Mercado reage com calma à saída de Tim Cook do comando da Apple

Mudança histórica no comando da Apple não assusta investidores, que apostam na continuidade com a chegada de John Ternus

Tim Cook deixará o comando da Apple em setembro
Créditos: Alberto Rodriguez/ Variety/ Getty Images/ Steve A. Johnson/ Unsplash

Michael Grothaus 4 minutos de leitura

Nesta segunda-feira (20 de abril), a Apple anunciou a saída de Tim Cook, seu CEO de longa data, que será substituído por John Ternus, atual vice-presidente sênior de engenharia de hardware. O movimento marca a primeira troca no comando da Apple desde que Cook assumiu o posto de Steve Jobs, em 2011.

No entanto, enquanto a última mudança de CEO sacudiu as ações da Apple Inc., desta vez os papéis da empresa permanecem relativamente estáveis – ao menos por enquanto.

A Apple soltou a bomba ontem, após o fechamento dos mercados: Tim Cook, CEO há mais de 15 anos, vai deixar o cargo em setembro e John Ternus foi o escolhido para substituí-lo Normalmente, mesmo em empresas menores, mudanças no comando deixam investidores nervosos. Afinal, ninguém gosta de incerteza.

Mas, em uma empresa do porte e do valor da Apple, a troca de CEO é algo monumental e traz uma série de dúvidas sobre como o negócio será conduzido daqui para frente. Essas incertezas podem levar investidores a vender ações, pelo menos até entenderem melhor o cenário.

E foi exatamente isso que aconteceu na última grande mudança. Em 24 de agosto de 2011, a Apple anunciou que Steve Jobs deixaria o cargo de CEO, com Tim Cook assumindo a posição. Como resultado, as ações da empresa caíram imediatamente mais de 6%.

Mas desta vez não houve nenhuma queda dramática simplesmente. No momento em que este texto foi escrito, os papéis da Apple operavam praticamente estáveis, com leve recuo de cerca de 0,2% – uma oscilação típica de pré-mercado em dias sem grandes notícias.

Então por que os investidores estão reagindo com tanta calma? Há três explicações prováveis.

1. A Apple não é mais uma "banda de um só"

O primeiro motivo tem nome e sobrenome: Steve Jobs.

Em 2011, a Apple era vista como praticamente indissociável de Jobs. Além de cofundador, ele havia retornado à empresa no fim dos anos 1990 e liderado sua transformação na companhia de tecnologia mais influente do mundo.

Steve Jobs, fundador da Apple
Steve Jobs (Crédito: Apple)

Na década anterior à sua saída, a Apple de Jobs reinventou o mercado de tecnologia de consumo com produtos como iMac, iPod e iPhone.

Na época, muitos investidores temiam que o sucesso da empresa dependesse diretamente da visão inovadora de Jobs. Havia menos confiança no time de talentos que ele havia reunido. De lá para cá, porém, Cook e outros executivos provaram que esses temores eram exagerados.

Se o impacto de Jobs na Apple e na indústria é inegável, hoje também está claro que a empresa vai muito além de um único líder e que conta com uma equipe altamente competente, capaz de levar o negócio a patamares que nem o próprio Jobs imaginaria.

2. O fator Ternus

A escolha de John Ternus como novo CEO é outro motivo para a tranquilidade do mercado. Relatórios indicam que ele é bem quisto internamente e conhecido por ser um líder decisivo, com forte foco em hardware.

John Ternus, executivo da Apple
John Ternus (Crédito: Apple)

Mas Ternus também tem outro trunfo: a idade. Ele tem apenas 50 anos, o que abre espaço para uma gestão longa, possivelmente tão duradoura quanto a de Tim Cook. E estabilidade é exatamente o que investidores gostam de ver.

Além disso, Ternus já era apontado como o sucessor natural de Cook. Essa expectativa de longo prazo ajudou o mercado a se acostumar com a ideia, reduzindo o impacto da notícia.

3. Cook vai continuar à frente das relações institucionais

Sempre considerei a gestão de Cook como uma das melhores fases da história da Apple. Sob seu comando, a empresa saiu de um valor de mercado na casa das centenas de bilhões para ultrapassar os US$ 4 trilhões.

Tim Cook, CEO da Apple
Tim Cook (Crédito: Apple)

Mas Cook também se destacou em outras frentes além de vendas e crescimento de receita, especialmente nas relações governamentais, tanto durante a era Trump nos Estados Unidos quanto na China, o segundo maior mercado da Apple.

Sob sua liderança, a empresa pode até ter ditado termos a parceiros comerciais, mas não a governos. Em um cenário de regulações em constante mudança e tensões comerciais, saber dialogar com líderes políticos é tão estratégico quanto vender.

Cook provou várias vezes ser um dos executivos mais habilidosos nessa interlocução, competência lapidada ao longo dos anos. Mesmo com o executivo deixando o cargo de CEO, a Apple não perderá esse ativo.

Leia mais: Nesta era de governo Trump, a Apple precisa de Tim Cook mais do que nunca

Ao anunciar a transição, a empresa fez questão de destacar que, como presidente executivo, Cook continuará “interagindo com formuladores de políticas pelo mundo”.

Essa única frase provavelmente foi suficiente para aliviar o mercado, ao sinalizar que a empresa não está abrindo mão de seu principal articulador político.

PREÇO DAS AÇÕES SE MANTÉM ESTÁVEL

Os três fatores acima ajudam a explicar a estabilidade das ações da Apple no dia seguinte ao anúncio. No acumulado dos últimos 12 meses, as ações subiram mais de 38%.

Mas a verdadeira história está no desempenho durante a era Tim Cook. Quando assumiu como CEO, as ações da empresa eram negociadas a cerca de US$ 12 (ajustado por desdobramentos).

Desde então, os papéis acumulam valorização superior a 1.900% sob sua gestão – um salto que os investidores esperam ver Ternus repetir.


SOBRE O AUTOR

Michael Grothaus é escritor, jornalista, ex-roteirista e autor do romance "Epiphany Jones". saiba mais