Tecnologia brasileira é alavanca para inclusão financeira de empreendedores
Fintechs ligadas a grandes plataformas usam dados transacionais e IA para ampliar crédito, organizar o caixa e reduzir barreiras históricas para pequenos negócios

A espinha dorsal da economia brasileira são os milhões de micro e pequenos empreendedores, que representam 90% das empresas do país, movimentam 30% do PIB e são os maiores empregadores com carteira assinada, segundo dados recentes do Ministério do Trabalho e Receita Federal. É também o grupo com a maior lacuna de crédito e, ao mesmo tempo, o de maior potencial de inclusão financeira.
Historicamente, esses empresários enfrentam dificuldade de acesso ao sistema financeiro tradicional. Esse quadro começa a mudar com a ascensão das fintechs, principalmente as conectadas a ecossistemas. Elas oferecem soluções integradas, desburocratizam e profissionalizam a gestão financeira. Na prática, são hoje uma peça-chave para o desenvolvimento dos pequenos negócios no Brasil.
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É nesse espaço que as fintechs de ecossistema se estabelecem como agentes cruciais de inclusão. Elas inovam na forma de avaliar o risco e facilitam a tomada de crédito justamente porque conhecem a fundo quem está do outro lado do balcão. Como enxergam o fluxo de caixa real do negócio e têm inteligência de dados, tomam melhores decisões de crédito. Com isso, constroem modelos de risco que não dependem exclusivamente de garantias tradicionais, histórico bancário ou imposto de renda.
No lugar de olhar apenas para o balanço, que muitas vezes está desorganizado ou desatualizado por falta de tempo ou de conhecimento em temas como educação financeira, essas fintechs avaliam o comportamento de vendas ao longo do tempo. Ajustam o crédito ao fluxo de caixa e faturamento real. Esse cenário é muito comum, por exemplo, no universo dos restaurantes.
Ao simplificar o adiantamento de recebíveis e crédito, sem exigir garantias tradicionais, essas soluções fazem o dinheiro chegar a quem realmente precisa. Isso fortalece a autonomia financeira dos empreendedores e dá fôlego para reformas, capital de giro e crescimento.
A Ipsos-Ipec foi contratada pelo iFood Pago, como consultoria externa, para mensurar o impacto que a concessão de crédito a restaurantes parceiros – da ordem de R$ 2,83 bilhões até agora. Os resultados da pesquisa mostram que 7 em cada 10 restaurantes que tiveram acesso ao empréstimo viram seu negócio prosperar. Para a grande maioria dos entrevistados, o acesso ao crédito ajudou na estabilidade financeira do restaurante, a enfrentar imprevistos e a iniciar ou realizar algum plano. Além disso, 63% dos restaurantes que tomaram crédito com o iFood Pago, confirmam que não tiveram acesso ao recurso por meio de instituições tradicionais.
Segundo o IBGE, 20% das empresas empregadoras no Brasil fecham as portas já no primeiro ano de atuação e quase dois terços não chegam a cinco anos.
Mas a verdadeira inclusão financeira não termina no crédito. Sem organização de caixa, o empréstimo vira alívio de curto prazo e então, uma questão no médio prazo. Segundo o IBGE, 20% das empresas empregadoras no Brasil fecham as portas já no primeiro ano de atuação e quase dois terços não chegam a cinco anos. Esses números reforçam a urgência da inclusão financeira digital e do acesso responsável ao crédito.
Por isso, as fintechs de ecossistema mais maduras investem em contas digitais empresariais e soluções financeiras desenhadas para o pequeno e médio empreendedor que já está nas plataformas. Tudo baseado no comportamento transacional de cada negócio, uma individualização que só é possível graças à tecnologia e ao uso de IA. Neste cenário, ocorre naturalmente a separação da conta pessoa física (CPF) e da conta pessoa jurídica (CNPJ). A divisão deixa de ser apenas uma recomendação e vira rotina operacional, tornando-se também uma vantagem competitiva.

A tecnologia, aqui, não é luxo. É o antídoto que promove a organização financeira, uma das principais causas de mortalidade dos pequenos negócios. A próxima fronteira é combinar isso com Inteligência Artificial Generativa desenvolvida por e para brasileiros. Ao acoplar essa tecnologia nacional a uma conta digital empresarial e aos dados transacionais, surge um “copiloto financeiro” para o pequeno negócio, que entende o mercado do Brasil e fala a língua do empreendedor.
Em vez de navegar por telas complexas, o empreendedor pode simplesmente perguntar: “Quanto eu faturei nos últimos 30 dias?” ou “Se eu antecipar 30% dos meus recebíveis, qual será o custo, prazo para pagamento e quanto preciso faturar nos próximos meses para manter a saúde financeira?” e receber respostas em linguagem simples, com a opção de executar as ações na própria conversa.
Essa simplicidade operacional reduz barreiras de uso, economiza tempo e fortalece a autonomia financeira do empreendedor. Ele passa a enxergar suas finanças como algo simples de gerir e não mais como um “bicho de sete cabeças” que só especialistas sabem resolver.
A expansão da inclusão financeira só será sustentável se vier acompanhada de transparência de custos e riscos, educação financeira integrada às soluções e uso responsável dos dados, em linha com boas práticas de segurança, privacidade e regulação.
Mas o avanço dessas soluções exige contrapartidas claras. A expansão da inclusão financeira só será sustentável se vier acompanhada de transparência de custos e riscos, educação financeira integrada às soluções e uso responsável dos dados, em linha com boas práticas de segurança, privacidade e regulação.

Em síntese, as fintechs de ecossistema deixam de ser apenas meios de pagamento e se consolidam como infraestrutura para o crescimento dos pequenos e médios negócios brasileiros, transformando exclusão histórica em potencial real de desenvolvimento econômico.
É justamente esse debate que levei à minha participação no último Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Nosso objetivo é fomentar práticas que apoiem o pequeno e médio empreendedor brasileiro, além de catalisar novas parcerias. Queremos mostrar como a inovação tem impacto real no setor, ampliar as discussões sobre o futuro do empreendedorismo e contribuir para o debate global sobre acesso ao crédito e inclusão financeira digital.
Pesquisa Ipsos-Ipec: Estudo quantitativo com entrevistas realizadas por ligação telefônica realizado pela Ipsos-Ipec a pedido do iFood com abrangência nacional entre 02 e 15 de dezembro de 2025. Foram realizadas 889 entrevistas com restaurantes parceiros do iFood, com 200 delas realizadas com tomadores de crédito do iFood Pago. Margem de erro de 4 p.p. para 689 entrevistas com não tomadores de crédito iFood Pago e margem de erro de 7 p.p. para 200 entrevistas com tomadores de crédito do iFood Pago, ambas considerando 95% nível de confiança.