Nova York cria abrigo para entregadores de app nas ruas
Entregadores em Nova York conquistam um ponto de apoio para recarga de equipamento, abrigo e apoio no dia a dia

A previsão do tempo indicava um dia com ventos fortes, mas por volta do meio-dia, no centro de Manhattan, o clima parecia perfeito para a primavera. O sol brilhava alto no céu, enquanto pessoas se reuniam na calçada, na esquina da City Hall. Funcionários municipais circulavam pelo local, conversando animadamente.
O motivo da celebração não era o tempo, mas um quiosque moderno e elegante que ocupava o lugar de uma antiga banca de jornal abandonada.
A estrutura pode não parecer grande coisa, mas levou anos para sair do papel. Desde 2021, o sindicato de entregadores por aplicativo Los Deliveristas Unidos vinha pressionando a cidade para construir espaços ao ar livre onde pudessem descansar com segurança durante o trabalho, recarregar baterias de bicicletas elétricas e se proteger do mau tempo.
O público estava ali para a inauguração do primeiro “hub de entregadores”, uma ideia discutida por anos até ganhar tração recentemente, quando o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, decidiu acelerar o projeto após longos atrasos burocráticos.
Quando vários entregadores chegaram, vestidos com jeans, jaquetas de motociclista e capacetes, o clima já era de entusiasmo.
“É para isso que serve o espaço público”, disse a comissária de parques da cidade, Tricia Shimamura, atrás de um púlpito ao lado do quiosque, com suas paredes de vidro e colunas metálicas. “É assim que a cidade deve servir as pessoas que a mantêm funcionando.”
Em Nova York, mais de 80 mil trabalhadores saem todos os dias para entregar de tudo diretamente na porta dos clientes, de burritos a compras de supermercado.
Muitos usam bicicletas elétricas, scooters e ciclomotores em vez de carros, o que os torna mais vulneráveis a eventos climáticos extremos, como ondas de calor e enchentes repentinas, cada vez mais frequentes devido às mudanças climáticas.

A ideia dos hubs de entregadores nasce no cruzamento entre direitos trabalhistas e justiça climática. Se a cidade expandir essas estruturas pelos cinco distritos, elas poderão oferecer abrigo em diferentes condições climáticas e também servir como ponto de encontro entre trabalhadores.
Em breve, o hub do sul de Manhattan contará com atendimento cinco dias por semana de um membro do Worker’s Justice Project, organização que apoia o sindicato. Entregadores interessados em se sindicalizar poderão usar o espaço como ponto de partida.
Ligia Guallpa, diretora executiva do Worker’s Justice Project, classificou a inauguração como uma vitória da classe trabalhadora. Segundo ela, os entregadores estão “redefinindo o possível” em cidades como Nova York, onde “os espaços públicos historicamente foram pensados para carros, para os ricos e para os privilegiados”.
Em Nova York, mais de 80 mil trabalhadores saem todos os dias para fazer entregas pela cidade.
Gustavo Ajche, cofundador do sindicato, contou que a ideia surgiu no auge da pandemia. “Estávamos muito isolados”, contou. “Não havia para onde ir. Tudo estava fechado e a situação ficou muito difícil. Vi colegas trabalhando tentando se proteger do frio, da chuva e do vento.”
Ele percebeu que partes da infraestrutura urbana estavam abandonadas e poderiam ser reaproveitadas para proteger os trabalhadores. Ainda assim, o caminho até a inauguração não foi simples.
Ajche criticou a gestão anterior, liderada por Eric Adams, pela demora na liberação das autorizações necessárias. Já sob o prefeito Mamdani, disse ele, o processo avançou mais rápido. Após anos de espera, a obra levou cerca de um mês.
Apesar da inauguração, o hub ainda estava praticamente vazio – sem estações de carregamento ou sistema de climatização, que devem ser instalados posteriormente, segundo o Worker’s Justice Project.

A névoa que caía sobre o público, aliás, não era chuva, mas respingos de limpadores de janelas de um prédio próximo.
Ainda assim, alguns entregadores aproveitaram para tirar fotos ao lado do quiosque. Ao lado de Guallpa, que segurava um buquê de flores, o grupo entoou gritos de “Deliverista! Power!”, sorrindo para as câmeras e erguendo os punhos.
Este artigo foi publicado no site Grist e reproduzido com permissão. Leia o artigo original