Darwin, Tchaikovsky e Maya Angelou usavam esta estratégia para estimular a criatividade
Entenda o segredo contraintuitivo de algumas das mentes mais criativas da história

Algumas vezes por mês, forço meu cérebro a ter novas ideias. O processo é contraintuitivo. Fico entediado de propósito. Acredito que em estado de tédio criativo, a mente conecta melhor os pontos. Sinto-me culpado toda vez. Mas sigo em frente.
Eu deveria estar trabalhando. Tenho uma lista de tarefas e e-mails para responder. E, deliberadamente, permito que minha mente não faça nada. Essa ideia é difícil de vender hoje em dia. As pessoas juram por todo tipo de estrutura de produtividade.
Construímos culturas de trabalho inteiras em torno da ideia de que tempo ocioso é tempo desperdiçado. Então, preenchemos cada momento com trabalho ou conteúdo. Com algo. Qualquer coisa para evitar o desconforto de apenas ser.
As grandes mentes da história entendiam o valor do tédio. Isaac Newton foi enviado para a casa de Cambridge em 1665, quando a peste fechou a universidade.
Sem palestras, sem colegas, sem trabalho estruturado. Ele passou 18 meses na fazenda da família em Woolsthorpe, boa parte do tempo sozinho, sem nada óbvio para fazer.
Nesse período de ociosidade "forçada", ele inventou o cálculo. Desenvolveu a sua teoria da óptica. Elaborou as bases da gravitação universal.
Mais tarde, ele chamou esse período de seu annus mirabilis, o ano miraculoso. Seu ano de "não ocupação" acabou sendo o mais produtivo de sua vida.
CONEXÕES INESPERADAS
Há uma tonelada de pesquisas que sustentam o valor do tédio. Quando você não está focado em uma tarefa específica, seu cérebro não desliga. Ele entra na rede de modo padrão (default mode network), um sistema de regiões interconectadas que se torna mais ativo durante o repouso.
É aqui que você faz conexões inesperadas. Onde você integra o conhecimento. Onde a ideia distante encontra o fato semiletrado e, de repente, algo novo se torna óbvio.
Você provavelmente já experimentou isso antes. A solução surge durante uma caminhada quando você nem estava pensando no problema. A resposta que você obtém quando nem estava tentando. O cérebro faz o seu melhor trabalho quando você finalmente para de interrompê-lo.

Charles Darwin era obsessivo com suas caminhadas diárias. Ele construiu um caminho circular de cascalho em seu jardim e caminhava por ali durante horas, todos os dias. Apenas andando, pensando, deixando as ideias criarem conexões.
Ele costumava contar as voltas com uma pilha de pedras, chutando uma para longe a cada circuito. Sua obra máxima, "A Origem das Espécies" foi, de muitas formas, montada naquele caminho.
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Tchaikovsky acreditava que caminhar era essencial para a criação. O compositor fazia isso duas vezes ao dia, por exatamente duas horas em cada vez, independentemente do clima. Ele dizia ter certeza de que, se pulasse a caminhada, ficaria doente. Verdade ou não, o fato é que as caminhadas surtiram efeito. A produção criativa que elas sustentavam era extraordinária.
Beethoven caminhava depois do almoço todos os dias, carregando um lápis e um pedaço de papel no casaco. As caminhadas não eram pausas do seu trabalho. Elas eram o seu trabalho. O pensar e o passear eram inseparáveis.
LONGE DE TUDO
O fascinante hoje é que temos mais ferramentas do que nunca para sermos produtivos. Mas as descobertas criativas não parecem estar acontecendo mais rápido.
Pelo contrário, muitas pessoas relatam sentir-se menos criativas, mais travadas, mais ansiosas – justamente as pessoas que deveriam se beneficiar mais da conectividade total. Escritores, designers e cientistas dizem que pensam melhor fora dessas horas. Quando estão longe de tudo.

Parte do problema é que reduzimos o espaço entre estímulo e resposta a quase nada. Um pensamento surge e, antes que ele tenha tempo de se tornar algo, já checamos o Twitter.
Uma ideia começa a se formar e abrimos o Slack. Estamos em permanente estado de reação, o que significa que raramente estamos em estado de criação.
A romancista e poetisa Gertrude Stein entendia isso. Ela e Alice B. Toklas costumavam dirigir pelo interior da França; Stein sentava-se no banco de trás e olhava pela janela.
As pessoas que chamamos de gênios criativos eram melhores em não trabalhar.
Por horas. Alice esperava. Stein explicava que precisava ver a paisagem se movendo, deixar seus olhos viajarem sem que sua mente os seguisse. Era assim, dizia ela, que ela pensava.
O poeta William Wordsworth compunha poesia em sua cabeça enquanto caminhava, e depois a ditava quando chegava em casa. O campo era sua desculpa para ser lento e presente, deixando o pensamento chegar no seu próprio tempo.
John Keats cunhou o termo "capacidade negativa" em 1817 para descrever a habilidade de conviver com perguntas e dúvidas sem buscar respostas ansiosamente. O poeta achava que essa era a qualidade definidora dos grandes escritores e pensadores.
O TÉDIO CRIATIVO
As indústrias criativas modernas tropeçaram nisso por acidente.
O estúdio de animação Pixar tem cronogramas de produção reconhecidamente longos. Os filmes levam anos. Uma parte significativa desse tempo é gasta no que a cultura do estúdio chama de "errar para frente" (failing forward). Fazer algo ruim, dar um passo atrás, pensar, afastar-se, voltar.
O ex-diretor de criação da Pixar John Lasseter costumava falar sobre como sua equipe ia para casa quando estava travada em um problema de roteiro, porque sabia que a resposta não viria na mesa de trabalho.
"Procurando Nemo" quase não existiu. A história empacou repetidas vezes. O diretor Andrew Stanton passou meses sem fazer nada "produtivo" no filme enquanto a equipe tentava descobrir o que estava errado. A resposta só veio quando ele parou de tentar.

As pessoas que chamamos de gênios criativos eram melhores em não trabalhar. Elas protegiam seu tempo ocioso da mesma forma que protegemos nossa agenda. Tratavam-no como tédio criativo, mesmo quando parecia nada. Suas iluminações repentinas eram fruto do trabalho inconsciente do cérebro.
Todos podemos aprender com eles. Faça um esforço consciente e depois dê um tempo. Abra espaço para o seu cérebro conectar os pontos.
Maya Angelou escrevia em quartos de hotel vazios, com quase nada neles. Sem fotos de família, sem vistas interessantes. Ela queria um espaço em branco onde nada pudesse acontecer.
Estamos em permanente estado de reação, o que significa que raramente estamos em estado de criação.
Chegava cedo pela manhã, deitava-se na cama com um bloco de notas e passava horas escrevendo muito pouco. Apenas existindo naquele quarto, deixando o tempo passar.
Ela dizia que o vazio era o objetivo. Você tinha que se dar tédio suficiente para que a imaginação ficasse desesperada o bastante para começar a trabalhar.
Suspeito que a maioria de nós conhece a sabedoria de não fazer nada. Apenas não confiamos nela. O tédio parece fracasso. Parece preguiça. Ou prova de que não estamos nos esforçando o suficiente.
Confundimos ocupação com virtude. Mas as melhores ideias não seguem um cronograma. Você não pode forçá-las, só pode criar as condições nas quais elas podem chegar. Uma caminhada pela natureza, um caderno em branco, uma janela com algo passando lá fora e a paciência para esperar.
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Desligue o telefone. Vá caminhar. Olhe para o céu por um tempo. Você não está perdendo tempo. Está trabalhando.