Quando a IA escreve por você, quem está pensando?
A escrita com IA promete produtividade, mas reacende o debate sobre originalidade, erros e o papel humano no processo criativo

A inteligência artificial vai nos levar a um nível ainda mais alto de criatividade ou nos transformar em Sims cabeças ocas, despejando respostas de chatbot?
Essa pergunta tem polarizado boa parte da internet. De um lado, estão os defensores entusiasmados, que acreditam que a escrita com IA acelera o processo, permitindo transformar rapidamente tópicos em textos elegantes e livres de erros.
Do outro, surgem os críticos, que argumentam que escrever com IA viola algo quase sagrado e que, ao usar um grande modelo de linguagem (LLM), você não só degrada o ofício, como também a si próprio.
Na sua forma ideal, a IA é uma tecnologia que nos permite delegar ou concluir tarefas de maneira mais inteligente e rápida.
No último mês, usei IA de formas extremamente úteis: traduzi páginas de um sumário do russo para o inglês para localizar melhor seções de um livro; criei e ajustei um gráfico que levaria muito mais tempo para fazer sozinha; e gerei código capaz de organizar um conjunto de dados em um formato claro e legível.
Mesmo quando usadas como mecanismo de busca, ferramentas como Claude e ChatGPT oferecem resultados muito mais amplos e úteis do que as plataformas que eu usava antes, especialmente em temas de nicho (desculpe, Google!).
Mas escrever, em sua forma ideal, é a organização final e deliberada dos seus pensamentos – o penúltimo passo do processo criativo antes de enviar algo para ser lido e absorvido por outras pessoas.

Escrever não é apenas pensar; é o pensamento que você assume quando finalmente está pronto para falar com autoridade.
Terceirizar a escrita para a IA é abrir mão justamente da etapa que exige que você declare domínio sobre o tema, incluindo o entendimento de como usou a própria IA para chegar às suas conclusões.
Depender da escrita com IA é operar sob o modelo, e não acima dele, além de recorrer a uma tecnologia poderosa e disruptiva talvez para sua aplicação menos surpreendente.
PRÓS E CONTRAS DA ESCRITA COM IA
Alguns desses argumentos contra a escrita com IA são bastante práticos. O principal deles: a IA “alucina” e faz afirmações (muitas vezes com confiança) que simplesmente estão erradas.
É verdade que os modelos estão melhorando, mas também é verdade que ainda podem inserir erros nas respostas. Em testes recentes, o Google revelou que o Gemini, o mesmo modelo que gera os resumos nas buscas, erra cerca de 10% das vezes.
Outra preocupação é que escrever com IA e ler textos gerados por IA pode provocar efeitos sociológicos e psicológicos negativos. Há pesquisas sugerindo que a IA está homogeneizando a linguagem, empurrando tudo para uma espécie de denominador comum digital que apaga contextos culturais, individuais e até gramaticais.
“se uma IA gera uma história de 10 mil palavras a partir do seu prompt, ela precisa tomar as decisões que você não está tomando.”
Há um medo ainda maior: o de que a IA esteja nos deixando mais burros. Alguns estudos indicam que isso pode estar acontecendo. Um grupo de pesquisadores do MIT e de outras universidades próximas sugere que o uso de LLMs pode reduzir nossa atividade neural – mas a pesquisa sobre esse tema ainda está em andamento.
E existe mais um ponto: muitos argumentam que a escrita com IA é ruim porque carece da inventividade humana. Houve um tempo em que textos gerados por IA eram identificáveis por certos padrões gramaticais (lembra do “apocalipse do travessão”?).
Mas, à medida que a IA evolui, as críticas também evoluem e ficam mais complexas. Os defensores da tecnologia, por sua vez, têm uma infinidade de respostas para esses argumentos e para as mudanças constantes de critério.
IAs ERRAM, HUMANOS TAMBÉM
Esse é um debate em curso que nos obriga a encarar de frente o que é a escrita com IA, o que é o pensamento humano e uma série de outras questões fundamentais.
A IA comete erros, mas humanos também. A escrita com IA pode parecer ruim hoje, mas a tecnologia está melhorando rapidamente e distinguir entre o que é humano e o que é gerado por máquina está ficando cada vez mais difícil.
Além disso, o setor de tecnologia costuma afirmar que consegue corrigir as falhas dos próprios produtos com engenharia. E pode até ser que a IA esteja nos deixando mais burros, mas também somos naturalmente inclinados a buscar eficiência e usar ferramentas que nos ajudem.
Leia mais: Como a tecnologia torna o dia a dia mais fácil e a vida, mais difícil
Usar IA para pesquisa exige, sobretudo, entender a diferença entre processos determinísticos e estocásticos, ter clareza sobre falsos positivos e falsos negativos e conhecer os limites dos mecanismos de busca e dos dados disponíveis.
É preciso estar familiarizado com os tipos de erro que a IA pode cometer, da mesma forma que você sabe que um estagiário pode inventar informações ou se confundir. Se não tiver essa noção, você não deveria usar IA para nada sério.
ESCREVER EXIGE ESFORÇO E CLAREZA
Os melhores usos da IA acontecem acima do modelo – ou seja, o humano precisa estar no controle. Talvez você não domine os pesos e vieses que fazem um LLM funcionar, nem as camadas internas de uma rede neural. Mas precisa ter alguma noção do que acontece “por dentro”.
É preciso entender o que a IA está fazendo para orientá-la melhor, seja corrigindo erros, seja direcionando-a para resultados mais produtivos. A IA deve ser seu cão de caça, não um sentinela.

O escritor Ted Chiang argumentou, em um artigo na revista "The New Yorker", que “se uma IA gera uma história de 10 mil palavras a partir do seu prompt, ela precisa tomar todas as decisões que você não está tomando”.
Há uma conclusão óbvia nisso tudo: o processo de escrita é confuso, frustrante e muitas vezes imprevisível, mas, no fim, você precisa chegar a uma espécie de acordo entre os pensamentos que giram na sua mente e as palavras no papel. Esse é um dos momentos mais importantes e satisfatórios de todo o processo.
Se você não está elaborando seus próprios pensamentos e escrevendo sobre eles, não vai chegar a esse ponto de resolução. E deixa de participar das etapas essenciais para decidir o que é verdadeiro, ainda que seja apenas para você.
Leia mais: Contra a maré da IA: por que alguns preferem viver longe dos algoritmos
Na escrita, há um velho conselho: escreva sobre o que você sabe. O que, claro, exige que você realmente saiba alguma coisa.