Na era da IA, seu cargo importa menos que suas tarefas
Novo livro de líderes do LinkedIn mostra como usar a inteligência artificial a seu favor e se destacar no mercado de trabalho em rápida transformação

Aneesh Raman e Ryan Roslansky compartilham cinco ideias-chave de seu novo livro, Open to Work: How to Get Ahead in the Age of AI (Aberto ao Trabalho: Como se destacar na era da IA).
Raman é diretor de oportunidades econômicas do LinkedIn. Anteriormente, atuou como consultor sênior de estratégia econômica para o estado da Califórnia e liderou a área de impacto econômico no Facebook.
Roslansky, CEO do LinkedIn, também é vice-presidente executivo do Microsoft Office e da Copilot.
O impacto da IA no trabalho está se desenrolando em tempo real — rapidamente — e as pessoas têm mais poder de decisão do que imaginam. Ao compreender como as habilidades, as funções e os setores estão evoluindo, qualquer pessoa pode moldar ativamente sua carreira e se manter à frente na era da IA.
1. EMPREGOS SÃO TAREFAS, NÃO TÍTULOS
A maioria de nós se define e define o que faz com base em cargos: sou contador, sou enfermeiro, sou profissional de marketing ou sou engenheiro. E isso faz sentido, já que, por décadas, os cargos indicavam às empresas onde nos alocar.
Mas os cargos não são mais a maneira mais útil de pensar sobre o trabalho, porque a IA não está vindo para substituir cargos, e sim tarefas. Quando você começa a enxergar seu trabalho não como um cargo, mas como um conjunto de tarefas, fica mais fácil entender o que está mudando e o que fazer a respeito.
Pegue um pedaço de papel. Agora, escreva as doze tarefas que mais consomem seu tempo no trabalho. Não seu cargo, descrição de função ou metas. Pense nas atividades reais que você faz no dia a dia. Em seguida, organize todas essas tarefas em três categorias:
Categoria 1: Tarefas que a IA pode realizar sozinha.
Pense em entrada de dados, pesquisa básica e agendamento que não exige conversa.
Categoria 2: Tarefas que você realizará com IA.
Pense em estratégia com análise de IA, trabalho criativo com ferramentas de IA e resolução de problemas auxiliada por pesquisa de mercado.
Categoria 3: Tarefas que permanecem exclusivamente humanas.
Pense em construir relacionamentos, liderar em tempos de incerteza e tomar decisões difíceis.
Pergunte-se: isso exige leitura de emoções ou construção de confiança? Um toque humano faria diferença crucial? Se sim, pertence a esta categoria.
Agora imagine esses três grupos como uma esteira rolante: as tarefas do Grupo 1 desaparecerão cada vez mais à medida que a IA se torna mais avançada.
Mas, conforme isso acontece, novas oportunidades surgem no Grupo 2, permitindo que você use a IA para fazer coisas antes impossíveis. E, ao dominar o Grupo 2, você cria espaço para um trabalho mais complexo no Grupo 3, que nenhuma máquina consegue realizar.
Com o tempo, o sucesso se resume a mover tarefas entre seus grupos. Comece levando tarefas do Grupo 1 para o Grupo 2 de forma deliberada, adicionando julgamento humano ao trabalho rotineiro.
Use ferramentas de IA no Grupo 2 para liberar tempo para mais tarefas do Grupo 3. E expanda as capacidades do Grupo 3, porque é aí que reside o valor duradouro.
Não se trata apenas de organizar tarefas em categorias, mas de desenvolver a habilidade de gerenciá-las ativamente ao longo do tempo. Este não é um exercício pontual, mas algo contínuo, à medida que seu trabalho evolui.
2. HABILIDADES INTERPESSOAIS SÃO HABILIDADES DE SOBREVIVÊNCIA
Certas habilidades nos diferenciam da IA, e os autores as chamam de os 5 Cs:
- Curiosidade
- Coragem
- Criatividade
- Compaixão
- Comunicação
Essas habilidades são essenciais para a forma como criamos novas ideias e soluções. Durante décadas, os 5 Cs foram tratados como habilidades secundárias, vistas apenas como “desejáveis”, enquanto habilidades técnicas eram mais valorizadas.
Nos próximos anos, ficará claro que habilidades interpessoais são tudo, menos superficiais. Elas serão fundamentais para a sobrevivência no trabalho.
Pense em como esses 5 Cs aparecem no seu trabalho hoje:
Curiosidade: a IA processa padrões. Mas você pergunta: “E se tentássemos algo completamente diferente?”
Coragem: a IA calcula riscos. Só você decide que risco vale a pena correr.
Criatividade: a IA mistura o que já existe. Só você reinventa o que é possível.
Compaixão: a IA pode simular preocupação. Só você pode ter empatia a partir da sua experiência de vida.
Comunicação: a IA traduz linguagem. Só você transforma linguagem em significado.
Como aponta a neurocientista Vivienne Ming: “Elas não são cinco itens separados em uma lista. Elas se alimentam mutuamente. Curiosidade sem coragem leva à inação. Criatividade sem comunicação permanece um hobby privado. Compaixão dá propósito ao trabalho.”
Enquanto todos correm para superar a IA em programação, você deve aprimorar aquilo que a IA jamais poderá substituir. Os 5 Cs são sua vantagem competitiva.
3. CARREIRAS NÃO SÃO ESCADAS; SÃO COMO ESCALAR PAREDES
A hierarquia de carreira é uma relíquia da era industrial e está se desfazendo.
Por gerações, o roteiro era claro: entrar em uma empresa após a formação, subir constantemente na hierarquia por décadas e se aposentar no fim da carreira.
Mas estratégias de ascensão profissional só funcionam quando o mundo é estável. Quando habilidades duram décadas. Quando empregos permanecem iguais.
Esse mundo está desaparecendo, e a inteligência artificial acelera esse processo.
Os profissionais que entram no mercado hoje terão o dobro de empregos ao longo da carreira em comparação com a geração anterior. A escada corporativa não funciona quando seu trabalho muda mais rápido do que você consegue ser promovido.
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Pense na trajetória profissional menos como uma escada e mais como uma parede de escalada: vários caminhos para cima, movimentos laterais que desenvolvem novas habilidades e, às vezes, até descer para encontrar posições mais fortes.
Os melhores escaladores não seguem o caminho de outra pessoa. Eles criam o próprio caminho.
Para guiar sua escalada, faça três perguntas:
- Por que você trabalha?
- Seja por segurança financeira ou propósito, o que motiva você?
- O que você faz de forma única?
- Qual combinação de habilidades só você possui?
- Para onde você vai?
- Que problemas deseja resolver e com quem quer resolvê-los?
4. NOSSOS CÉREBROS NÃO ESTÃO PREPARADOS PARA MUDANÇAS EXPONENCIAIS
A curva S da mudança ajuda a entender como grandes transformações acontecem ao longo do tempo. No início, o progresso é lento e quase invisível. Foi assim com a internet em 1993, as redes sociais em 2004 e a IA em 2020.
Depois, o ritmo acelera rapidamente. Essa é a parte íngreme da curva. Por fim, o crescimento se estabiliza quando a mudança se torna comum e amplamente aceita.
A IA já não está mais na fase inicial. O ChatGPT atingiu 100 milhões de usuários mais rápido do que qualquer outra tecnologia na história. Estamos entrando na fase em que a adoção deixa de ser opcional.
A pergunta é: você está se adaptando à medida que essa mudança acelera?
Nossos cérebros são programados para temer mudanças, não para processar mudanças exponenciais. Por isso gerenciar curvas em S é tão difícil.
E, ao contrário de outras transformações históricas, com a IA não teremos tanto tempo. A mudança nunca mais será tão lenta. A IA nunca mais será tão básica.
A hora de experimentar é agora. Adaptar-se é melhor do que prever.
5. NINGUÉM TE SUPERA EM SER VOCÊ MESMO
Existem mais de três bilhões de pessoas na força de trabalho global. Mais de um bilhão delas estão no LinkedIn. Apenas uma delas é você.
Isso parece óbvio, mas é fácil esquecer quando tentamos nos encaixar.
Muitas vezes passamos a carreira nos moldando a descrições de cargos, padrões do setor e caminhos considerados corretos. Currículos e avaliações foram criados para nos tornar comparáveis, categorizáveis e mensuráveis.
Mas quando a IA domina o padrão, as coisas mudam. De repente, suas diferenças se tornam vantagem competitiva.
A combinação específica de fracassos e triunfos que ensinou resiliência. A infância entre culturas diferentes que permite enxergar padrões que outros não veem.
A década “perdida” em uma carreira errada, mas que trouxe aprendizados únicos. As peculiaridades na sua forma de resolver problemas. As conexões incomuns entre ideias.
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Ao longo da vida profissional, talvez tenham dito para suavizar essas diferenças para parecer mais competitivo. Num mundo em que a IA consegue replicar o convencional, essas diferenças serão justamente o que tornará você insubstituível.
Este artigo foi publicado originalmente na revista Next Big Idea Club.