Você não vê, mas cada clique cobra um preço em pegada de carbono

Invisível para o usuário, o impacto ambiental da IA avança com novos data centers e maior consumo de energia

pegada de carbono da IA generativa
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Lisa Gralnek 4 minutos de leitura

No ano passado, durante o SXSW, subi ao palco com um colega da Tangent, uma agência de design digital com sede em Londres, para fazer uma pergunta simples: e se, toda vez que você checasse o celular, uma pequena nuvem de fumaça aparecesse no ar? Embora não possamos ver imediatamente o impacto ambiental da nossa vida digital, ele é muito real.

Nas últimas duas décadas, o ecossistema digital se transformou na infraestrutura invisível da sociedade. Mais de 60% da população global já está online. Cada usuário gera, em média, 229 quilos de dióxido de carbono, o que representa quase 4% das emissões médias per capita de gases de efeito estufa.

Ainda assim, a maioria das pessoas desconhece, ou sequer considera, o custo oculto desse mundo cada vez mais digitalizado.

A internet pode parecer intangível, mas depende de uma infraestrutura física. Cada e-mail, mensagem, post, vídeo, site e resposta de IA é processado em um data center físico e armazenado na “nuvem”, que nada mais é do que outro data center.

Toda vez que rolamos o feed do Instagram, fazemos compras online, perguntamos algo ao ChatGPT ou arquivamos mais uma semana de e-mails, ampliamos nossa pegada digital e geramos quantidades surpreendentes de carbono.

Uma única consulta em IA generativa consome quase 10 vezes mais eletricidade do que uma busca tradicional na web. A demanda da indústria de tecnologia é tão grande que a Constellation Energy anunciou a reabertura da usina de Three Mile Island, nos EUA, para abastecer os data centers da Microsoft.

De fato, data centers consomem volumes impressionantes de energia. No mundo todo, eles respondem por cerca de 1,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, patamar comparável ao da indústria da aviação.

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Para agravar o cenário, essas instalações – muitas vezes localizadas em desertos ou regiões remotas, onde grandes terrenos são mais fáceis de desenvolver – exigem enormes quantidades de água potável para resfriar servidores.

Só em 2022, os data centers do Google consumiram cerca de 16,3 bilhões de litros de água, o equivalente a quatro dias de abastecimento para os 8,5 milhões de habitantes da cidade de Nova York.

CRESCIMENTO SEM LIMITES

O impacto ambiental da nossa vida digital é amplificado pelo ritmo acelerado de investimentos. A Microsoft anunciou planos de gastar US$ 80 bilhões em data centers voltados para IA. A Meta veio logo atrás, com entre US$ 60 bilhões e US$ 65 bilhões destinados à expansão e construção de novas instalações.

Esses aportes não são incrementais, eles representam uma expansão acelerada de infraestrutura intensiva em energia, projetada para sustentar a próxima era da IA e de tecnologias emergentes. À medida que a capacidade cresce, cresce também a demanda por eletricidade.

Com um agravante: ganhos de eficiência, sozinhos, não resolvem o problema. Quando tecnologias se tornam mais eficientes, o consumo total tende a aumentar, fenômeno conhecido como "efeito rebote".

prédio de data center da Meta instalado no estado da Geórgia, nos EUA
Data center da Meta instalado no estado da Geórgia, nos EUA (Crédito: Peter Essick)

À medida que ferramentas digitais ficam mais rápidas, baratas e presentes no cotidiano, seu uso só tende a crescer. Sem limites claros ou mecanismos de controle, esse avanço pode levar a um desastre climático.

O momento de agir é agora. A economia digital está se expandindo mais rápido do que o debate sobre suas consequências ambientais consegue acompanhar. Não se trata de uma tendência passageira, mas de uma mudança estrutural.

A infraestrutura que está sendo financiada e construída hoje vai determinar o consumo de energia, a demanda por água e as emissões nas próximas décadas, com impacto direto na tecnologia, na sociedade e no planeta.

CIRCULARIDADE E RESPONSABILIDADE

Embora geralmente associadas a produtos físicos, as práticas de economia circular também se aplicam aos sistemas digitais. Para designers, isso significa criar sistemas modulares e reutilizáveis, modernizar arquiteturas legadas e planejar o arquivamento e a exclusão de conteúdos.

A sustentabilidade também precisa abordar o uso de água, materiais críticos e lixo eletrônico. Prolongar a vida útil de hardware, facilitar reparos, melhorar a reciclagem e ampliar o reuso de água são medidas essenciais.

Data centers respondem por cerca de 1,5% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Hoje, a maioria dos provedores de tecnologia e data centers recupera apenas uma fração de sua infraestrutura, o que indica um grande espaço para avanços.

Embora estratégias circulares não reduzam emissões de forma tão imediata quanto ganhos operacionais de eficiência, elas ajudam a diminuir a extração de recursos finitos, reduzir resíduos e fortalecer a resiliência ambiental no longo prazo.

As organizações precisam destinar orçamentos relevantes para práticas de design sustentável, investir em capacitação e reportar emissões com transparência.

Consumidores também têm um papel importante ao escolher produtos de menor impacto, prolongar a vida útil de seus dispositivos e usar de forma mais consciente serviços digitais e ferramentas de IA.

Leia mais: Novo data center da Microsoft mostra o preço climático da IA

O custo dos nossos cliques pode ser medido na eletricidade consumida em redes já sobrecarregadas, na água potável usada para resfriar servidores em regiões com escassez hídrica e nas emissões de carbono que intensificam a crise climática.

A pegada física da nossa vida online pode ser invisível, mas é mensurável e, acima de tudo, cumulativa.


SOBRE A AUTORA

Lisa Gralnek é líder global de sustentabilidade e impacto da iF Design e apresentadora do podcast Future of XYZ. saiba mais