OpenAI muda foco, abandona apostas e corre atrás de lucro

Empresa aposta em clientes corporativos para bancar custos da IA e enfrentar a rival Anthropic na corrida por receita

OpenAI corre atrás do lucro
Créditos: Deagreez/ blackdovfx/ via Getty Images

Matt O'Brien 5 minutos de leitura

O mesmo chatbot ChatGPT que sugeriu uma receita de tilápia para o jantar de domingo da diretora financeira da OpenAI, Sarah Friar, agora também cuida das tarefas mais rotineiras do seu trabalho, como resumir e-mails e mensagens no Slack.

Friar e outros executivos da empresa estão apostando o futuro da OpenAI justamente nesse segundo tipo de uso. A companhia está redirecionando seu foco para produtos voltados a negócios, enquanto abandona parte de suas iniciativas voltadas ao consumidor como caminho para alcançar a lucratividade.

A OpenAI diz que vai lançar um novo modelo de inteligência artificial voltado a “trabalho profissional de alto valor”, em meio ao aumento da concorrência com a rival Anthropic na disputa por clientes corporativos interessados em adotar assistentes de IA no ambiente de trabalho.

A OpenAI afirma ter mais de 900 milhões de usuários semanais de seu principal produto, o ChatGPT. Segundo Friar, cerca de 95% deles “não pagam nada” pelo chatbot.

Mas, embora essas interações ajudem a criar hábito e dependência, também pressionam a infraestrutura – extremamente cara – necessária para operar os sistemas de IA da empresa. Isso reforça a necessidade de grandes clientes corporativos para ajudar a pagar a conta.

Tanto OpenAI quanto Anthropic gastam mais do que arrecadam, o que intensifica a corrida por receitas enquanto avançam rumo a uma possível abertura de capital na bolsa de valores.

O esforço para melhorar o desempenho e as vendas dos produtos corporativos, que já são o principal negócio da Anthropic, levou a OpenAI a abandonar algumas iniciativas voltadas ao consumidor, como o aplicativo de geração de vídeos por IA Sora.

RECEITAS x DESPESAS

Com o codinome Spud, a empresa diz que seu “modelo mais inteligente até agora” oferece “raciocínio mais robusto, melhor compreensão de intenção e dependências, maior consistência na execução e resultados mais confiáveis em produção”.

Esse modelo faz parte da resposta da OpenAI ao novo Claude Mythos, da Anthropic, que a empresa rival descreve como tão “impressionantemente capaz” que seu uso está restrito a clientes selecionados – em parte devido à sua aparente habilidade de superar especialistas humanos em cibersegurança ao identificar ou explorar vulnerabilidades.

Enquanto a maioria das pessoas não tem acesso ao Mythos, a Anthropic lançou o Opus 4.7, descrito como seu modelo mais poderoso disponível ao público geral.

modelo Claude Opus 4.7, da Anthropic
Crédito: Anthropic

Friar diz que clientes corporativos representavam cerca de 20% da receita da OpenAI quando ela assumiu o cargo, em 2024. Hoje, esse número já chega a 40% e deve alcançar metade das vendas da empresa até o fim do ano.

É uma virada significativa em relação ao fim do ano passado, quando o cofundador e CEO Sam Altman promovia uma parceria (já encerrada) entre o Sora e a Disney, cogitava vender anúncios no ChatGPT e até sugeria permitir interações eróticas com usuários adultos pagantes.

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Um sinal claro dessa mudança foi a contratação, há três meses, de Denise Dresser, CEO do Slack, como a primeira diretora de receita da OpenAI.

Em entrevista recente, Dresser afirmou que está totalmente focada em se reunir com líderes corporativos e posicionar a OpenAI como a plataforma ideal para empresas que desejam usar agentes de IA para automatizar tarefas digitais.

“Está claro para mim que as empresas já passaram da fase de experimentação e agora estão usando IA para trabalho real”, disse Dresser. “Os líderes empresariais reconhecem que a IA provavelmente é a mudança mais importante de suas vidas.”

O CRESCIMENTO DA ANTHROPIC

Mas esses líderes também têm alternativas, principalmente o Claude, da Anthropic, que se tornou amplamente adotado por profissionais de software.

Fundada em 2021 por ex-executivos da OpenAI que afirmavam priorizar a segurança da IA, a Anthropic se posiciona como uma fornecedora mais responsável.

Essa imagem ganhou destaque quando a administração do presidente Donald Trump penalizou a startup após uma disputa contratual sobre o uso de IA no setor militar. Esse movimento abriu espaço para Sem Altman consolidar um acordo da OpenAI com o Pentágono.

O interesse do público pela Anthropic disparou e a empresa afirma ter atingido US$ 30 bilhões em receita anualizada – um número superior ao divulgado pela OpenAI, embora as empresas usem metodologias diferentes para aferir resultados. Ainda assim, a disputa segue acirrada e depende também do desempenho do mercado de ações e da economia global.

Arte futurista com mão robótica e elementos digitais iluminados, representando inovação e tecnologia em IA.
Crédito: Imagem criada com IA

“Eles provavelmente estão muito próximos”, diz Luke Emberson, pesquisador da organização sem fins lucrativos Epoch AI. “As tendências mostram que a Anthropic está crescendo muito mais rápido. Se isso continuar, eles devem ultrapassar a OpenAI em breve.”

Para os céticos quanto à viabilidade financeira da indústria de IA, a trajetória dessas empresas deficitárias é motivo de preocupação, especialmente à medida que startups menores se tornam cada vez mais dependentes de suas ferramentas.

A Anthropic já impôs limites de uso para usuários intensivos, obrigando alguns a esperar horas para acessar o Claude. Ambas as empresas também criaram planos de serviço que favorecem quem paga mais, observa o autor e crítico de IA Ed Zitron.

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Há, no entanto, um ponto de consenso entre defensores e críticos: trata-se de uma tecnologia cara e ainda não está claro se o custo, especialmente em energia para alimentar os sistemas de IA, compensa.

“As pessoas dizem que quando [as empresas] abrirem o capital estarão seguras. Isso não é verdade”, afirma Zitron. “Empresas de capital aberto também podem quebrar, em especial aquelas que dependem de US$ 100 bilhões a US$ 200 bilhões por ano apenas para continuar respirando.”


SOBRE O AUTOR

Matt O'Brien é repórter de tecnologia da AP. saiba mais