Por que a ansiedade piora à noite – e como isso afeta seu sono

De exames médicos pendentes a uma briga com um amigo há uma década: especialistas explicam por que nos preocupamos na cama — e como voltar a dormir

Por que a ansiedade piora à noite
Créditos: George Peters/ Alpgiray Kelem/ Getty Images

Lilian Campos 5 minutos de leitura

Você conhece o cenário: é noite. Você está aconchegado sob as cobertas, pegando no sono. De repente, seus olhos se arregalam.

Nossa, a fatura do cartão veio alta este mês. Preciso fazer um orçamento. Meu chefe fez aquele comentário estranho ontem.

Será que estou na corda bamba? Esqueça o trabalho, estamos à beira de uma guerra mundial? E que diabos é aquela pinta estranha no meu braço?

Antes que você perceba, as preocupações inundam o seu cérebro. Você é tomado pela ansiedade; e o sono não virá tão cedo.

“Acho que todos já passamos pela experiência de entrar em espiral à noite e, pela manhã (à luz do dia), aquilo que nos estressava na noite anterior às vezes parece quase ridículo”, diz a neuropsicóloga Sanam Hafeez.

E isso é um problema. A falta de sono afeta seriamente nossa capacidade de funcionar, afirma Kristen Stone, psicóloga clínica licenciada e professora assistente da Universidade Brown, especializada em medicina comportamental do sono.

Sem sono suficiente, podemos ter redução na capacidade de atenção, lentidão nos reflexos e falta de controle de impulsos. E um sono “suficiente” não é apenas a soma de pedaços de sono interrompido.

“Se você tem oito horas de sono muito fragmentado, não está significativamente melhor do que alguém que tem quatro horas de sono consolidado”, diz ela.

MONSTROS NO ESCURO

Existem algumas razões pelas quais a ansiedade atinge o pico no meio da noite. Primeiro, há menos distrações. Durante o dia, podemos focar nossos pensamentos no trabalho, na vida social, em hobbies e tarefas.

Mas o cérebro é um trabalhador eficiente, e quando todas essas demandas são cumpridas ou deixadas de lado, ele começa a trabalhar nos assuntos que restaram. 

“Pensando bem, é bastante adaptativo que o cérebro traga à tona o estressor uma vez que o material que competia pela atenção desapareceu”, diz Stone.

Além disso, estamos cansados, acrescenta Hafeez, e essa fadiga pode nos tornar menos capazes de conter as preocupações.

À noite, Hafeez conta que ultimamente tem se preocupado com as fechaduras das portas de sua casa. “Aconteceu várias vezes, e eu quase fico paranoica”, admite. Logicamente, ela sabe que as portas estão trancadas, mas as preocupações persistem.

Há também o efeito bola de neve: se você diz a si mesmo para não pensar em algo, é provável que pense ainda mais nisso.

Hafeez explica que existe ainda um componente biológico para os medos noturnos: é quando estamos mais sintonizados com o perigo.

“É quando os lobos e todos os predadores saem”, diz ela. É mais provável pensarmos: “Ah, se eu cair no sono, algo terrível vai acontecer”. Assim, a amígdala, o centro do medo no cérebro, fica mais ativa.

Pesquisadores do estudo “Mind After Midnight” (A Mente Após a Meia-Noite) descobriram que nossas mentes são mais propensas a pensamentos negativos, emocionais e menos racionais à noite.

O artigo aponta aumentos em comportamentos que vão desde violência e pensamentos suicidas até o consumo de álcool e a compulsão alimentar noturna.

Se você sente seu sono interrompido por preocupações (ou até por aquela coisa estranha que você disse em um jantar de família no ano passado), os especialistas dão algumas dicas para voltar a dormir:

PROCESSE O SEU ESTRESSE

Às vezes, deitar na cama é o primeiro momento de silêncio do dia, o que o deixa vulnerável a interrupções de sono causadas pela preocupação, diz a especialista em sono Nancy H. Rothstein.

Antes de se acomodar, use técnicas de mindfulness ou outras táticas para processar pensamentos estressantes: meditação, exercícios, escrita (journaling) ou respiração profunda podem ajudar na “transição para um sono em paz”.

ENCONTRE DISTRAÇÕES SUAVES

Quando as preocupações surgirem à noite, você pode precisar convocar seu córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável pelo pensamento crítico e regulação emocional. 

Lembre-se de que você provavelmente está cansado e que a fadiga ou o viés de negatividade noturna estão fazendo a situação parecer pior do que é. Hafeez sugere distrações leves, como nomear objetos no quarto ou pensar em um evento positivo recente.

ENCONTRE AS SUAS CONDIÇÕES IDEAIS DE SONO

O ambiente importa. Enquanto alguns precisam de silêncio, outros preferem ruído branco, como ondas do mar ou chuva. Da temperatura ao som, experimente o que funciona melhor para você.

ESCREVA

Se as preocupações persistirem, anote-as. Hafeez admite usar o celular para anotar tarefas pendentes, mas se você se preocupa com a luz azul ou com o risco de cair no doomscrolling (rolagem infinita de notícias ruins), mantenha um caderno e caneta ao lado da cama.

Às vezes, apenas tirar o pensamento da cabeça e colocá-lo no papel ajuda a deixá-lo ir.

ACEITE QUE UM POUCO DE PREOCUPAÇÃO É NORMAL

Stone aponta que reservar um “horário para se preocupar” durante o dia pode diminuir a ansiedade diurna, mas a prova de que isso ajuda a dormir melhor é escassa.

O problema maior é se preocupar por estar se preocupando, o que rouba o sono. Intervenções baseadas em mindfulness ajudam as pessoas a melhorar a relação com seus pensamentos: aprender a notá-los sem lutar contra eles diminui o estresse geral e favorece o sono.

ESTABELEÇA HORÁRIOS REGULARES

A consistência importa por causa do nosso ritmo circadiano. Quando mantemos horários de sono diferentes a cada dia, criamos um “jet lag” em nós mesmos.

Tentar compensar o sono dormindo até mais tarde ou tirando sonecas desregula outros aspectos importantes do sono saudável.

Se a interrupção do sono for um problema crônico, procure um profissional de saúde mental ou um médico para determinar se há questões físicas ou mentais subjacentes que precisam de tratamento. Às vezes, a intervenção médica também pode ajudar a manter as preocupações bem longe.


SOBRE A AUTORA

Lilian Campos é jornalista colaboradora da Fast Company Brasil. saiba mais