5 perguntas para Ana Apleiade, astrofísica e pesquisadora
Como divulgadora científica e pesquisadora, a cientista quer que mais pessoas, principalmente mulheres negras, se encantem pela ciência espacial

Com fotos, vídeos e áudios dos astronautas, a missão Artemis II trouxe o espaço para perto na última semana. Por alguns dias, todos tiveram uma janelinha para observar a Lua e o espaço profundo, abrindo espaço para o maravilhamento e a curiosidade. A astrofísica da Universidade de São Paulo Ana Apleiade gostaria que essa janela continuasse aberta.
Como divulgadora científica e pesquisadora, Ana quer que mais pessoas, principalmente mulheres negras, se encantem pela ciência espacial. A pesquisadora da USP faz parte de um seleto grupo de brasileiros que estuda a matéria escura, elemento que está em quase um terço do universo.
Ana também faz parte de outro seleto grupo, que não deveria ser tão seleto assim: o de mulheres negras na ciência brasileira, que compõe menos de 6% dos pós-graduandos em ciências exatas no país. Tal é a situação que a astrofísica luta para mudar. No ano passado, ela foi uma das organizadoras do primeiro workshop voltado para profissionais de física negros brasileiros.
Nas suas redes sociais, Ana fala de um dos assuntos mais complexos da ciência de maneira acessível para milhares de seguidores, Os vídeos são claros e até bem-humorados – quase como uma amiga contando uma história.
FC Brasil – A missão Artemis II levou quatro astronautas para a órbita lunar: três homens e uma mulher. Um dos homens, negro. Que tipo de impacto simbólico isso tem para quem trabalha com ciência, especialmente mulheres negras no Brasil?
Ana Apleiade – Tem impacto para a gente, sim. As histórias de voos espaciais vem desde a época da Guerra Fria e só agora a gente tem uma mulher e um homem negro sobrevoando o espaço lunar. É importante para a gente continuar na discussão sobre racialidade nas ciências exatas, que é algo que não é discutido.
Não vemos discussões sobre mulheres negras acessando esses espaços, que são majoritariamente de homens brancos. E quando essas mulheres e outras minorias acabam entrando na universidade, o que a gente percebe? Que existe um movimento de exclusão.
Aí funciona como um funil. As pessoas entram na graduação, mas acabam passando por situações diversas que dificultam a manutenção na universidade. Se chegam até uma pós-graduação, passam por estruturas que levam à evasão.
A Artemis II mostra que, apesar das consequências da sociedade machista e racista, as pessoas ainda conseguem chegar no espaço. Mesmo que sejam uma mulher e um homem negro estadunidenses, ainda fica esse símbolo. Pode funcionar de espelho e representação para continuarmos lutando pelos nossos direitos.
FC Brasil – Em termos científicos, por que é relevante para o futuro estudar o espaço? O que a pesquisa espacial nos permite entender que nenhuma outra área da ciência consegue acessar?
Ana Apleiade – A exploração espacial é uma coisa com que a gente sonha e imagina desde que o mundo é mundo. Quanto mais se pesquisa, mais se avança no entendimento do universo – mas também na curiosidade. Poder ir ao espaço e trazer amostras físicas é quase como se a gente pudesse tocar o que estuda na teoria.
Uma rocha da Lua, por exemplo: na astrofísica, temos muitas técnicas para descobrir quais substâncias existem na Lua, quais metais há no solo. Mas esquecemos que é bom também poder tocar, examinar fisicamente.

Hoje, vivemos na fronteira de uma revolução espacial que está prestes a emergir. Nossa geração, infelizmente, não vai ter acesso a viagens espaciais. Mas, no futuro, nossos filhos e netos já vão viver sabendo que a viagem para o espaço é algo comum.
O avanço da humanidade vai vir com o avanço do entendimento sobre como o nosso planeta e o universo funcionam. E o principal: entender que não estamos sozinhos no universo. Entender que somos o pálido ponto azul no universo que Carl Sagan falava.
Leia mais: Jantar em Marte: como a agricultura espacial vai transformar a comida da Terra
É importante ter essa reflexão e essa perspectiva de que somos minúsculos comparados ao resto do universo, mas que somos capazes de fazer muita coisa.
FC Brasil – Você também atua como divulgadora científica nas redes sociais. Quais os principais desafios de se falar sobre temas complexos para um público amplo, especialmente em um ambiente onde a desinformação circula com tanta facilidade?
Ana Apleiade – É um processo extremamente difícil. Me sinto em dois mundos: no mundo acadêmico e no da divulgação científica das redes sociais. Na academia, é preciso manter um rigor formal nas pesquisas; na divulgação científica, precisa ter uma linguagem mais acessível, neutra. É complicado manter as duas narrativas.

Outra coisa complexa é a reação do público a quem está falando. Existe um senso comum de como um astrofísico se parece, de como ele é fisicamente. Quando as pessoas veem uma mulher negra nesse espaço, causa estranheza.
Essa estranheza traz dois tipos de reações do público: uma parte aceita que o mundo está mudando e acolhe, enquanto outra responde de maneira raivosa porque quer manter o status quo e o padrão. Geralmente, existem mais pessoas desse segundo público que tem muita raiva reprimida.
É muito difícil porque a internet tem essa ideia de que ali é uma terra sem lei. Então tem muito hate, muito racismo, misoginia, o que deixa o trabalho ainda mais complicado.
FC Brasil – Há poucas mulheres na liderança de pesquisas na astronomia e pouquíssimas mulheres negras (menos de 2%). Você tem atuado diretamente para ampliar a presença de mulheres negras na ciência. O que ainda trava essas trajetórias no Brasil? E como fazemos para a mudar?
Ana Apleiade – O que trava é a falta de políticas públicas para mulheres continuarem nas universidades. Porque somos mulheres e somos pessoas, somos negras, Além do machismo da vida acadêmica, que na ciências exatas é extremamente alto, enfrentamos também o racismo.
Leia mais: Como seria uma nave mais veloz que a luz? Segundo a ciência, seria como a Enterprise
Se não tivermos políticas públicas para ajudar a concentrar essas pessoas na faculdade, para fazê-las pertencentes à universidade, vamos continuar com um percentual baixo de mulheres negras liderando áreas diferenciadas como a astronomia.
FC Brasil – A pesquisa da qual você participa na USP tenta descobrir novas formas de detectar neutrinos, partículas subatômicas sem cargas elétricas que quase não deixam rastros, mas que são superabundantes no universo. Quais as perguntas sobre o universo que você gostaria de ajudar a responder?
Ana Apleiade – A principal pergunta com a qual eu gostaria de contribuir cientificamente é o que é a matéria escura. Minha pesquisa segue em busca da detecção do que é essa tal matéria, que compõe 26% do universo.
Responder isso, além de ser digno de um Prêmio Nobel, seria revolucionário para entender como o universo funciona. Imagina entender 26% de como o universo funciona!