5 perguntas para Aiko Bethea, especialista em liderança
Fundadora da RARE Coaching explica por que a "autoliderança" é a habilidade fundamental no ambiente de trabalho de hoje

Conflito, embora desconfortável, é um fato da vida. Ainda assim, pouca gente lida bem com ele: ou evitamos até que vire ressentimento ou deixamos explodir, criando danos que muitas vezes não conseguimos reparar.
Em seu novo livro, "Anchored, Aligned and Accountable: A Framework For Transcending B*llshit and Transforming Our Lives and Work" ("Ancorados, alinhados e responsáveis: uma estrutura para transcender a besteira e transformar nossas vidas e trabalho", em tradução livre), a coach de liderança Aiko Bethea apresenta um modelo para transformar o conflito em crescimento pessoal.
Ao longo de quase 30 anos de carreira, Bethea ocupou posições de liderança nos setores governamental, filantrópico, sem fins lucrativos e privado. Ela é a fundadora da RARE Coaching & Consulting, consultoria de desenvolvimento de liderança que auxilia líderes em ascensão a se destacarem no ambiente de trabalho com abordagens mais impactantes.
Para a Fast Company, a professora, pesquisadora e escritora Brené Brown (conhecida por seus estudos sobre vulnerabilidade, coragem, vergonha e empatia) conversou com Aiko Bethea sobre os pilares desse framework e sobre como colocá-lo em prática pode mudar nossas vidas.
Brené Brown – Em nossas experiências ajudando pessoas a identificar seus valores básicoss, frequentemente ouvimos: “você quer que eu foque nos meus valores profissionais ou pessoais?” Quando estamos juntas, trocamos olhares que dizem: “seus valores centrais orientam todas as áreas da sua vida. Existe apenas um conjunto de valores.” O que leva aa pessoas a adotar essa tendência automática de separar as duas coisas?
Aiko Bethea – Fomos treinados para nos dividir. Existe a Aiko de casa e a Aiko do trabalho. Um tipo de discussão que se tem com um parente ou parceiro não é esperada ou permitida no ambiente profissional.
Também nos fragmentamos de outras formas para nos encaixar, ter sucesso ou evitar sermos vistos como uma ameaça: falo com um tom mais suave;às vezes até dou risada de uma piada que não achei engraçada.
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Quando você olha para todas essas formas de divisão, faz sentido supor que essas versões diferentes de nós tenham valores diferentes. Mas a verdade é que somos a mesma pessoa em casa e no trabalho, apesar das adaptações artificiais que fazemos para nos sentirmos seguros, aceitos e bem-sucedidos.
Brené Brown – Como essa ideia de ter valores diferentes para áreas distintas da vida atrapalha o processo de nos ancorarmos?
Aiko Bethea – Nossos valores refletem o que é mais importante para nós como pessoas inteiras. Eles orientam nossos limites, decisões e motivações internas. Valores são a sua verdade e, como uma âncora, sustentam você quando está sob pressão.
Se seus valores mudam conforme o ambiente, você deixa de estar ancorado na sua verdade central. Fica à deriva, instável. Passa a depender de validação externa para entender quem deve ser e quem está se tornando. Isso é o oposto de autoliderança.
Brené Brown – Meu maior desafio é alinhar intenção e impacto. Se minha intenção é legítima, mas o impacto em outra pessoa é difícil, como faço esse alinhamento sem recuar ou pedir desculpas além da conta? Por exemplo: um colega me interrompe três ou quatro vezes em uma reunião. Tento abordar a situação de forma respeitosa e produtiva, estabelecendo um limite claro. Se essa pessoa reage de forma defensiva ou entra em um ciclo de vergonha por não lidar bem com a responsabilidade, não sinto que devo pedir desculpas ou “cuidar” dela. Como você vê isso?
Aiko Bethea – Alinhamento não é sobre conforto, é sobre consistência entre seus valores, suas ações e o impacto que você gera. Muitas pessoas confundem alinhamento com manter tudo suave ou evitar desconforto.

