A “Wikipedia feita por IA” está virando um pesadelo digital

O site usa apenas “alucinações” de IA para gerar enciclopédia fictícia em tempo real

IA
O site transforma erros de IA em uma enciclopédia inteira fictícia. Foto: Unsplash

Lilian Campos 3 minutos de leitura

Um novo site inspirado na Wikipédia chamou a atenção na internet por um motivo incomum: todo o conteúdo publicado nele é inventado por inteligência artificial.

Batizada de “Halupedia”, a plataforma funciona como uma enciclopédia feita inteiramente de “alucinações” de IA. 

Esse termo é usado quando os modelos generativos criam informações falsas, inexistentes ou distorcidas, que são apresentadas como se fossem reais. 

Os visitantes podem apertar o botão “Stumble” para acessar um artigo aleatório ou inserir seus próprios termos de busca. Se for a primeira vez que um termo aparece no site, a IA gera uma lista de possíveis entradas coerentes com a “mitologia” já estabelecida pela plataforma, sempre em um estilo pseudo-histórico.

Uma busca por “Fast Company”, por exemplo, sugere artigos com títulos como “A Sociedade da Leitura Apressada”, “O Pânico da Procrastinação de 1903” e “Um Estudo da Preguiça na Burocracia Otomana”.

Cada verbete também é recheado de hiperlinks para outras páginas igualmente alucinadas e absurdas. O resultado é um buraco de coelho infinito de artigos interconectados, cada um mais bizarro do que o anterior.

Segundo o Futurism, cada busca ou clique em um link gera automaticamente um novo artigo fictício criado por IA em tempo real. 

A própria plataforma se define como uma “enciclopédia que abrange todos os tópicos”, em que cada link gera automaticamente um novo verbete criado por IA no estilo de uma publicação acadêmica do século 19. 

O resultado é uma espécie de Wikipédia paralela, repleta de eventos históricos inventados, personagens inexistentes, instituições falsas e referências acadêmicas totalmente fabricadas.

COMO FUNCIONA A “WIKIPÉDIA FALSA”

Toda página é produzida “sob demanda” por um modelo de linguagem.

Isso significa que os artigos não existem previamente: eles são gerados apenas quando alguém pesquisa um tema ou clica em um hiperlink dentro da plataforma.

Entre os exemplos, está um texto sobre um suposto “Grande Censo dos Pombos de 1887”, conduzido por uma instituição fictícia chamada “Royal Society for Avian Enumeration”. 

O projeto também cria falsas notas de rodapé, citações acadêmicas e conexões internas entre artigos para deixar a experiência mais parecida com uma enciclopédia real.

ALUCINAÇÕES PREOCUPAM ESPECIALISTAS EM IA

O fenômeno das chamadas “alucinações” é um dos principais desafios atuais da inteligência artificial generativa.

O termo descreve situações em que os modelos de IA produzem respostas falsas com aparência de uma informação verdadeira. 

Nos últimos anos, casos envolvendo citações jurídicas inventadas, referências acadêmicas inexistentes e erros factuais gerados por IA passaram a preocupar universidades, tribunais e plataformas digitais.

A própria Wikipédia endureceu recentemente regras sobre conteúdo criado por inteligência artificial.

Segundo o The Guardian, editores da Wikipédia decidiram proibir o uso de IA para escrever ou reescrever artigos após problemas recorrentes envolvendo erros, informações falsas e dificuldade de verificação.

WIKIPÉDIA ORIGINAL SURGIU ANTES DA ERA DAS REDES SOCIAIS

Criada em 2001 por Jimmy Wales e Larry Sanger, a Wikipédia se tornou uma das maiores plataformas colaborativas do mundo, baseada em edições feitas por voluntários e em políticas rígidas de verificação de informações. 

Ao contrário da Halupedia, a Wikipédia tradicional exige fontes confiáveis para validar os conteúdos publicados e mantém uma comunidade global responsável por revisar, corrigir e monitorar artigos diariamente.

Segundo a Fundação Wikimedia, a enciclopédia hoje reúne milhões de verbetes em centenas de idiomas diferentes e está entre os sites mais acessados do planeta.

O avanço de conteúdos produzidos por inteligência artificial passou a gerar preocupação dentro da plataforma, especialmente pelo risco de informações falsas serem inseridas em artigos reais sem uma verificação adequada.


SOBRE A AUTORA

Lilian Campos é jornalista colaboradora da Fast Company Brasil. saiba mais