Fim da escala 6×1: veja o que estudos apontam sobre impacto na economia brasileira
A Confederação Nacional da Indústria calcula que a redução de 44 para 40 horas semanais poderia retirar R$ 76 bilhões do PIB nacional

A discussão sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de trabalho voltou ao centro do debate no Congresso Nacional, mobilizando pesquisadores e economistas sobre os possíveis impactos da medida no mercado de trabalho e na economia brasileira.
Enquanto propostas avançam no Legislativo, estudos divulgados por entidades empresariais e órgãos de pesquisa apresentam conclusões diferentes sobre os efeitos da mudança no Produto Interno Bruto, no emprego e nos preços.
De acordo com a Agência Brasil, o principal motivo da divergência está nos critérios adotados por cada levantamento.
Confederações patronais afirmam que a redução da jornada pode provocar perda de competitividade, aumento de custos e pressão inflacionária.
Enquanto análises realizadas por pesquisadores da Unicamp e do Ipea indicam impactos mais limitados e até possibilidade de geração de empregos.
A Confederação Nacional da Indústria calcula que a redução de 44 para 40 horas semanais poderia retirar R$ 76 bilhões do PIB nacional, o equivalente a 0,7%. No setor industrial, a queda estimada seria de 1,2%.
Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) avalia que os custos com folha salarial cresceriam 21%, com possibilidade de repasse aos consumidores.
IPEA VÊ EFEITOS MAIS MODERADOS
Em sentido contrário, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada afirma que o aumento do custo do trabalho ficaria abaixo de 10% nos setores mais afetados. Na média, o impacto seria de 7,8% de custo extra do trabalho.
Quando considerados todos os gastos das empresas, o avanço dos custos seria menor. Em áreas como comércio e indústria, o aumento estimado seria de cerca de 1%. Em segmentos específicos, como vigilância e segurança, poderia chegar a 6,6%.
Segundo os pesquisadores, grande parte das empresas teria condições de absorver esse ajuste sem maiores dificuldades.
INFLAÇÃO É UM DOS PONTOS DE MAIOR DISPUTA
A possibilidade de alta generalizada de preços também divide os economistas. Entidades empresariais afirmam que o aumento do custo da mão de obra tende a ser repassado ao consumidor final.
Pesquisadores ligados ao Ipea e à Unicamp contestam essa leitura. Para eles, o efeito seria restrito, já que empresas também podem reduzir margens de lucro, elevar eficiência ou disputar mercado sem reajustar preços.
Outro argumento usado é que mudanças anteriores no mercado de trabalho, como aumentos reais do salário mínimo, não provocaram explosão inflacionária no país.
PRODUTIVIDADE ENTRA NO CENTRO DO DEBATE
A produtividade aparece como peça central na discussão. Representantes da indústria avaliam que o Brasil enfrenta estagnação nesse campo e que seria difícil compensar menos horas trabalhadas com ganho de eficiência.
Já defensores da redução da jornada afirmam que trabalhadores mais descansados tendem a produzir melhor. Também apontam que tempo livre maior pode estimular consumo e movimentar outros setores da economia.
EXPERIÊNCIA HISTÓRICA É USADA COMO REFERÊNCIA
A redução da jornada já ocorreu no passado. Em 1988, a Constituição diminuiu o limite semanal de 48 para 44 horas. Estudos posteriores não identificaram impacto negativo relevante sobre o emprego naquele período.
Setores empresariais, porém, argumentam que o cenário atual é diferente, com economia mais aberta, concorrência internacional maior e expansão do comércio eletrônico.
Especialistas reconhecem que projeções econômicas dependem de premissas distintas. Alguns estudos consideram contratação de novos trabalhadores e ganho de produtividade. Outros partem da hipótese de queda na produção e aumento direto dos custos.
Por isso, o debate sobre o fim da escala 6x1 não se resume a cálculos técnicos. Também envolve escolhas sobre distribuição de renda, competitividade das empresas e qualidade de vida dos trabalhadores.