Trabalho em equipe em risco? Entenda como a IA pode transformar esse modelo

No novo modelo integrado à IA, talento e julgamento humano serão mais essenciais do que nunca

como transformar o modelo do trabalho em equipe
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Tomas Chamorro-Premuzic e Dorie Clark 4 minutos de leitura

A inteligência artificial generativa tornou possível que uma só pessoa realize tarefas que antes exigiam equipes inteiras. Hoje, um único profissional de marketing pode produzir ativos de campanha, analisar dados e gerar conteúdo em escala.

Um gerente de produto pode prototipar, testar e iterar sem depender da engenharia. Desenvolvedores podem entregar grandes volumes de código, de alta qualidade, escritos por máquinas.

O resultado é o surgimento do "funcionário superpoderoso", capaz de fazer o trabalho de muitos. É tentador extrapolar que a colaboração humana está se tornando obsoleta.

Se a IA pode replicar ou ampliar as contribuições cognitivas de múltiplos indivíduos, por que se dar ao trabalho da fricção do trabalho em equipe?

Em nosso trabalho com grandes empresas que se reinventam diante da IA, vemos uma ampla gama de experimentações, com empresas usando agentes para testar estratégias, desempenhar funções chave como finanças e operações e servir como equipes de desenvolvimento quase autônomas.

Ainda assim, acredita-se que o trabalho em equipe veio para ficar, embora a IA certamente vá reformulá-lo. Especificamente, acreditamos que o trabalho em equipe mudará de três formas fundamentais.

1. A COMPOSIÇÃO DA EQUIPE VAI MUDAR

As equipes tendem a se tornar menores (e talvez mais ágeis), pois cada integrante pode fazer mais por conta própria. Além disso, os times podem incluir colaboradores humanos e não humanos.

Como resultado, não será suficiente que algumas pessoas sejam "boas com IA". O letramento em IA deve se tornar uma capacidade central da equipe, não uma habilidade individual. As equipes precisam de normas compartilhadas sobre tópicos emergentes, como:

  • Quando confiar na IA (e quando não confiar);
  • Compreender a diferença e as trocas entre velocidade e qualidade, eficiência e precisão, trabalho de baixo valor e de alto valor;
  • Como interrogar os resultados da IA e combiná-los com o julgamento humano.

Robô e humano se encarando
Crédito: Freepik

Equipes eficazes precisarão desenvolver um mecanismo para recompensar as pessoas não apenas por usar a IA de forma eficiente, mas por identificar quando ela está errada.

Na prática, isso pode significar tornar o "ceticismo em relação à IA" uma parte formal da avaliação de desempenho.

2. O FOCO DAS EQUIPES VAI MUDAR

Hoje, muitas equipes focam em questões logísticas – uma mistura de análise, relatórios e coordenação entre divisões e departamentos. Esse tipo de trabalho em equipe baseado em tarefas pode ficar obsoleto, pois a IA pode lidar com isso de forma mais rápida e eficiente.

Mas o trabalho em equipe nunca foi apenas sobre a execução de tarefas e, na era da IA, ele vai evoluir para uma atividade de maior valor que desbloqueia novas possibilidades para as organizações. De fato, à medida que a colaboração transacional diminui, a colaboração relacional se torna mais importante.

diversidade nas equipes  de trabalho
Crédito: Istock

Os líderes devem investir na construção de confiança: menos interações, mas de maior qualidade; mais tempo presencial, quando possível; e espaço para divergências. A segurança psicológica é importante, mas a fricção intelectual também. O objetivo não é a harmonia, mas o conflito produtivo.

Como resultado dessa mudança, o trabalho em equipe provavelmente parecerá cada vez mais significativo, como um componente central tanto do seu trabalho quanto da sua identidade profissional.

3. O PAPEL DOS LÍDERES TAMBÉM VAI MUDAR

Os líderes na era da IA terão que fazer três grandes mudanças na forma como orientam os membros de sua equipe.

Tornar-se mais intencional ao focar a equipe em trabalho de alto valor

Com a IA lidando com a maior parte da carga analítica e operacional, os líderes precisarão redesenhar as equipes em torno do julgamento, não das tarefas. Elas devem ser bem orientadas para objetivos de ordem superior: estruturar problemas, fazer escolhas difíceis e alinhar prioridades.

Em outras palavras, as soft skills de liderança podem se tornar as mais difíceis de substituir. Uma regra simples: se uma reunião puder ser substituída por um resumo gerado por IA, provavelmente ela deveria ser.

Ressignificar seu papel como orquestrador, não como a fonte das respostas

Os líderes devem começar a se ver como os arquitetos do modo como humanos e máquinas trabalham juntos. Isso significa esclarecer papéis entre IA e pessoas, definir direitos de decisão e garantir a responsabilidade.

Também exige resistir à tentação de ceder à IA quando os riscos são altos. O senso crítico, e não a produção, continua sendo a responsabilidade final do líder.

Mulher na frente e robôs atrás
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Medir o que realmente importa

Em muitas organizações, o desempenho ainda é avaliado com base na atividade visível, e não na qualidade do pensamento. Em um mundo habilitado por IA, isso se torna perigoso.

Os líderes devem mudar as métricas para a qualidade da decisão, velocidade de aprendizado e resultados de longo prazo, em vez de ganhos de produtividade de curto prazo.

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Assim, o antigo trabalho em equipe de processamento e coordenação está de saída. Mas o novo, integrado à IA e imbuído de talento e julgamento humano, será mais essencial do que nunca.

A oportunidade é de reconstruí-lo em torno do que os humanos fazem de melhor: pensar criticamente, conectar-se e decidir com sabedoria, para que a soma de uma equipe seja maior do que suas partes.


SOBRE O AUTOR

Tomas Chamorro-Premuzic é diretor científico da Russell Reynolds Associates, professor de psicologia empresarial no University College... saiba mais