Quem garante o retorno? A aposta trilionária da OpenAI no futuro da IA

A gigante da IA ​​está apostando seu futuro em um rápido aumento na demanda por modelos de IA de ponta nos próximos anos

financiamento de empresas de inteligência artificial
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Mark Sullivan 5 minutos de leitura

Por mais bem-sucedida que a OpenAI tenha sido desde o lançamento do ChatGPT, a empresa opera em um dos ramos mais caros e arriscados da tecnologia: o desenvolvimento de modelos de IA de ponta em escala massiva. Seu futuro – até mesmo sua sobrevivência – está longe de ser garantido.

A OpenAI está queimando bilhões para recrutar talentos de elite em pesquisa de IA, em dados de treinamento cuidadosamente selecionados e em um poder computacional cada vez mais escasso. Quem banca essa conta é uma base crescente de investidores de capital de risco e parceiros estratégicos, todos apostando em retornos fora da curva dentro de poucos anos.

O maior custo é computação. Empresas de IA precisam garantir capacidade com anos, não meses, de antecedência. Data centers levam anos para serem construídos e entrar em operação. Isso as obriga a prever a demanda com muita antecedência e correr para gerar receita suficiente para cobrir esses compromissos.

Se subestimam a demanda, deixam dinheiro na mesa. Se superestimam, as consequências podem ser existenciais.

A rival da OpenAI, a Anthropic, enfrenta uma aposta igualmente delicada, mas tem seguido um caminho mais conservador. O CEO da empresa, Dario Amodei, descreveu o desafio em um podcast recente com Dwarkesh Patel.

“Tivemos um crescimento de 10 vezes ao ano, todos os anos. No início de 2026, estamos considerando US$ 10 bilhões em receita anualizada... Eu poderia assumir que a receita continuará crescendo 10 vezes ao ano, mas não posso comprar US$ 1 trilhão por ano em computação em 2027. Se eu errar esse ritmo de crescimento por apenas um ano, ou se o crescimento for de cinco vezes ao ano em vez de 10, então você quebra.”

A OpenAI pode ter saído na frente, mas ainda não construiu mecanismos fortes de retenção de clientes.

A OpenAI está jogando um jogo mais arriscado. A empresa já comprometeu mais de US$ 1 trilhão na construção de novos data centers e no leasing de capacidade computacional de parceiros como Amazon Web Services, CoreWeave, MGX, Microsoft, Nvidia, Oracle e Arm.

Só a Oracle fechou uma parceria de US$ 300 bilhões por cinco anos em data centers, com compromissos mínimos que devem atingir cerca de US$ 60 bilhões por ano até 2027, segundo análise da PitchBook.

A OpenAI também contratou aproximadamente US$ 250 bilhões em computação da Microsoft e paga cerca de US$ 5 bilhões anuais de volta à empresa por meio de participação de receita do Microsoft Azure.

OPENAI E O FUTURO DA IA

Todo esse gasto depende de quão rápido a receita da OpenAI cresce. A empresa gera cerca de US$ 25 bilhões em receita anualizada, segundo a PitchBook, uma proporção de 40 para 1 entre obrigações e receita atual. Se não atingir metas chave de crescimento, pode ter dificuldade para cobrir suas contas de computação e data centers.

Segundo o "The Wall Street Journal", a OpenAI não atingiu metas internas de receita e usuários no início de 2026. A CFO Sarah Friar teria alertado líderes, reservadamente, que a empresa pode não conseguir financiar seus contratos futuros de computação se o crescimento desacelerar.

A OpenAI não contestou a reportagem. O CEO, Sam Altman, e Friar disseram, em comunicado conjunto, que estão “totalmente alinhados em comprar o máximo de computação possível”.

Tela de notebook no ChatGPT
Crédito: Pixabay

E estão mesmo. Segundo estimativa de Harrison Rolfes, analista sênior de empresas privadas da PitchBook, os prejuízos de caixa da OpenAI podem chegar a quase US$ 74 bilhões no ano fiscal de 2028, antes que a empresa tenha um caminho realista para atingir o ponto de equilíbrio até 2030.

“A reportagem do 'The Wall Street Journal' informando que a OpenAI perdeu várias metas mensais de receita este ano, após perder participação em clientes corporativos e em ferramentas de programação para a Anthropic e o Gemini, é exatamente o cenário que torna essa matemática perigosa”, dize Rolfes. “Cada meta de receita não atingida se acumula contra uma lista de obrigações fixas que não é flexível.”

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Se a OpenAI tivesse consolidado um produto impossível de ser replicado, ou muito à frente dos concorrentes, poderia ter uma margem competitiva defensável, o que ajudaria a compensar os riscos de uma expansão tão agressiva. No entanto, muitos analistas veem essa margem como relativamente limitada.

“Ficou claro que os modelos de ponta estão rapidamente virando commodities. A DeepSeek demonstra isso repetidamente”, afirma Daniel Keum, professor da Escola de Negócios de Columbia. “Os custos de troca são mínimos. As principais exceções são empresas como Google e Microsoft, que conseguem incorporar IA em ecossistemas difíceis de substituir, como Gmail, Google Calendar e Microsoft Office.”

CONCORRÊNCIA ACIRRADA

A OpenAI pode ter saído na frente em um mercado que cresce em ritmo “exponencial de 10 vezes”, acrescenta Keum, mas ainda não construiu grande diferenciação nem mecanismos fortes de retenção, especialmente entre consumidores. Já a Anthropic pode se mostrar mais resiliente, dado seu foco em clientes corporativos, onde os custos de troca tendem a ser mais altos.

Ainda assim, a OpenAI levantou recentemente US$ 122 bilhões a uma avaliação de US$ 852 bilhões, sinalizando que investidores continuam acreditando em um “salto da IA” relativamente rápido, no qual haverá ampla integração da tecnologia nas operações das empresa. É essa transformação que leva OpenAI e seus pares a gastar tanto para se preparar.

Ficou claro que os modelos de ponta estão rapidamente virando commodities.

“O risco para a OpenAI não é um colapso repentino”, diz Rolfes, “mas sim que, como a pilha de obrigações é tão grande e já está travada, cada falha de receita reduz suas opções mais rapidamente do que a maioria imagina.”

Tanto a OpenAI quanto a Anthropic devem abrir capital em um futuro próximo, o que dará uma visão mais clara de seus riscos financeiros. Por enquanto, o sentimento dos investidores parece inclinar-se para a abordagem mais cautelosa da Anthropic.

No início de abril, surgiram relatos de que investidores estavam evitando ações da OpenAI em plataformas de mercado secundário e migrando para papéis da Anthropic. Será que a OpenAI sabe algo sobre o “salto da IA” que o mercado ainda não enxergou?


SOBRE O AUTOR

Mark Sullivan é redator sênior da Fast Company e escreve sobre tecnologia emergente, política, inteligência artificial, grandes empres... saiba mais