Mas estar alinhado não garante que o outro vai se sentir bem, reagir com calma ou evitar ficar na defensiva. Também não significa suavizar a verdade a ponto de as coisas perderem a clareza.
O alinhamento exige três coisas: sua intenção está enraizada nos seus valores, sua forma de comunicar reflete esses valores e você assume responsabilidade pelo impacto gerado.
Nesse caso, você pode estar totalmente alinhado e o impacto ser exatamente o desejado: seu colega para de interromper. Ainda assim, ele pode reagir com ressentimento ou ficando na defensiva.
Existe aí uma oportunidade de crescimento. Pergunte como ele preferiria ter recebido esse feedback. Se disser que não queria receber feedback nenhum e que você deveria simplesmente tolerar as interrupções, então há uma diferença fundamental entre vocês. Você expressou sua necessidade e ele não reconhecer isso.
Você pode, então, redefinir os limites dessa relação de trabalho, já que existe um desalinhamento profundo sobre como colaborar. O que você ganha é clareza, sem precisar se desculpar o tempo todo, agradar excessivamente ou entrar em confronto.
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Por outro lado, o colega pode dizer: “preferia que você não tivesse elevado o tom de voz ou feito isso na frente de todo mundo.” Nesse caso, vale ouvir com empatia e compaixão. Agradeça o feedback, diga que vai considerar essas preferências e peça desculpas pelo impacto.
Brené Brown – Vamos falar de responsabilidade. Sinto que a reparação é essencial para construir confiança em todas as áreas da vida. Onde erramos nesse processo e o que podemos fazer melhor?
Aiko Bethea – Reparar é sobre o relacionamento, sobre conexão. É um processo que exige presença total. Vai além das palavras: envolve tom, energia, linguagem corporal e até o que não é dito para entender o que realmente está acontecendo.
Não existe reparação sem cuidar das emoções. E não dá para terceirizar esse processo. Dois passos ajudam muito:
1. Se ancore nos seus valores: volte ao seu centro e entenda o que seus valores pedem de você nessa situação. Para mim, isso pode significar o que meus valores de lealdade e crescimento exigem que eu faça (ou não faça) aqui?
2. Alinhe suas ações e cultive a curiosidade: ajuste sua comunicação aos seus valores e procure saber qual o impacto que você teve na outra pessoa. Curiosidade é uma forma de cuidado.
Valores são a sua verdade e, como uma âncora, sustentam você quando está sob pressão.
Quando suspendemos nosso diálogo interno, quando pausamos as histórias que contamos para nós mesmos e convidamos o outro a compartilhar não só o que sentiu, mas o que poderia ter sido diferente, estamos demonstrando cuidado – e aprendendo.
Ao perguntar o que não funcionou para o outro, ele também precisa refletir e se escutar. Só esse movimento já pode transformar muita coisa. Eu ganho informações sobre essa pessoa e ela também se torna mais consciente de si.
Às vezes, ela percebe que a reação não era exatamente sobre você, mas sobre o contexto ou uma narrativa interna. Conversas focadas apenas em conexão e reparação são raras. Quando acontecem, são como um grande suspiro de alívio – quase um presente.
Brené Brown – Se os leitores levarem apenas uma mudança prática para o trabalho ou relacionamentos, qual você espera que seja?
Aiko Bethea – A mudança mais importante hoje é praticar a autoliderança.
Quando tudo parece acelerado e incerto, é fácil terceirizar suas decisões, jogá-las na conta das tendências, pressões ou expectativas externas. Em vez disso, tenha clareza sobre seus valores, alinhe seu comportamento ao que importa e assuma responsabilidade pelo impacto que você gera.
Tudo começa com autoconsciência e se estende às decisões e atitudes do dia a dia. Sem isso, pessoas e organizações perdem direção. Com isso, operam com mais clareza, consistência e responsabilidade.