresa que investe bilhões em construção, ela envia um sinal para toda a cadeia sobre o que será ou não tolerado.
De fato, é um mecanismo imperfeito: depende de auditorias frequentes e da responsabilização de infratores. Ainda assim, é uma das poucas ferramentas disponíveis para avançar rumo a condições de trabalho mais éticas.
UM SETOR EM PONTO DE VIRADA
Ao contrário de muitos setores que enfrentam pressões por sustentabilidade, o de data centers tem uma vantagem incomum: a enorme concentração de poder de compra nas mãos de poucas empresas.
Quando Google, Microsoft, Meta e Amazon se movem na mesma direção em relação a exigências de cadeia de suprimentos, não apenas mudam suas próprias práticas, elas redefinem o padrão mínimo de toda a indústria.
Só o mercado de construção de data centers nos EUA deve atingir US$ 112 bilhões até 2030.
Fornecedores que querem acessar esses contratos precisam atender a esse nível. E, como a construção de data centers é hoje o segmento mais ativo e capitalizado da construção global, esse padrão pode se espalhar para cadeias muito além da infraestrutura de tecnologia.
A questão do trabalho forçado e dos direitos humanos nas cadeias de data centers, porém, ainda é um território pouco explorado, mesmo entre empresas que já avançaram bastante em carbono.
Se a adoção de due diligences em direitos humanos seguir trajetória semelhante à da divulgação de emissões, pode, ao longo do tempo, criar mecanismos reais de responsabilização que alcancem os trabalhadores.
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Isso não acontecerá da noite para o dia e cláusulas contratuais, por si só, não bastam. Será preciso fiscalização, verificação e canais de denúncia acessíveis aos trabalhadores.
Mas o volume de investimentos em data centers neste momento cria uma oportunidade rara: com contratos suficientes, voz coletiva e disposição para usar ambos, o setor pode estabelecer regras melhores antes que práticas ruins se tornem padrão.