Las mujeres ya no lloran, las mujeres lideran

A sociedade brasileira já entendeu que o futuro será construído com as mulheres. O que ela ainda não sabe é que esse futuro já está sendo produzido agora

mulheres na liderança
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Mariana Ribeiro 2 minutos de leitura

Quem é a mulher mais poderosa do Brasil hoje?

Se essa pergunta te deixou em branco por um momento, você está em boa companhia: quatro em cada 10 brasileiros afirmam não saber respondê-la. Foi o que revelou a pesquisa "O Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras", do Estúdio CLARICE. E o dado diz muito mais sobre a cultura do que sobre a memória.

No show histórico na praia de Copacabana, Shakira cantou para milhões o que já deveria ser consenso: as mulheres são a força desta sociedade. Hoje, elas representam 52% da população brasileira, são mais escolarizadas que os homens e chefiam a maioria dos lares brasileiros.

Ainda assim, quando pedimos para as pessoas nomearem mulheres poderosas, duas das três mais citadas são primeiras-damas – figuras associadas a homens no poder. A única exceção é a ministra Cármen Lúcia, ela própria inserida num universo majoritariamente masculino, o Supremo Tribunal Federal (STF).

O problema não é falta de mulheres. É falta de imaginário.

show da cantora Shakira no Rio de Janeiro (2026)
Crédito: Reprodução

A pesquisa revela um achado que explica muito: quando perguntados sobre homens no poder, brasileiros os descrevem com palavras como "autoridade" e "merecimento", como se o poder fosse algo que lhes pertence por natureza.

Às mulheres no poder, associam "empoderamento" e "superação", como se chegar até ali fosse sempre uma batalha vencida contra as circunstâncias. A sociedade já enxerga os obstáculos. Ainda não aprendeu a enxergar o que vem depois deles.

E é exatamente aí que está o achado mais importante do estudo.

Ao ouvir 60 mulheres em diferentes campos de atuação, a pesquisa encontrou algo que raramente aparece nos debates sobre representatividade: quando acessam o poder, muitas mulheres se recusam a reproduzi-lo como padrão e passam a recriá-lo.

Elas lideram a partir de uma ética em que o cuidado é valor inegociável. Produzem efeitos mais agregadores, distributivos e duradouros. Constroem modelos de negócios, políticas públicas, redes de relacionamento, culturas organizacionais que funcionam de outro modo. Para essas mulheres, poder não é substantivo. É verbo.

Reconhecer isso não é só uma questão de justiça. É uma questão de inteligência coletiva.

Precisamos anunciar o que as mulheres fazem quando chegam ao poder e escolhem exercê-lo de outro jeito.

Representatividade é uma condição necessária, mas insuficiente. O que precisamos agora é nomear o que as mulheres estão propondo, transformando e gerando. Precisamos ocupar a cultura com essas histórias, porque é pela cultura que o imaginário se forma.

A pesquisa mostra que a maioria das pessoas aprende sobre poder de forma autônoma por meio de filmes, séries, redes sociais, livros. E o que essa cultura ainda oferece, majoritariamente, são modelos masculinos de liderança.

Por isso, não basta denunciar. Precisamos denunciar e anunciar, ao mesmo tempo. Anunciar o que as mulheres fazem quando chegam ao poder e escolhem exercê-lo de outro jeito.

Leia mais: Não basta ter mulheres no topo. É preciso mudar como o topo funciona

A sociedade brasileira já entendeu, em algum nível, que o futuro será construído com as mulheres. O que ela ainda não sabe é que esse futuro já está sendo produzido no tempo presente. Por mulheres que não apenas ocupam espaços, mas os transformam.

Las mujeres ya no lloran. Las mujeres lideran. E está na hora de a gente aprender a ver isso.


SOBRE A AUTORA

Mariana Ribeiro é executiva, estrategista de impacto e comunicadora com mais de 10 anos de experiência na liderança de projetos e camp... saiba mais