Teoria da conspiração 4.0: IA vira ferramenta para analisar o caso Epstein

Sempre que os americanos estão ávidos por respostas, plataformas como essas podem se disfarçar mais facilmente de ferramentas objetivas de análise de dados

Crédito: SvetaZi/ Getty Images

Matthew Hannah 5 minutos de leitura

A morte de Jeffrey Epstein em 10 de agosto de 2019 desencadeou uma enxurrada de teorias da conspiração, e a divulgação de sua suposta nota de suicídio em 6 de maio de 2026 é uma aposta certeira para servir de combustível para outras mais.

No entanto, a morte de Epstein é apenas uma faceta da história do criminoso sexual condenado que gera e sustenta teorias conspiratórias. O Departamento de Justiça dos EUA liberou mais de três milhões de documentos disponíveis publicamente relacionados às obscuras redes de tráfico sexual que cercavam Epstein. 

Jornalistas e pesquisadores estão trabalhando para dar sentido a esse enorme volume de dados, mas o processo é lento e a interface construída pelo Departamento de Justiça para os documentos é pouco prática.

Em resposta, algumas pessoas decidiram mergulhar no arquivo por conta própria. Eles estão utilizando IA para desenvolver plataformas que facilitam a navegação pelos arquivos e para criar novas avaliações de todas as informações. Mas essas ferramentas também estão ajudando teóricos da conspiração a moldar suas narrativas.

PLATAFORMAS DE CONSPIRAÇÃO DO TIPO “FAÇA VOCÊ MESMO”

Como os arquivos Epstein formam um conjunto de dados massivo e não estruturado (composto por PDFs, vídeos, fotografias e outros materiais), essas plataformas tornam mais fácil para as pessoas enxergarem conexões onde elas não existem. 

Algumas estão se passando por plataformas de pesquisa de IA neutras e baseadas em dados. Mas são, na verdade, projetadas por teóricos da conspiração para encorajar e amplificar o pensamento conspiratório, levando ao que chamo de "conspiracionismo de plataforma".

As teorias da conspiração sobre Epstein muitas vezes seguem uma falácia lógica clássica conhecida como post hoc ergo propter hoc (depois disso, logo, causado por isso), assumindo que, porque o evento A aconteceu antes do evento B, o evento A deve ter causado o evento B.

Por exemplo, em 2017, participantes do QAnon afirmaram que existia uma seita secreta de pedófilos satânicos traficando crianças. Logo, por essa lógica falha, as revelações subsequentes de Epstein seriam a "prova" de que o QAnon estava certo.

Alguns operadores de plataformas sobre Epstein estão suplementando seu raciocínio com ideias do QAnon e de outros movimentos conspiratórios online sobre canibalismo, satanismo ou os experimentos da CIA com controle mental nos anos 1950, conhecidos como MK Ultra.

Os conspiracionistas de plataforma encontram um público receptivo porque muita gentes nos EUA está preocupada com os vastos tentáculos dos afiliados de Epstein que alcançam o governo, o entretenimento, a academia e a indústria tecnológica. 

E, claro, muitas pessoas simplesmente querem saber quem está nos arquivos e por quê. A consequência não intencional (ou, em alguns casos, intencional) é que essas plataformas do tipo faça-você-mesmo incentivam a paranoia e o conspiracionismo.

Cada vez que o Departamento de Justiça libera (ou tenta não liberar) uma nova leva de documentos, o interesse geral é despertado. Influenciadores de redes sociais, por exemplo, compartilham imediatamente vídeos com suas próprias interpretações dos arquivos.

CONSPIRAÇÃO MASCARADA DE ANÁLISE DE DADOS

Uma plataforma, chamada WEBB, promete usar IA para "inteligência de documentos", o que supostamente ajudaria pesquisadores a explorar os arquivos Epstein, registros de voo, documentos judiciais e depoimentos.

Utilizando uma interface elegante com fios vermelhos animando a tela conforme o usuário move o mouse, a WEBB automatiza as tarefas confusas de limpeza de dados necessárias ao lidar com informações não estruturadas.

O site afirma que a WEBB converte, registra opticamente e indexa o conteúdo dos arquivos de modo automático, transformando os documentos em "inteligência estruturada e pesquisável".

Batizada em homenagem a Gary Webb, jornalista investigativo que relatou uma suposta operação de tráfico de drogas da CIA, a WEBB convida os usuários a se imaginarem como pesquisadores obstinados de inteligência de fontes abertas. 

A plataforma se apresenta como um recurso objetivo e transparente. No entanto, mesmo na etapa inicial necessária de limpeza de dados, os pesquisadores tomam decisões que podem direcionar os resultados.

Um dos criadores da WEBB é o suposto influenciador de conspirações antissemitas Ian Carroll, que já apareceu no Infowars, de Alex Jones, e em outros programas de extrema-direita.

Carroll defende teorias sobre cabalas judaicas, o ataque de 11 de setembro, Epstein e o Pizzagate (a teoria de que o tráfico sexual infantil estaria ocorrendo na pizzaria Comet Ping Pong, em Washington).

Carroll, ou alguém de sua equipe, interage com pessoas que mineram os arquivos Epstein por meio da interface WEBB, compartilhando suas interpretações com seus 1,4 milhão de seguidores. Ele também posta vídeos explicativos exibindo sua própria pesquisa de teorias da conspiração com a ferramenta.

Outras plataformas, como Epstein Exposed e Epstein File Search, oferecem serviços semelhantes para "fazer sua própria pesquisa". Embora sejam menos abertamente conspiratórias, tais plataformas usam postagens em redes sociais para incentivar a pesquisa conspiratória em seus domínios.

UMA REDE EM EXPANSÃO

A WEBB também promete começar a adicionar conjuntos de dados à sua plataforma de IA relacionados a outras teorias da conspiração, como as sobre os ataques de 11 de setembro e OVNIs. Os "arquivos" adicionados incluem até livros da Bíblia que teriam sido removidos.

A equipe da WEBB afirmou que sua ferramenta de IA não terá alucinações (criar conteúdo falso ou sem sentido) porque é treinada apenas nos dados dos arquivos, embora grandes modelos de linguagem (LLMs) rotineiramente alucinem por serem movidos por probabilidades. 

Não está claro como a WEBB evitará alucinações ao misturar arquivos de Epstein, relatórios sobre JFK, documentos do 11 de setembro e o Livro de Enoque. 

Carroll está agora promovendo um produto chamado WEBB Enterprise, que presumivelmente incluirá mais acesso e ferramentas mediante pagamento.

CONSPIRAÇÃO DE DADOS

Sempre que os americanos estão famintos por respostas, plataformas como essas podem mais facilmente se mascarar como ferramentas objetivas de análise de dados. 

Elas alimentam uma "conspiração de dados", na qual informações falsas ou enganosas são apresentadas em gráficos e diagramas que criam uma impressão de precisão e autoridade.

A análise de dados legítima é complicada, confusa e desafiadora; as melhores práticas exigem que as ferramentas enfatizem a transparência e o contexto. 

Por exemplo, jornalistas do The New York Times usam IA para suplementar seu trabalho, mas reconhecem a imprecisão potencial dessas ferramentas e a necessidade de especialistas e jornalistas para validar o trabalho.

À medida que plataformas como a WEBB adicionam seus próprios conjuntos de dados, o combustível para a fantasia paranoica das teorias da conspiração online só aumenta.


SOBRE O AUTOR

Matthew N. Hannah é professor associado de retórica, política e cultura na Universidade de Wisconsin-Madison. saiba mais