Por que Trump quer mudar o nome do ICE para NICE?
Renomear a polêmica agência de controle de imigração dos EUA é um desastre de marketing prestes a acontecer.

A mais recente ideia do presidente Donald Trump de rebatizar uma agência do governo dos EUA pode dar a uma de suas políticas mais criticadas um nome bem mais agradável. Mas o plano pode não sair como esperado.
No domingo (26 de abril), Trump publicou um post destacando a sugestão de uma mulher para renomear o U.S. Immigration and Customs Enforcement (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, ou ICE, na sigla em inglês) como National Immigration and Customs Enforcement (NICE, que quer dizer "simpático" ou "gentil") “para que a mídia tenha que dizer agentes NICE o dia todo, todos os dias”.
“ÓTIMA IDEIA!!! FAÇA ISSO. Presidente DJT”, escreveu Trump.
A proposta vai na contramão de outra tendência do próprio Trump, que defende renomear formalmente o Departamento de Defesa como Departamento de Guerra. Seus instintos de branding no governo tendem à dureza, não à suavidade.
Só que a opinião pública sobre o ICE vem se consolidando de forma negativa, o que pode explicar por que a mudança de nome parece, à primeira vista, tão óbvia e inteligente.
Seis em cada 10 norte-americanos desaprovam a forma como a agência desempenha seu trabalho, segundo uma pesquisa da Universidade de Massachusetts divulgada em 1º de abril. Levantamentos da Fox News mostram que a rejeição ao órgão subiu de 41% em 2018 para 58% em 2026.
Ainda assim, dar à agência um acrônimo simpático dificilmente seria uma solução rápida.
SOPA DE LETRINHAS
Não bastasse o governo dos EUA ser repleto de siglas, autoridades estão recorrendo cada vez mais aos chamados “backrônimos”, ou siglas criadas ao contrário, pensadas a partir da palavra que formarão. E ninguém gosta mais disso do que o Congresso.
Cerca de 10% dos nomes de projetos de lei e resoluções apresentados ao Congresso em um período de dois anos eram backrônimos, segundo uma análise de 2022 da "The Atlantic". E a proporção vem crescendo a cada legislatura desde pelo menos 2001.
Com um pouco de criatividade, um projeto de lei com nome digno de título de música do Fall Out Boy vira uma peça curta e eficiente de storytelling para tarjas de TV e posts nas redes sociais.

Backrônimos são ferramentas de comunicação que transformam um conjunto burocrático de letras em algo parecido com um slogan típico de adesivo para se colar na traseira do carro.
Mas nem todos são transparentes. Alguns são apenas cafonas ou engenhosos; outros são pensados para desviar a atenção ou manipular, embalando medidas impopulares na bandeira.
É o caso do USA Patriot Act (Lei Patriota), aprovado semanas após os ataques de 11 de setembro de 2001 e responsável por expandir o aparato de vigilância, ou do SAVE Act (Safeguard American Voter Eligibility Act, ou Lei de Proteção da Elegibilidade do Eleitor Americano), um projeto de restrição ao voto atualmente travado no Senado.
"NICE" PODE SER UMA MÁ IDEIA
Renomear o ICE como NICE pode, na prática, atrair ainda mais críticas, avalia Brian Christopher Jones, professor da Universidade de Liverpool que estuda temas como siglas e nomes enganosos de comitês políticos.
“Fico pensando se esse backrônimo específico, NICE, não abriria a agência para ainda mais críticas do que antes”, afirma, lembrando que a própria Lei Patriota já foi alvo de questionamentos por causa do nome.
A virada da opinião pública contra o ICE foi impulsionada por imagens de agentes agindo de forma tudo menos “agradável”. Um novo nome só destacaria ainda mais esse descompasso entre discurso e prática.
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Nem mesmo o NICE do Reino Unido – sigla para National Institute for Health and Care Excellence ( Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados) – escapou de críticas, observa Jones. Ele também questiona se a mudança nos EUA não afastaria potenciais candidatos à carreira na agência.
“Não tenho tanta certeza de que profissionais da área de segurança pública veriam com bons olhos trabalhar em uma agência chamada NICE”, diz.
Trump até pode tentar mudar o nome. Mas transformar o ICE em algo realmente “agradável” exigiria bem mais do que uma sigla bonitinha.