Possuir ficou obsoleto
A economia circular exige uma revisão profunda sobre o que realmente precisamos manter e o que já poderia estar circulando

A economia circular deixou de ser um conceito aspiracional para se tornar uma urgência concreta. No Brasil, sinais positivos começam a surgir: segundo a Confederação Nacional da Indústria, em 2024,85% das indústrias brasileiras adotaram ao menos uma prática circular – reciclagem aparece em um terço das empresas, seguida pelo uso de matéria-prima secundária (30%) e pelo desenvolvimento de produtos mais duráveis (29%).
O contraste com o cenário global, porém, é evidente. A Circular Economy Foundation aponta que o mundo opera com apenas 7,2% de circulação, enquanto a Global Footprint Network estima que consumimos o equivalente a 1,75 planetas por ano.
Esse descompasso não é recente: desde 1970, a extração de recursos naturais triplicou, como mostra o relatório Global Resources Outlook, da Organização das Nações Unidas.
A transição energética, embora essencial, não é suficiente. AEllen MacArthur Foundation alerta que a eficiência energética pode atingir cerca de 55% das emissões globais. Os outros 45% estão ligados diretamente à forma como produzimos e consumimos, ainda ancorados na lógica linear de extrair, fabricar e descartar.
É nesse ponto que a economia do acesso ganha relevância. Modelos baseados em uso, e não em propriedade, mantêm produtos em circulação por mais tempo e reduzem a pressão sobre recursos naturais.
A Box24x7, startup residente do STATE (centro de inovação baseado em São Paulo) exemplifica esse caminho: oferece aluguel sob demanda de itens do dia a dia com entrega rápida. A lógica é simples: grande parte dos objetos que compramos permanece inutilizada por quase toda sua vida útil.
Veja abaixo o pitch da startup de economia circular.
"Posse não é liberdade, é responsabilidade. Guardar, manter, limpar, ocupar espaço… tudo isso é custo invisível. Não tentamos convencer no discurso. Convencemos na experiência", explica Fabio Ginzel, CEO da Box24x7.
Para o cofundador Artur Carvalho, o modelo funciona porque "a necessidade é temporária, mas a vontade é imediata". De airfryers a power banks, itens comuns ganham nova vida em contextos específicos.
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O desafio, portanto, não é apenas tecnológico, mas cultural. A economia circular exige menos acúmulo e mais inteligência no uso. Menos propriedade e mais acesso. E, sobretudo, uma revisão profunda sobre o que realmente precisamos manter e o que já poderia estar circulando.