CEO diz que “taxar os ricos” é discurso de ódio – e os próprios ricos reagem

Proposta do prefeito de Nova York de novo imposto sobre imóveis de luxo reacende disputa sobre desigualdade nos EUA

alto executivo reclama de taxação sobre ricos
Steven Roth, chairman e CEO da Vornado Realty Trust (Créditos: Deagreez/ MoveOn/ Misha Friedman/ Getty Images)

Kristin Toussaint 4 minutos de leitura

Na cidade de Nova York, legisladores discutem a criação de um imposto sobre "apartamentos de fim de semana", ou seja, um segundo imóvel, com valor superior a US$ 5 milhões. A proposta faz parte de uma onda crescente de medidas voltadas a aumentar a tributação sobre os super-ricos.

Mas nem todo mundo no topo da pirâmide gostou da ideia. Durante uma teleconferência sobre resultados trimestrais, Steven Roth, CEO da empresa de investimentos imobiliários Vornado Realty Trust, comparou a retórica em torno de “taxar os ricos” a discurso de ódio.

Roth se referia especificamente ao que chamou de uma “disputa” entre o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o bilionário Ken Griffin, fundador da gestora de investimentos Citadel.

Recentemente, Mamdani publicou um vídeo gravado em frente à cobertura multimilionária de Griffin dizendo que iria “taxar os ricos". O prédio, segundo o "The New York Times", foi desenvolvido pela Vornado.

novo imposto sobre imóveis de super-ricos em Nova York
Prédio de luxo em Nova York usado como pano de fundo para vídeo sobre novo imposto (Crédito: Reprodução/ YouTube)

“Preciso dizer que considero a expressão ‘taxar os ricos’… quando cuspida com raiva e desprezo por políticos aqui e em todo o país, tão odiosa quanto alguns insultos raciais repugnantes e até mesmo a frase ‘do rio ao mar’”, afirmou Roth durante a ligação.

“Os ricos que os políticos estão atacando começaram do zero e representam a essência do sonho americano”, continuou. “Eles estão no topo da grande pirâmide econômica americana por uma razão. Deveriam receber elogios e agradecimentos.”

Mas a visão de Roth não parece refletir a opinião da maioria da população dos EUA. Segundo uma pesquisa da Harris Poll realizada em 2025, a maior parte afirma que os bilionários “dificultam” a realização do sonho americano para as demais pessoas.

ALGUNS RICOS QUEREM PAGAR MAIS IMPOSTOS

Nem todos os milionários concordam com Roth. Erica Payne, presidente e fundadora da organização Patriotic Millionaires, diz abraçar a expressão “taxar os ricos” – tanto que ela virou o título de seu livro lançado em 2021.

“Acreditamos que pessoas ricas como os nossos membros deveriam pagar mais impostos por uma série de razões”, disse Payne à Fast Company. A Patriotic Millionaires reúne indivíduos de alto patrimônio que defendem impostos mais progressivos para reduzir a desigualdade de riqueza.

Segundo Payne, um dos motivos é que, desde 1975, cerca de US$ 80 trilhões foram transferidos dos 90% mais pobres dos norte-americanos para o 1% mais rico. Outro motivo: “a concentração de riqueza no nível em que chegou representa uma ameaça existencial à democracia”, afirma.

Diversos estudos já relacionaram desigualdade econômica e concentração de riqueza à erosão do conceito de democracia, considerada, em alguns casos, uma ameaça maior aos regimes democráticos do que golpes militares.

“Quem não entende isso, inclusive quem possui esse nível de riqueza, deveria ser visto como alguém agindo contra o nosso sistema de autogoverno”, diz Payne.

E por que mais os ricos deveriam ser taxados? “Porque atualmente estamos taxando os pobres e isso, claramente, não está funcionando muito bem”, reconhece Payne. Após a reforma tributária de 2017 nos EUA, bilionários passaram a pagar uma alíquota efetiva menor do que a média dos contribuintes.

Payne criticou duramente as declarações de Roth, classificando-as como um sinal de insegurança e uma evidência de que os ricos “talvez entendam que não valem, nem remotamente, a quantidade de dinheiro que atualmente controlam”.

EGOS INFLADOS

Não é a primeira vez que super-ricos são criticados por se acharem “sensíveis e oprimidos”.

“Eles estão reagindo emocionalmente ao que é a única escolha lógica em uma democracia capitalista, ou seja, reconhecer que o nível de riqueza de que desfrutam hoje é baseado muito mais em uma estrutura econômica distorcida, que entrega retornos desproporcionais para pessoas da sua classe, em comparação com o valor real que elas trazem”, analisa Payne.

Assim como Roth afirmou que bilionários deveriam ser celebrados e receber agradecimentos, muita gente defende os super-ricos argumentando que eles criaram empregos e valor econômico por meio de suas empresas. Payne contesta essa visão.

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Em alguns casos, segundo ela, empresários podem destruir valor econômico. Ela cita, por exemplo, um estudo de 2009 segundo o qual, para cada novo emprego criado pelo Walmart no varejo, 1,4 vagas existentes são eliminadas em negócios concorrentes.

“A narrativa alarmista de que ‘o céu vai cair’, ‘a economia vai colapsar sem o nosso talento’ é absurda”, afirma Payne sobre bilionários que se opõem a impostos ou outras políticas voltadas a combater a desigualdade. “A única coisa que vai colapsar se taxarmos bilionários de forma adequada são um ou dois egos inflados – e isso seria ótimo para todo mundo.”


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais