O que perguntar — e evitar — no fim da entrevista

Entrevistas seguem cheias de vieses, mas entender seu funcionamento ajuda a se destacar de forma estratégica

Dois profissionais apertam as mãos em ambiente corporativo, enquanto aviões de papel com pontos de interrogação sobrevoam a cena. A composição sugere negociações, dúvidas estratégicas, incerteza em acordos ou decisões de negócios.
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Tomas Chamorro-Premuzic 4 minutos de leitura

Apesar de todos os avanços em ciência de dados, inteligência artificial e avaliações comportamentais, um ritual de contratação permanece teimosamente inalterado: a entrevista de emprego.

Nela, candidatos ainda enfrentam situações desconfortáveis, como resolver perguntas absurdas, falar sobre “maiores fraquezas” diante de avaliadores pouco preparados ou responder a questionamentos que parecem mais testes sociais do que avaliações reais de competência.

Mesmo com décadas de estudos mostrando que entrevistas tradicionais têm apenas confiabilidade moderada para prever desempenho, as organizações continuam a depender fortemente desse modelo.

Na prática, a entrevista típica pouco mudou: segue sendo uma conversa pouco estruturada, na qual recrutadores formam impressões com base em intuição, afinidade e suposições.

POR QUE AS ENTREVISTAS AINDA PERSISTEM

Do ponto de vista científico, esse modelo está longe do ideal. Entrevistas não estruturadas são vulneráveis a diversos vieses bem documentados. Entre eles, o viés de similaridade (preferência por quem se parece com o entrevistador), o efeito halo (influência da aparência ou carisma) e a chamada “adequação cultural”.

As primeiras impressões têm peso desproporcional, mesmo quando baseadas em sinais frágeis. Muitas vezes, o carisma acaba sendo mais valorizado do que a competência real.

Ainda assim, as entrevistas continuam sendo amplamente utilizadas. O motivo é simples: recrutadores, como a maioria das pessoas, acreditam que conseguem identificar talentos com base na interação direta. Isso faz com que esse modelo dificilmente desapareça no curto prazo.

O MOMENTO MAIS SUBESTIMADO DA ENTREVISTA

Para quem participa de processos seletivos, essa realidade pode ser usada de forma estratégica. O comportamento humano pode ser previsível, e entender isso ajuda a evitar erros comuns.

Um dos momentos mais negligenciados ocorre no final da entrevista, quando surge a pergunta: “Você tem alguma dúvida?”. Muitos candidatos tratam isso como formalidade. Alguns dizem que não têm perguntas; outros improvisam algo na hora.

Ambas as atitudes são arriscadas. Não fazer perguntas pode indicar desinteresse ou falta de preparo. Já perguntas mal formuladas podem prejudicar uma avaliação que vinha sendo positiva.

REGRA 1: EVITE PERGUNTAS CENTRADAS EM VOCÊ

Um erro comum é fazer perguntas focadas exclusivamente em benefícios pessoais. Exemplos incluem dúvidas sobre férias, promoções rápidas, aumentos ou flexibilidade extrema de horário.

Embora sejam questões legítimas, levantá-las cedo demais transmite a ideia de que o foco está apenas no ganho individual, e não na contribuição para a empresa.

Uma abordagem mais eficaz é direcionar as perguntas para a função, a equipe e os objetivos da organização. Isso demonstra maturidade e visão profissional.

REGRA 2: DEMONSTRE PREPARO

Uma forma simples de se destacar é mostrar que você pesquisou sobre a empresa. Perguntas genéricas, como “o que a empresa faz?”, revelam falta de preparo.

Já perguntas que mencionam informações concretas — como expansão, projetos recentes ou estratégias — mostram interesse genuíno e envolvimento.

Isso sinaliza que o candidato não está apenas participando de mais uma entrevista, mas realmente considera aquela oportunidade.

REGRA 3: USE PERGUNTAS PARA MOSTRAR QUALIDADES

As perguntas também funcionam como uma forma indireta de destacar competências.

Perguntar sobre aprendizados iniciais demonstra curiosidade. Questionar interações entre equipes revela inteligência emocional. Falar sobre critérios de sucesso indica ambição e foco em resultados.

Cada pergunta comunica algo sobre o perfil do candidato, mesmo sem ele afirmar isso diretamente.

REGRA 4: ESCUTE E INTERAJA

Fazer boas perguntas é importante, mas ouvir as respostas com atenção é essencial. Os candidatos mais preparados transformam esse momento em diálogo.

Ao aprofundar uma resposta ou conectar a fala do entrevistador com experiências próprias, o candidato demonstra atenção, capacidade de raciocínio e habilidade de comunicação.

Isso reforça sua experiência de forma natural, sem parecer ensaiado.

REGRA 5: NÃO EXAGERE

Não fazer perguntas pode prejudicar sua imagem, mas fazer perguntas demais também é um erro. O ideal é manter equilíbrio: uma ou duas perguntas relevantes são suficientes.

Entrevistadores geralmente têm tempo limitado. Estender demais esse momento pode transmitir falta de percepção social.

O tom também importa. As perguntas devem parecer naturais — nem decoradas demais, nem improvisadas demais.

A PIOR RESPOSTA POSSÍVEL

Existe uma resposta que quase sempre causa má impressão: “Não, acho que você já explicou tudo”.

Isso sugere falta de curiosidade ou despreparo. Nenhuma dessas interpretações é favorável.

O VERDADEIRO OBJETIVO DAS PERGUNTAS

Em teoria, esse momento final serve para o candidato avaliar a vaga. Na prática, ele funciona como mais uma etapa de avaliação.

Os entrevistadores analisam não apenas o conteúdo das perguntas, mas o que elas revelam sobre o candidato: interesse, preparo, prioridades e habilidades sociais.

Mesmo com avanços tecnológicos no recrutamento, a entrevista continua sendo um processo subjetivo. Ao entender isso, fica mais fácil agir de forma estratégica.

No fim, a diferença entre uma entrevista comum e uma memorável pode estar em algo simples: fazer a pergunta certa, no momento certo.


SOBRE O AUTOR

Tomas Chamorro-Premuzic é diretor de inovação do ManpowerGroup, professor de psicologia empresarial na University College London e na ... saiba mais