A crise das abelhas não acabou — só saiu do noticiário
Perdas seguem elevadas entre colmeias comerciais, polinizadores silvestres enfrentam risco crescente e especialistas alertam para impactos na agricultura.

Vinte anos atrás, as abelhas melíferas começaram a desaparecer em números misteriosamente grandes. Notícias sobre o assunto estavam por toda parte, assim como soluções para tentar salvá-las. Mas hoje, ouve-se menos sobre a crise. Será que ela foi simplesmente abafada pelo zumbido constante das notícias de última hora do mundo, ou a crise das abelhas acabou?
Há quem argumente que "salvamos" as abelhas, enquanto outros dizem que elas nunca precisaram ser salvas. Na verdade, o problema não desapareceu.
"Nossas perdas têm aumentado cada vez mais nos últimos anos", diz Zac Browning, apicultor de quarta geração do Dakota do Norte (EUA). Neste inverno, ele perdeu mais da metade de suas abelhas. Em todo o país, os apicultores comerciais perderam, em média, 62% de suas colônias no último inverno.
A apicultura comercial pode um dia deixar de ser economicamente viável.
Embora seja improvável que as abelhas melíferas entrem em extinção, a apicultura comercial pode um dia deixar de ser economicamente viável — e as mesmas pressões ambientais que afetam as abelhas criadas em cativeiro também estão levando os polinizadores selvagens ao colapso.
A situação não é exatamente a mesma de 2006, quando os apicultores começaram a relatar um novo e estranho fenômeno: abelhas adultas desapareciam repentinamente de suas colmeias. Isso ficou conhecido como síndrome do colapso das colônias. Agora, trata-se de um cenário específico mais raro agora, mas dezenas de abelhas têm morrido todos os invernos desde então.
"Ainda estamos vendo perdas insustentáveis."
Christina Grozinger, da Universidade Estadual da Pensilvânia
"Ainda estamos vendo perdas insustentáveis", diz Christina Grozinger, professora de entomologia da Universidade Estadual da Pensilvânia. Nas últimas duas décadas, os apicultores frequentemente perderam de 30% a 40% de suas colônias durante o inverno, e isso é "muito difícil de administrar", afirma ela.
Eles estão gerenciando suas populações "dividindo" uma colmeia para produzir mais abelhas ou comprando mais abelhas quando há uma grande perda. Mas é difícil continuar.
"Do ponto de vista econômico, é absolutamente insustentável para uma operação apícola perder mais de 25% de suas colmeias em um ano.”
Zac Browning, apicultor
"Geralmente, quando você perde 50% das suas colmeias, é um sinal de que a operação está fraca", diz Browning. “Elas estão sofrendo de algum tipo de doença ou outro problema. E isso não é uma receita para ter abelhas saudáveis que se reproduzam bem. Do ponto de vista econômico, é absolutamente insustentável para uma operação apícola perder mais de 25% de suas colmeias em um ano.”
Leia mais: Calculadora mostra quantos animais são salvos ao recolher plástico na praia
Com a inflação e os juros sobre o dinheiro emprestado para reconstruir as colmeias repetidamente, “tudo se acumula”, ressalta o apicultor. “A viabilidade econômica geral do setor, e certamente da operação, é cada vez menor. Vemos operações falindo se tiverem perdas superiores a 25% ano após ano. É possível reconstruir, certamente, mas não é sustentável reconstruir todos os anos.”
AS ABELHAS SOMEM E A POLINIZAÇÃO É COMPROMETIDA
Se os apicultores perdem muitas abelhas, também fica difícil fornecer serviços de polinização. Em um pomar de amêndoas, por exemplo, as seguradoras exigem duas colmeias por acre para garantir que as árvores sejam totalmente polinizadas. (A produção de amêndoas na Califórnia utiliza cerca de 1,7 milhão de colmeias, com 80 bilhões de abelhas.)
As empresas de apicultura foram obrigadas a fazer parcerias com outras para cumprir as obrigações contratuais. Browning afirma que é por isso que, até agora, os agricultores ainda conseguem produzir culturas que dependem das abelhas melíferas para a polinização, desde amêndoas a mirtilos.
