Conheça o seu novo coach de carreira: um bot de IA
A prática coloca em questão o futuro das relações tradicionais de mentoria no trabalho. Alguns profissionais não veem isso como algo ruim

Quando a profissional de comunicação Suzanne Selkow decidiu abrir sua própria consultoria, ela percebeu que seguir carreira solo significava ter menos oportunidades de "recorrer a um colega para uma validação rápida".
Sabendo que às vezes fica travada na hora de tomar uma decisão", ela concluiu que precisava de algum tipo de perspectiva externa ao lançar seu negócio. Assim, recorreu a um tipo diferente de mentor: criou um coach de carreira de IA usando o Claude, da Anthropic.
"Achei que esse era um caso de uso prático para um LLM [grande modelo de linguagem]: pegar algumas daquelas ideias mais amplas que eu havia trabalhado com um coach humano e transformá-las em um plano [de negócios] semanal", diz ela.
Cada vez mais pessoas parecem estar confiando na IA como um coach de carreira eficaz. De acordo com uma pesquisa de 2025 do The Conference Board, 96% dos trabalhadores sentiram que a IA foi capaz de oferecer um treinamento "personalizado".
Entre os que usaram a tecnologia para coaching de carreira, 91% disseram que a utilizariam novamente. Funcionários seniores também estão percebendo essa prevalência entre os mais jovens.
"Os profissionais iniciantes estão usando a IA para tirar dúvidas sobre a carreira com muita frequência", diz Jasmine Singh, conselheira geral da empresa de tecnologia jurídica Ironclad. "Se eles teriam recorrido a pessoas mais experientes para essas perguntas ou não... é a parte discutível."
Com tantas preocupações focadas no trabalho sobre a IA substituir humanos, é um pouco surpreendente ver a tecnologia sendo usada para mentoria, uma atividade exclusivamente humana que depende da conexão interpessoal para o crescimento profissional.
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Mas, mesmo que mais trabalhadores busquem conselhos profissionais na IA, eles insistem que o papel da tecnologia é complementar às suas interações com mentores humanos.
Segundo os usuários, a tecnologia simplesmente ajuda a preencher lacunas com as quais os humanos, de qualquer forma, não gostariam de ser incomodados.
“VOCÊ É O MEU COACH DE NEGÓCIOS”
Quando Abby Hegland iniciou o seu novo cargo em dezembro como executiva de contas na Yoodli (uma empresa que oferece simulações de comunicação por IA), seus colegas estavam sobrecarregados com tarefas de fim de ano e tinham pouco tempo para treiná-la.
"Eu sabia que tinha que ser independente e proativa quando se tratava de... me atualizar", diz ela. Então, decidiu usar o próprio produto de IA da empresa para praticar seu trabalho.

Ela perguntava ao Yoodli coisas do tipo: "como você venderia para este cliente? Como explicaria este recurso do produto?". Com menos de uma semana no cargo, ela já estava atendendo chamadas de clientes e até fechou um negócio.
Outro exemplo de jovens associados usando a IA para mentoria que Singh observou é para o desenvolvimento de carreira. "Eles perguntam à IA: 'estou neste cargo, fazendo tal coisa. Quero estar naquele cargo, fazendo aquela outra coisa. Quais são os passos que devo seguir para ir do ponto A ao ponto B?'", relata ela.
SEM MOMENTOS CONSTRANGEDORES COM A IA
Outra usuária do Yoodli, Curency Reed, corretora em uma firma de consultoria imobiliária, usa a IA para "praticar antes de uma reunião importante" ou para "resolver um cenário difícil".
Embora estas sejam atividades que poderia fazer com a ajuda de um mentor humano, ela gosta do fato do coach de IA estar disponível no momento exato. "Sem agendamento, sem constrangimento, sem esperar que o mentor certo tenha um horário livre na agenda."
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Em algumas áreas, como o Direito, existe uma cultura em que os superiores esperam que os funcionários juniores façam sua própria pesquisa antes de procurá-los com dúvidas.
Na experiência de Singh, os associados que usam mentores de IA costumam "fazer perguntas prévias, para que, quando cheguem aos seus mentores humanos, as perguntas sejam mais específicas e direcionadas".
A IA NÃO SE IMPORTA COM O SEU SUCESSO
Embora a mentoria por IA possa aliviar o constrangimento, economizar tempo e até facilitar a mentoria humana, sua flagrante falta de humanidade levanta sinais de alerta compreensíveis.
Na revista "Psychology Today", por exemplo, a psicóloga Priya Nalkur escreve: "com a IA, nunca sou levada a me sentir desconfortável". Mas o desconforto é uma parte enorme do trabalho e das relações humanas em geral. "E é uma habilidade que estamos perigosamente perto de perder", alerta.
Ela insiste que qualidades como "maturidade emocional" são conquistadas com esforço por meio da experiência interpessoal, e não lendo feedbacks gerados por IA em uma tela.
Os profissionais iniciantes estão usando a IA para tirar dúvidas sobre a carreira com muita frequência.
"O apoio emocional e a validação pessoal que os mentores oferecem não podem ser replicados por algoritmos", reforça Andy Lopata, estrategista de relacionamentos profissionais.
Ao confiar demais em um mentor de IA, "você pode comprometer sua habilidade a longo prazo, não apenas de ter sucesso em sua profissão – por não ter tido a experiência prática de pedir ajuda e receber mentoria –, mas também torna mais difícil para você mesmo se tornar um mentor no futuro", diz Singh.
No fim das contas, o elemento humano simplesmente parece diferente. "Meu gestor realmente se importa com a minha carreira", diz Hegland. "O Yoodli [o chatbot de IA] não."