IA divide opiniões e coloca Reese Witherspoon no centro da crítica

Atriz é criticada por supostamente ignorar questões levantadas sobre a indústria de IA, como o impacto ambiental e o alto consumo de energia dos data centers

post de Reese Witherspoon sobre inteligência artificial
Reese Witherspoon (Créditos: Reprodução/ Instagram/ master1305/ Getty Images)

Rebecca Heilweil 4 minutos de leitura

Celebridades estão aprendendo, da maneira mais difícil, que opinar publicamente sobre inteligência artificial, assim como sobre política, pode trazer muito mais riscos do que benefícios.

O episódio mais recente envolve a vencedora do Oscar e estrela de "Johnny & June", Reese Witherspoon, que enfrenta uma onda de críticas por um vídeo publicado no Instagram na semana passada incentivando mulheres a aprender mais sobre IA.

No vídeo, aparentemente gravado em sua cozinha, Witherspoon diz aos seguidores que está preocupada com o fato de poucas mulheres estarem usando inteligência artificial. Como evidência, cita uma enquete informal que fez em uma reunião recente de seu clube do livro, na qual a maioria das participantes afirmou não usar a tecnologia.

Na legenda, Witherspoon mencionou estatísticas (sem citar fontes) que sugerem que as mulheres têm muito mais chances de ver seus empregos automatizados pela inteligência artificial.

O post original é relativamente inofensivo, embora, em alguns momentos, a escolha de palavras e o tom se aproximem de algo que soa como conteúdo patrocinado pela indústria de IA.

“A principal coisa que aprendi sobre tecnologia é que, se você não adquire um mínimo de entendimento desde o começo, ela simplesmente passa por você”, explica no vídeo. “Então você precisa aprender aos poucos só para conseguir acompanhar.” A atriz encerra perguntando se as pessoas querem aprender mais sobre IA junto com ela.

Isso ganha ainda mais relevância considerando que Witherspoon tem 30 milhões de seguidores no Instagram e comanda um dos clubes do livro mais populares e influentes dos Estados Unidos, o Reese’s Book Club.

A reação negativa foi imediata. A publicação acumulou milhares de comentários, muitos criticando a atriz por ignorar questões levantadas sobre a indústria de IA, como o impacto ambiental, o alto consumo de energia dos data centers e preocupações com vieses que podem ser incorporados aos modelos de linguagem. Alguns chegaram a acusá-la de promover a indústria de tecnologia e até de fazer publicidade não declarada.

DEBATE SE TORNOU TÓXICO E POLARIZADO

Para se defender, Witherspoon voltou ao tema na segunda-feira. Reconheceu que não estava dizendo a ninguém para fazer algo contra a própria vontade, mas ressaltou que a IA já está em toda parte, inclusive no Instagram.

Ela também reconheceu as preocupações em torno da tecnologia, mas manteve sua posição. “Para deixar claro, ninguém está me pagando para falar sobre isso”, disse. “Pretendo aprender o máximo possível para estar informada sobre essa revolução tecnológica.”

O maior erro de Witherspoon pode ter sido subestimar o quanto o debate sobre inteligência artificial se tornou tóxico e polarizado.

É verdade que algumas celebridades abraçaram a era dos grandes modelos de linguagem, possivelmente de olho em capitalizar a tecnologia e ampliar suas fortunas. Ben Affleck, por exemplo, chegou a fundar sua própria empresa de IA, a InterPositive, recentemente adquirida pela Netflix.

Ainda assim, a ascensão da IA tem provocado inquietação em Hollywood, onde profissionais criativos têm motivos para se preocupar com o fato de animações, avatares e edição de vídeo baseados em IA poderem substituir empregos (além de afetar o próprio processo criativo).

Há quem defenda, inclusive, que os principais laboratórios de IA podem estar abrindo caminho para uma nova era de autoritarismo.

DESIGUALDADE DE GÊNERO NO USO DA IA É REAL

Também é possível que Witherspoon, apesar de sua riqueza e enorme influência, não seja a mensageira ideal para esse tipo de argumento. No mérito, porém, ela está correta.

A desigualdade de gênero no uso de IA é real: dados indicam que homens utilizam a tecnologia mais do que mulheres, que tendem a demonstrar maior ceticismo. Pesquisadores analisaram recentemente estudos com cerca de 140 mil pessoas e constataram que mulheres usam ferramentas de IA em uma taxa significativamente menor.

desigualdade de gênero
Créditos: GetFlashFiles/ FotografieLink/ iStock

Isso pode ter um efeito ambíguo, já que mulheres têm mais chances de sofrer o chamado “ônus de competência” ao usar IA generativa, sendo julgadas de forma mais negativa em comparação com seus pares masculinos.

Ainda assim, um risco importante é que a IA amplie uma grande diferença de produtividade entre trabalhadores, aprofundando desigualdades de gênero. À medida que empresas passam a exigir domínio de IA de candidatos, quem não utiliza a tecnologia tende a ficar em desvantagem.

Leia mais: Capacitação é o caminho para mulheres chegarem ao C-level

De forma mais ampla, mesmo para quem vê a IA como algo problemático – como muitos dos críticos de Witherspoon parecem acreditar –, provavelmente é vantajoso entender como ela funciona, em vez de ignorá-la completamente.

Evitar a tecnologia não será suficiente para enfrentar suas ameaças mais urgentes, especialmente quando ela já está sendo incorporada às plataformas que moldam nossas vidas. Afinal, é melhor conhecer o seu inimigo, não é mesmo?


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