“Farmar a aura” em família: o novo papel da parentalidade digital

Diante de um ambiente online cada vez mais complexo, o controle, isoladamente, não dá conta de responder à profundidade da transformação tecnológica

monitoramento da atividade dos filhos na internet
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Taise Kodama 4 minutos de leitura

Com o avanço acelerado das tecnologias digitais e o impacto profundo na forma como crianças e adolescentes constroem seus vínculos, referências e desejos, o Estatuto da Criança e do Adolescente passa a dialogar com uma nova fronteira: a proteção de direitos no ambiente virtual.

A partir da entrada em vigor do chamado ECA Digital, não estamos falando apenas de tempo de tela, mas de um ecossistema onde identidade, pertencimento e até reputação passam a ser construídos em rede e de forma acelerada. Ou, como a própria cultura online batizou, a necessidade constante de “farmar a aura”*.

Durante muito tempo, a relação entre crianças, internet e adultos foi guiada por uma lógica quase automática: controlar. O tempo de tela, o acesso, os riscos. Uma resposta compreensível diante de um território novo, acelerado e, muitas vezes, opaco.

Mas, à medida que o digital deixa de ser um ambiente acessado para se tornar um espaço habitado, essa lógica começa a revelar seus limites.

A infância mudou de lugar. Hoje, ela não acontece apenas no mundo físico: ela se constrói, em grande parte, dentro de ecossistemas digitais onde códigos culturais, vínculos sociais e repertórios simbólicos se formam em tempo real.

Não se trata mais de entrar na internet, mas de crescer dentro dela. E quando o território muda dessa forma, insistir nas mesmas respostas tende a gerar mais distanciamento do que proteção.

Os dados ajudam a dimensionar essa tensão. A maioria dos brasileiros percebe que crianças e adolescentes enfrentam dificuldades para se proteger no ambiente digital e, ao mesmo tempo, reconhece o impacto crescente das redes sociais na sua formação.

crianças expostas a vídeos no YouTube
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A reação mais comum do mercado tem sido ampliar o arsenal de ferramentas de controle, com bloqueios, filtros e monitoramentos cada vez mais sofisticados. Ainda assim, quanto mais complexo o ambiente digital se torna, mais evidente fica que o controle, isoladamente, não dá conta de responder à profundidade dessa transformação.

O ponto central talvez não seja apenas proteger, mas compreender. Porque o que está em jogo não é só segurança, mas pertencimento, linguagem e identidade. E esses são elementos que não se regulam apenas por restrição, mas por aproximação.

A nova parentalidade exige menos vigilância distante e mais presença qualificada. Exige que pais consigam, de alguma forma, acessar o universo simbólico em que seus filhos estão imersos, não para replicá-lo, mas para conseguir dialogar com ele. Ficar somente se opondo ou negando pode ser muito mais devastador.

O PAPEL DAS MARCAS

Nesse contexto, começa a emergir um deslocamento importante também no papel das marcas.

Se, por um lado, parte do mercado segue operando no território funcional das ferramentas e outra parte investe em conteúdo educativo, há um espaço ainda pouco explorado, o da mediação.

Um espaço onde a marca deixa de ser apenas fornecedora de soluções para se tornar uma ponte entre mundos que já não se encontram com tanta facilidade.

Não se trata mais de entrar na internet, mas de crescer dentro dela.

Essa mudança pode parecer sutil à primeira vista, mas aponta para uma transformação mais profunda.

Sair da lógica do controle para a lógica da conexão significa deslocar o eixo da relação. Significa reconhecer que, em um ambiente onde as experiências são cada vez mais imersivas e integradas ao cotidiano, a tentativa de isolamento tende a falhar.

A aproximação, por outro lado, cria condições reais de influência, orientação e construção conjunta de sentido.

PAIS E FILHOS CONECTADOS

Há, aqui, um paradoxo importante do nosso tempo. Quanto mais a tecnologia avança e amplia possibilidades, maior se torna a necessidade de presença humana capaz de interpretar, traduzir e dar sentido a essas experiências.

A vigilância não é mais o ponto, mas o vínculo. Porque só a vigilância não gera consciência e não conseguiríamos ser vigilantes o tempo todo.

É nesse ponto que a ideia de high tech/ high touch deixa de ser um conceito abstrato e passa a se manifestar de forma concreta nas dinâmicas do dia a dia.

Mulher com filha no colo em frente a notebook
Crédito: Pixabay

Nesse cenário, o papel das marcas também se expande. Elas deixam de atuar apenas sobre comportamentos para atuar sobre relações.

Quando bem-posicionadas, são capazes de reduzir distâncias geracionais, traduzir códigos emergentes e transformar complexidade em algo mais inteligível. Mais do que oferecer respostas, passam a criar contextos onde essas respostas podem ser construídas de forma mais consciente.

Se a infância está, cada vez mais, atravessada pelo digital, a discussão não pode mais se restringir a quanto limitar, mas a como se relacionar.

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Talvez essa seja a principal virada em curso: entender que proteger não é afastar, mas estar próximo o suficiente para compreender e presente o suficiente para orientar.

No fim, a questão que fica não é se devemos controlar mais ou menos, mas se estamos preparados para nos conectar melhor. Porque, em um mundo onde tudo já está acessível, a diferença real talvez esteja justamente na qualidade das relações que conseguimos construir dentro dele.

* construir uma imagem admirável nas redes, agindo de forma descolada e confiante para ganhar "aura” ou presença


SOBRE A AUTORA

Taise Kodama é sócia e head de design & digital da consultoria de marca e experiência Gad. saiba mais