Leia mais: Nova York usa rios para entregas e reduz trânsito de caminhões
A questão não é se as abelhas melíferas desaparecerão, mas se o modelo de negócios que as sustenta conseguirá sobreviver.
Para os polinizadores selvagens que não contam com o apoio de gestores humanos, a situação é mais complexa. Um artigo recente do Washington Post argumentou que temos nos preocupado com as abelhas melíferas quando deveríamos ter nos preocupado com as abelhas selvagens. Todas as abelhas estão lidando com a redução do habitat e o menor acesso às flores de que precisam para sobreviver, além de uma maior exposição a pesticidas. As mudanças climáticas também estão afetando o período de floração.
E AS ABELHAS SELVAGENS, COMO ESTÃO?
As abelhas melíferas sofrem estresse quando não recebem os nutrientes necessários ao se alimentarem das flores de uma única cultura, bem como quando viajam longas distâncias para realizar a polinização (algumas colônias são transportadas por caminhão por 3.200 quilômetros para polinizar amêndoas). Elas também são vulneráveis ao ácaro Varroa, uma praga que causa doenças. Tanto as abelhas melíferas criadas em cativeiro quanto as selvagens enfrentam desafios claros, e a maioria dos problemas se sobrepõe. "Essa narrativa não ajuda, porque elas realmente enfrentam os mesmos problemas", diz Grozinger.
Leia mais: Gigantesca pedreira que ajudou a construir Pequim vira parque
Quando o colapso das colônias de abelhas melíferas ganhou destaque na mídia, isso ajudou a chamar mais atenção para outras espécies de abelhas — embora seja verdade que os holofotes ainda estivessem voltados para as abelhas melíferas.
"Acho que o primeiro efeito foi despertar muitas pessoas para o fato de que os polinizadores são realmente importantes tanto para a agricultura quanto para os ecossistemas."
Scott Black, da Xerces Society for Invertebrate Conservation.
"Acho que o primeiro efeito foi despertar muitas pessoas para o fato de que os polinizadores são realmente importantes tanto para a agricultura quanto para os ecossistemas", diz Scott Black, diretor executivo da organização sem fins lucrativos Xerces Society for Invertebrate Conservation. “Então, esse é o primeiro ponto. Mas, em segundo lugar, todos pensavam: ‘Polinizadores são iguais a abelhas’”.
SOLUÇÕES QUE NÃO PASSAM DE PROMESSA
Algumas “soluções” que se popularizaram para ajudar as abelhas eram equivocadas — como os hotéis para abelhas, que alguns cientistas chamam de “lavagem de abelhas”, ou a instalação de colmeias em telhados de empresas. Mas isso não ajuda em nada a agricultura.
Leia mais: “Saunas para rãs” entram na luta contra doença que devasta anfíbios
Como as abelhas melíferas não são nativas dos EUA, tê-las em locais inadequados pode significar que elas sobrepastoreiam as flores. Consequentemente, não sobra pólen suficiente para os polinizadores nativos, diz Black. (Em um mundo ideal para as abelhas nativas, talvez as abelhas melíferas nem devessem ter sido importadas para a América do Norte. É inegável, porém, que elas são uma parte necessária do sistema alimentar como ele existe atualmente.)
Tanto as abelhas criadas em cativeiro quanto as selvagens claramente precisam de ajuda.
Todos os vários planos para ajudar as abelhas melíferas também podem ajudar os polinizadores selvagens. Isso inclui reduzir o uso de pesticidas — tanto em fazendas quanto nos 16 milhões de hectares de gramados nos EUA — e restaurar as flores silvestres, diz Black.
Seja qual for a solução, a falta de foco na saúde das abelhas não se deve ao fato de os problemas estarem resolvidos: tanto as abelhas criadas em cativeiro quanto as selvagens claramente precisam de ajuda.
Centenas de polinizadores nativos da América do Norte estão agora em risco de extinção. A questão não é se as abelhas melíferas precisam ser salvas. É se estamos dispostos a corrigir as condições que estão prejudicando todos os polinizadores.