Vale do Silício vive na ilha da fantasia – e a publicidade nas ruas mostra isso

As palavras e imagens usadas dizem muito sobre como a indústria de IA enxerga a si mesma e o mundo à sua volta

outdoors de produtos e empresas de inteligência artificial em São Francisco, Califórnia
Créditos: Moor Studios/ San Francisco Chronicle/ Getty Images/ Casey Horner/ Unsplash

Mark Wilson 5 minutos de leitura

Em São Francisco, na Califórnia, vivemos dentro de uma bolha – e sabemos disso. É um lugar extremamente bonito, extremamente rico e, no momento, completamente obcecado por IA.

Tradicionalmente, os outdoors ao longo da rodovia 101, no Vale do Silício, sempre ofereceram um vislumbre da mente coletiva da indústria de tecnologia.

Hoje, uma grande parte dessa indústria – incluindo a maioria dos principais laboratórios de inteligência artificial – está baseada na cidade, e os outdoors acompanharam esse movimento.

Recentemente, o jornal "San Francisco Chronicle" fez um levantamento detalhado para catalogar todos os outdoors da cidade e descobriu que nada menos que metade deles agora promove aplicativos, plataformas e infraestrutura de IA. As palavras e imagens usadas dizem muito sobre como a indústria de IA enxerga a si mesma e o mundo à sua volta.

No conjunto, os anúncios têm o frescor típico de empresas jovens em um setor ainda jovem. Mas também retratam uma indústria que já passou da fase experimental.

Os outdoors pela cidade, em sua maioria, anunciam aplicativos, que fazem coisas relevantes, e produtos que resolvem problemas concretos (às vezes bem específicos) que ainda dificultam a adoção significativa da IA em ambientes corporativos.

SEM ESPAÇO PARA SEGURANÇA

Embora temas como segurança em IA, alinhamento com valores humanos e governança continuem no centro do debate, quase nenhum anúncio menciona esses pontos.

As campanhas parecem direcionadas a CIOs e executivos de alto nível que buscam vantagem competitiva ao aplicar IA em mais tarefas de negócios. Esse público tende a se interessar mais por recursos agênticos, confiabilidade e escalabilidade.

Apenas um outdoor, da Okta, menciona riscos. A mensagem diz: “Construa e proteja agentes de IA desde o primeiro dia. A Okta protege a IA.” O que a empresa vende, na prática, é gestão de identidade e acesso para agentes – sistemas de autenticação e permissões que impedem que eles acessem o que não devem.

outdoor da empresa de inteligência artificial Okta em São Francisco, Califórnia
Crédito: Reprodução/ SFC

Ainda assim, confiança será um fator decisivo à medida que modelos e agentes de IA se espalham dentro das empresas. Líderes e equipes terão que construir essa confiança ao longo do tempo. Ela depende de sistemas que acertem consistentemente, mesmo quando recebem responsabilidades cada vez mais importantes.

Se um sistema de IA vaza informações sensíveis, por exemplo, a confiança desaparece – e o valor da ferramenta evapora rapidamente.

"PARE DE CONTRATAR HUMANOS"

Outro elefante na sala é a substituição de empregos, mas nenhum outdoor aborda o tema diretamente. Em um caso, a mensagem vai na direção oposta.

A Artisan AI, que vende “trabalhadores” de IA, espalhou pela cidade anúncios provocativos sugerindo que substituir humanos é, na verdade, um futuro bastante desejável.

outdoor da empresa de inteligência artificial Artisan em São Francisco, Califórnia
Crédito: Reprodução/ SFC

Em um outdoor de dois andares citado na reportagem, uma mulher declara: “Pare de contratar humanos.” Logo abaixo, um homem, com cara de apresentador de televendas, aponta para ela e diz: “Isso não é mais anos 90. Contrate Ava.” Ava é, aparentemente, o avatar dos trabalhadores digitais da empresa.

Críticos classificaram a campanha como distópica e anti-trabalhador — e alguns outdoors foram vandalizados. O jovem CEO da Artisan, Jasper Carmichael-Jack, afirmou que a proposta era fazer “marketing de choque”.

Leia mais: Seus colegas agentes de IA logo terão os próprios IDs, emails e contas do Teams

Ainda assim, a empresa claramente aposta no humor provocador. Até o nome carrega ironia: “artisan” (artesão) costuma remeter a algo feito à mão, por humanos qualificados.

AUTOCONFIANÇA

Alguns outdoors refletem a confiança sem limites do grupo de “construtores” aceleracionistas.

Um anúncio da Linear mostra a mão de Deus – inspirada na obra "A Criação de Adão", de Michelangelo – descendo para tocar um enxame de cursores em forma de mão, que representam agentes de IA. O slogan diz: “Agentes. Sob seu comando.”

outdoor da empresa de inteligência artificial Linear em São Francisco, Califórnia
Crédito: Reprodução/ SFC

A Linear desenvolve software de gestão de projetos para equipes de engenharia e seus agentes de IA assumem tarefas antes realizadas por humanos. A mensagem é direta: se os agentes fazem o trabalho, quem os controla assume o papel de criador.

A Bland, cuja plataforma cria agentes de IA com voz humana para fazer e receber chamadas, segue linha semelhante. Seu outdoor lembra a capa de um romance, com um robô de aparência masculina abraçando uma mulher. A frase diz: “Atendimento ao cliente que realmente se importa.”

outdoor da empresa de inteligência artificial Bland em São Francisco, Califórnia
Crédito: Reprodução/ SFC

Em vez de abordar as implicações sociais e de experiência do usuário, a empresa abraça a ideia, sugerindo que agentes de IA podem demonstrar mais empatia do que humanos. Na prática, essa promessa ainda é mais aspiracional do que realista.

NÃO ESTAMOS FALANDO COM VOCÊ

Se você acha que esses outdoors foram feitos para o público geral, o anúncio da AgentMail sugere o contrário.

A propaganda traz um print de um tuíte de Paul Graham, fundador da Y Combinator e um dos investidores mais influentes do Vale do Silício, descrevendo uma startup cujo valor de mercado “vai parecer ficção”. O nome da empresa sequer aparece no tuíte.

A legenda do outdoor diz: “Temos grandes expectativas…” seguida de “Sem pressão, certo?” A AgentMail já levantou cerca de US$ 6 milhões em investimentos.

outdoor da empresa de inteligência artificial Agent Mail em São Francisco, Califórnia
Crédito: Reprodução/ SFC

O anúncio pode estar tentando atrair clientes para sua plataforma (que cria contas de e-mail para agentes de IA) ou querendo chamar a atenção de investidores para uma nova rodada de investimentos.

De qualquer forma, a lógica adotada é a do “quem sabe, sabe”, compreensível apenas para um grupo muito restrito de pessoas que, por acaso, passem por ali.

outdoors de produtos e empresas de inteligência artificial em São Francisco, Califórnia
Crédito: Reprodução/ SFC

Vale imaginar como essas campanhas seriam recebidas fora da bolha de São Francisco. Em cidades como Des Moines, na região central dos EUA, a mensagem “pare de contratar humanos” provavelmente soaria menos irônica e mais ameaçadora.

Outros anúncios pareceriam simplesmente alienígenas. Motoristas poderiam se perguntar o que exatamente a Baseten quer dizer com “tenha controle sobre sua própria inferência” (a plataforma permite que empresas controlem os modelos de IA usados para gerar resultados em produção).

Já o outdoor baseado no tuíte de Paul Graham seria, para a maioria, completamente incompreensível.


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos. saiba mais