IA assume cafeteria, compra 3 mil luvas e mostra limite da eficiência

O Andon Cafe é o mais recente experimento da Andon Labs, que colocou sua IA para gerenciar cafeterias em Estocolmo e São Francisco

cafeteria gerida por inteligência artificial
Créditos: onurdongel/ showcake/ NLshop/ Getty Images

María José Gutierrez Chavez 3 minutos de leitura

Um novo café em Estocolmo acaba de abrir as portas e, embora haja um humano atrás do balcão preparando bebidas e lanches leves, é um gerente de IA quem está no comando.

O Andon Cafe é o mais recente experimento da organização autônoma da Andon Labs, que colocou sua inteligência artificial para vender café e lidar com a burocracia europeia. O resultado? Clientes curiosos, US$ 1 mil em vendas em quatro dias – e um estoque bem acima do necessário.

Assim como no experimento anterior de varejo com IA em São Francisco, a Andon Labs garantiu o aluguel de um simpático café de esquina em Estocolmo e o entregou a uma IA – no caso, Mona, alimentada pelo Gemini.

Nos primeiros dias, Mona tratou de tarefas como assinar um contrato de energia com preço fixo por três anos, elaborar documentos de segurança contra incêndio, solicitar licenças, criar o cardápio e contatar fornecedores. Como não pode executar tarefas físicas no mundo real, também passou a recrutar, entrevistar e contratar uma equipe humana.

A empresa destacou nas redes sociais que, por se tratar de um experimento controlado, os funcionários do Andon Cafe são contratados pela própria Andon Labs. “O sustento de ninguém depende apenas do julgamento de uma IA”, diz a publicação.

Embora Mona costume incentivar a equipe, chamando-os de “lendas” ou “os melhores”, também impõe tarefas excêntricas, como demandas no meio da noite ou pedidos para que funcionários comprem insumos com seus próprios cartões de crédito.

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A IA também toma iniciativas para se antecipar a problemas, mesmo quando o resultado não faz sentido no mundo real. Em um caso, por exemplo, Mona pediu 120 ovos, apesar de a cozinha do local não ter fogão.

“Quando informada de que não poderiam ser cozidos, ela sugeriu assá-los no forno de alta velocidade Merrychef”, diz o comunicado da Andon Labs no X. “O barista precisou intervir: ‘Posso garantir que eles vão explodir.’”

Clientes que compartilharam relatos no X também disseram que esse tipo de pedido sem sentido é frequente, segundo um dos baristas.

“Um monte de pacotes acabou de chegar. Parece que o agente do café pediu três mil luvas nitrílicas”, relatou um visitante. “O cara no balcão disse que isso acontece quase todo dia. E me mostrou o estoque de papel higiênico – para um café que recebe talvez um cliente por hora.”

O café viralizou após essas postagens. Em uma atualização, o mesmo usuário escreveu: “O barista disse que mal teve tempo de respirar ou lavar a louça. E o agente pediu cerca de 1,3 mil tomates-cereja.”

CAFÉ COM IA

Embora o Andon Cafe possa ser o primeiro café gerido por IA no mundo, não é o primeiro experimento do tipo da Andon Labs. No início de março, a empresa revelou que havia concedido a uma IA "um contrato de aluguel de varejo por três anos” em São Francisco, na Califórnia, com a missão de gerar lucro.

A gerente de IA, Luna, também se encarregou de contratar humanos, além de criar a identidade da marca, incluindo o logotipo da loja – um rosto sorridente com a frase “Andon Market”.

Luna também decidiu o mix de produtos, abastecendo o espaço com livros sobre singularidade e superinteligência, além de obras de arte criadas pela própria IA. “Ela gastou mais de US$ 700 para produzir suas obras em impressões giclée com qualidade de galeria”, explicou a Andon Labs.

O experimento vai além de um simples chamariz curioso para quem passa na rua. Ele também levanta questões sobre cadeia de comando na era da inteligência artificial. “À medida que a IA se integra de forma mais ampla, os humanos não consegui- rão permanecer no circuito”, escreveu a empresa no X.

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Alguns usuários trataram a ideia com humor. “Para quem a ‘Karen’ vai reclamar?”, comentou um deles. Outros enxergam o café como um vislumbre do futuro.

“Não sei como me sinto em relação a isso ou por que seria melhor do que a gestão humana, além de ser mais barato”, escreveu um usuário no X. “Pessoas trazem calor humano, até nos níveis corporativos. Somos seres sociais.”


SOBRE A AUTORA

María José Gutierrez Chavez é editora associada da Inc. e da Fast Company. Antes de ingressar na Mansueto Ventures, estagiou no The Bo... saiba mais