Respiração: o capital estratégico de trilhões

Evidências científicas e tendências globais apontam: a crise não está na estratégia. Está no sistema nervoso. E a solução também

saúde mental no trabalho
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Mateus Dounis 3 minutos de leitura

O dia mal começou, chegam três mensagens ao mesmo tempo e você precisa tomar uma decisão em poucos minutos – mas parece que seu cérebro travou.

No corredor, seu gerente de projetos tenta se acalmar para entrar em uma reunião importante. Nesta manhã, descobriu que a esposa está grávida. Ele está feliz… e apavorado. Ainda não se adaptou às implementações de IA e o medo de perder o lugar está gritando.

Na central de atendimento, sua colaboradora acaba de ser humilhada por um cliente que perdeu a paciência. Em 30 segundos ela precisa atender a próxima ligação com o mesmo sorriso e gentileza, mas por dentro está transbordando como uma chaleira no fogo.

Três pessoas. Três contextos diferentes. O mesmo problema: sistemas nervosos em colapso, tentando dar conta de cargas que nunca foram treinadas para suportar.

E isso se repete todos os dias.

O ERRO QUE ESTÁ CUSTANDO TRILHÕES

Os números revelam um paradoxo: nunca se investiu tanto em bem-estar corporativo, mas o desempenho segue caindo, enquanto mais pessoas operam no limite do estresse, da ansiedade e do burnout.

Em 2025, o Brasil ultrapassou a marca de meio milhão de afastamentos por transtornos mentais, estabelecendo um novo recorde. Globalmente, o cenário não é diferente. O Gallup reportou que o engajamento caiu para 20% em 2025, custando cerca de US$ 10 trilhões em produtividade perdida por ano.

Não é falta de esforço ou de iniciativas. É um erro de diagnóstico. Seja estratégia, seja cultura, tudo depende de algo mais fundamental: o estado neurofisiológico das pessoas.

exercícios de respiração ajudam a reduzir o estresse
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É esse estado que determina a qualidade da atenção, das decisões e das ações. No fim do dia, é o que define os resultados do negócio.

Nos bastidores, uma mudança começa a emergir. O Global Wellness Summit apontou o neurowellness entre as principais tendências de 2026, deslocando o foco do tratamento de sintomas para o desenvolvimento da capacidade de autorregulação do sistema nervoso.

Mas como levar isso, de forma efetiva e sustentável, para as grandes organizações?

A INFRAESTRUTURA DO DESEMPENHO

Um estudo da McKinsey publicado em janeiro aponta o caminho. Ao analisar 115 intervenções de saúde corporativa, a pesquisa identificou um padrão: as que realmente melhoram o desempenho são as mais simples, integradas ao fluxo do trabalho e que atuam simultaneamente em múltiplas dimensões da saúde.

Faz sentido. Afinal, os desafios reais acontecem durante a reunião, ao lidar com um conflito, no momento de uma decisão. E é aí que entra a variável mais negligenciada e, ao mesmo tempo, a mais decisiva: a respiração. Uma tecnologia que todos já possuem, acessível a cada momento – e a forma mais direta de regulação do sistema nervoso.

nunca se investiu tanto em bem-estar corporativo, mas o desempenho segue caindo.

É amplamente documentado na literatura científica que a respiração reduz a ansiedade, modula o estado emocional e favorece funções cognitivas, clareza mental e mecanismos centrais de gestão do estresse e do foco.

Mas existe um ponto crítico: no contexto complexo de uma organização isso não se resolve com técnicas genéricas ou intervenções isoladas. É preciso uma infraestrutura de autorregulação integrada à rotina organizacional e adaptável ao sistema de cada indivíduo.

A McKinsey estima que melhorar a saúde dos trabalhadores pode gerar até US$ 11,7 trilhões em valor econômico global por ano.

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Organizações mundiais já compreenderam que a regulação do sistema nervoso é a base da performance e estão integrando a respiração de forma estratégica.

A pergunta já não é mais se isso funciona. É quem vai estruturar isso primeiro – e quem vai continuar tentando resolver problemas do desempenho sem atuar no fundamento que o sustenta.


SOBRE O AUTOR

Mateus Dounis é biopsicólogo, fundador da Academia da Respiração e líder do programa corporativo BreathPlus. saiba mais