A IA já está consumindo energia demais para caber na Terra?

Especialistas dizem que os data centers espaciais da SpaceX podem virar um desastre ambiental

consumo de energia dos data centers de inteligência artificial
Créditos: Kwarkot/ Getty Images/ Telescópio Espacial Hubble/ NASA/ Peter Olexa/ Unsplash

Adele Peters 4 minutos de leitura

Quando a SpaceX apresentou neste ano um pedido à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) propondo lançar um milhão de data centers via satélite em órbita, a empresa afirmou que o projeto não teria impacto ambiental relevante.

No site da SpaceX, Elon Musk resumiu o argumento de forma mais direta: “No espaço, o Sol brilha o tempo todo”, escreveu, defendendo que data centers orbitais seriam “obviamente a única forma de escalar” a infraestrutura de IA.

Mas pesquisadores afirmam que a equação climática é muito mais complexa.

Em teoria, data centers espaciais poderiam operar continuamente com energia solar. O problema é que os impactos vão muito além do consumo de eletricidade. “As consequências sociais e ambientais são muito maiores do que aquilo que estamos observando nas alternativas terrestres”, afirma Peter Howson, pesquisador da Universidade de Northumbria e autor de um estudo recente sobre os riscos e desafios da infraestrutura computacional baseada no espaço.

O primeiro problema é o lançamento dos foguetes. Um único lançamento da nave Starship, da SpaceX, consome cerca de um quiloton de metano líquido e pode gerar tanta poluição climática quanto uma pequena cidade produz em um ano.

Além disso, a fuligem negra emitida pelos foguetes permanece por muito mais tempo na alta atmosfera e pode provocar um efeito de aquecimento global significativamente maior do que a mesma poluição liberada ao nível do solo.

“A fuligem que sai do escapamento de um carro normalmente permanece poucas semanas na baixa atmosfera”, explica Howson. “Mas, quando ela é lançada na alta atmosfera, pode permanecer ali durante anos.”

As emissões de vapor d’água também funcionam como um potente gás de efeito estufa. Cada lançamento utiliza ainda cerca de 2 milhões de litros de água para proteger as plataformas de lançamento, um processo que pode espalhar resíduos tóxicos pelos ecossistemas locais.

No Texas, a Comissão de Qualidade Ambiental do estado e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) já apontaram que a SpaceX violou repetidamente a Lei da Água Limpa.

E há outro fator: foguetes falham.

Em 2023, o primeiro voo de teste da Starship perdeu o controle e foi destruído poucos minutos após a decolagem. Os destroços se espalharam pelo Parque Estadual Boca Chica, habitat de espécies ameaçadas, e provocaram incêndios. Desde então, cinco Starships explodiram durante suas trajetórias.

Os equipamentos usados nos lançamentos e nos satélites também dependem de substâncias tóxicas, incluindo propelentes à base de hidrazina, solda com chumbo e amônia usada em sistemas de controle térmico. Acidentes ou “desmontagens rápidas não programadas” — expressão frequentemente usada pela SpaceX para explosões — podem liberar materiais perigosos.

Em alguns casos, esses resíduos nem sequer permanecem em órbita: podem reentrar na atmosfera e cair novamente sobre a Terra.

Mesmo quando tudo funciona como planejado, os equipamentos espaciais têm vida útil limitada e acabam gerando lixo eletrônico. Segundo Howson, os impactos ambientais da chamada “ablação de satélites” — o processo de queima durante a reentrada atmosférica — ainda são pouco compreendidos.

No estudo publicado na revista Energy Research & Social Science, o pesquisador afirma que os materiais e gases liberados nesse processo provavelmente contribuem para a destruição da camada de ozônio e podem afetar a capacidade do planeta de regular a radiação solar.

O espaço já está lotado de satélites — e o número cresce rapidamente à medida que empresas de tecnologia expandem redes de internet orbital, sistemas meteorológicos privados e outros serviços.

Hoje, a rede Starlink, da SpaceX, possui cerca de 10 mil satélites. Já a startup Starcloud, que desenvolve data centers orbitais e levantou US$ 170 milhões em uma rodada Série A em março, pretende operar 88 mil unidades. A SpaceX, por sua vez, fala em até 1 milhão de data centers orbitais.

Outras gigantes também trabalham em tecnologias semelhantes. A Google pretende colocar em órbita seu “Project Suncatcher” até 2027 e estaria negociando novos lançamentos com a SpaceX. A Blue Origin, de Jeff Bezos, também investe na área.

Com cada vez mais satélites — especialmente modelos baratos e mais propensos a falhas — aumenta o risco de uma colisão desencadear a chamada Síndrome de Kessler: uma reação em cadeia de acidentes que criaria um enorme campo de detritos espaciais capaz de inviabilizar o uso de determinadas órbitas.

Os data centers espaciais continuam sendo uma ideia não comprovada, cercada de desafios técnicos e dúvidas sobre viabilidade econômica. Ainda assim, sua promessa está acelerando uma indústria que já provoca impactos concretos no mundo real.

Na Indonésia, por exemplo, o governo pretende permitir que a SpaceX construa um espaçoporto na ilha de Biak, em Papua, onde dezenas de indígenas morreram após protestos contra o projeto. No Texas, a tribo Carrizo-Comecrudo afirma que a base Starbase foi erguida em um local sagrado. Já no norte da Suécia, pastores do povo Sami precisam desviar de peças de foguetes que caem nas áreas de criação de renas.

Mesmo que saiam do papel, os data centers orbitais dificilmente substituirão os enormes centros de processamento movidos a combustíveis fósseis que continuam sendo construídos na Terra.

Para Howson, as empresas estão apostando nesse conceito porque precisam convencer investidores de que conseguirão suprir a demanda energética necessária para manter o crescimento explosivo da inteligência artificial.

“Eles estão fazendo isso, acredito, apenas para manter o entusiasmo dos investidores”, diz. “O custo é dez vezes maior quando se coloca tudo no espaço. Então, economicamente, não faz muito sentido. E certamente não faz nenhum sentido ambiental.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais