Maxxing: até onde vai a busca pela “melhor versão” de si mesmo?

A proposta parece simples: melhorar a aparência, o corpo ou o estilo de vida, mas de forma extrema e imediata

Mulher jovem em uma cozinha clara e organizada, usando fones de ouvido e dançando enquanto prepara alimentos.
Foto: Freepik

Joyce Canelle 3 minutos de leitura

Nos últimos anos, principalmente após 2024, uma série de conteúdos nas redes sociais passou a incentivar jovens a buscar versões “aperfeiçoadas” de si mesmos por meio de práticas cada vez mais intensas. Esse movimento ganhou força em plataformas como o TikTok, onde vídeos e comunidades virtuais difundem o chamado “maxxing”.

A proposta parece simples, melhorar a aparência, o corpo ou o estilo de vida, mas, na prática, o fenômeno se expandiu para comportamentos extremos que levantam preocupações entre especialistas.

O termo surgiu a partir do “looksmaxxing”, focado na aparência física. Com o tempo, evoluiu para diferentes vertentes, há quem tente maximizar desempenho físico, vida social, status financeiro ou até aspectos íntimos, segundo o artigo publicado no The Conversation.

O padrão é sempre o mesmo, a ideia de levar qualquer característica ao limite, como se fosse possível atingir uma versão ideal e definitiva de si mesmo.

DA APARÊNCIA AO EXCESSO

O ponto de partida costuma ser inofensivo, cuidados básicos de higiene, exercícios e alimentação saudável aparecem como dicas iniciais. Esse estágio é conhecido como softmaxxing. A transição acontece quando a busca por melhorias passa a exigir intervenções mais radicais.

No chamado hardmaxxing, surgem práticas como uso de substâncias sem acompanhamento médico, cirurgias desnecessárias e comportamentos que colocam a saúde em risco.

Em alguns casos, jovens são incentivados a adotar dietas extremas ou procedimentos perigosos, muitas vezes sem qualquer respaldo científico.

A lógica por trás dessas práticas reforça a ideia de que o valor pessoal está diretamente ligado à aparência ou ao desempenho. Isso cria um ciclo de insatisfação constante, já que o padrão ideal nunca é totalmente alcançado.

PRESSÃO SOCIAL E ALGORITMO

O ambiente digital contribui para a disseminação do maxxing. Plataformas recomendam conteúdos semelhantes em sequência, o que amplia o contato com ideias cada vez mais radicais.

Em pouco tempo, usuários podem sair de vídeos sobre autocuidado para conteúdos que defendem padrões rígidos de beleza e comportamento.

Esse processo atinge principalmente jovens em fase de formação emocional, a exposição contínua a modelos considerados perfeitos aumenta a comparação social e reforça a sensação de inadequação.

A busca por aceitação passa a ser guiada por métricas externas, como curtidas e seguidores.

QUANDO O COMPORTAMENTO SE TORNA RISCO

Especialistas apontam que o problema não está na busca por melhoria pessoal, mas no exagero, o maxxing, em suas formas mais extremas, pode levar a distúrbios alimentares, ansiedade e isolamento social.

Em alguns casos, há ligação com comunidades online que reforçam discursos de ódio e visões distorcidas sobre relacionamentos.

A ideia de controle também ajuda a explicar o fenômeno marcado por incertezas econômicas e sociais, muitos jovens buscam no próprio corpo ou estilo de vida algo que possam modificar. O risco surge quando essa tentativa de controle se transforma em obsessão.

MUITO ALÉM DA APARÊNCIA

Apesar de ter começado com foco estético, o maxxing se espalhou para outras áreas. Há conteúdos que incentivam rotinas exaustivas de produtividade, restrições alimentares rígidas e padrões irreais de sucesso financeiro, e em todos os casos, o princípio é o mesmo, ultrapassar limites em nome de um ideal.

Essa lógica ignora fatores importantes como saúde mental, equilíbrio e individualidade, nem todos os corpos respondem da mesma forma, nem todas as trajetórias seguem o mesmo ritmo.

Ainda assim, o discurso dominante sugere que falhar em atingir esses padrões é sinal de fraqueza.

CAMINHOS POSSÍVEIS

Pesquisadores e educadores defendem que o debate sobre o tema precisa avançar. A discussão passa por educação digital, construção de autoestima e incentivo a relações mais saudáveis com o próprio corpo e com os outros.

Também cresce o número de espaços online que questionam essas práticas e propõem alternativas. Esses grupos buscam valorizar o bem-estar, o respeito e a diversidade, afastando-se da lógica de competição e comparação constante.

A busca por evolução pessoal não é um problema em si, o desafio está em reconhecer os limites. Quando o desejo de melhorar se transforma em exigência extrema como o “maxxing”, o que parecia ser desenvolvimento pode acabar se tornando um risco silencioso.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Bacharel em Jornalismo, com trajetória em redação, assessoria de imprensa e rádio, comprometida com a comunicação eficiente e a produç... saiba mais