O Efeito Netflix

Relatório da Netflix mostra por que o entretenimento virou pauta estratégica para governos, fundos de investimento, marcas e big techs

A Netflix deixou de ser só uma plataforma de streaming
Créditos: Cottonbro Studio/ Pexels/ Etienne Girardet/ Unsplash

Gustavo Giglio 2 minutos de leitura

A Netflix deixou de ser “só” uma plataforma de streaming faz tempo.

O novo e belíssimo relatório “O Efeito Netflix” talvez seja a prova mais clara disso. Os US$ 325 bilhões de impacto econômico global divulgados pela empresa falam sobre infraestrutura cultural, exportação de narrativas, turismo, cadeia produtiva, formação de mão de obra e, principalmente, influência geopolítica através de histórias. Ah, e também sobre entretenimento e conteúdo. 

Durante muito tempo, Hollywood operou como o grande centro irradiador da cultura pop global. O mundo consumia narrativas americanas enquanto os conteúdos locais sobreviviam em nichos regionais.

A Netflix ajudou a inverter essa lógica. E talvez esse seja o movimento mais relevante da indústria do entretenimento na última década.

Quando uma série coreana impulsiona o aprendizado do idioma em outro continente, quando uma produção colombiana movimenta hotéis, artesãos e cidades inteiras, ou quando uma obra brasileira como "Senna" envolve milhares de profissionais de dezenas de nacionalidades, o que está sendo criado é todo um ecossistema que funciona muito bem, não é apenas conteúdo. 

Gabriel Leone interpreta Ayrton Senna em minissérie da Netflix
Gabriel Leone interpreta Ayrton Senna em minissérie da Netflix (Crédito: Netflix)

Os números do relatório impressionam porque ajudam a tangibilizar algo que, muitas vezes, parecia abstrato. "Stranger Things" movimentando US$ 1,4 bilhão no PIB dos EUA. "Bridgerton" transformando cidades inglesas em destinos turísticos temáticos. "Lupin" irrigando centenas de fornecedores franceses. "Alice in Borderland" mobilizando meses de construção cenográfica no Japão.

Tudo isso reforça uma percepção importante: entretenimento deixou de ser “despesa de marketing cultural” para se consolidar como ativo econômico estratégico. E há uma camada ainda mais interessante nessa história.

A Netflix percebeu, antes de quase todo mundo, que fandom é uma das moedas mais poderosas do século 21. E fandom nasce de identificação cultural.

Por décadas, a indústria tratou conteúdos não norte-americanos como produtos “alternativos”. Hoje, mais de um terço de tudo que se assiste na plataforma não é em inglês. Setenta por cento dos assinantes assistiram produções de outros países. O público deixou de buscar apenas proximidade geográfica. Agora busca conexão emocional, estética e narrativa.

No fim das contas estamos falando de relevância cultural global.

E é justamente por isso que esse relatório chega em um timing tão simbólico. O streaming vive pressão regulatória em diversos países. Discussões sobre taxação, cotas locais e impacto nas indústrias nacionais estão crescendo.

cena do seriado "Bridgenrton", da Netflix
"Bridgerton" (Crédito: Netflix)

O relatório funciona quase como uma carta política sofisticada da Netflix para o mercado: “antes de discutir regulação, observem o tamanho do valor econômico e cultural que estamos gerando”.

Claro, existe comunicação corporativa aí. Existe narrativa institucional. Mas também existem fatos difíceis de ignorar. A Netflix se transformou na maior distribuidora de cultura não norte-americana do planeta. Talvez o maior hub de soft power cultural já criado fora do modelo tradicional de Hollywood.

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Isso ajuda a explicar por que o entretenimento virou pauta estratégica para governos, fundos de investimento, marcas e big techs. Cultura pop nunca foi só entretenimento. É influência. É turismo. É comportamento. É branding nacional. É economia criativa em escala industrial.

É a Netflix vendendo a ideia de que histórias, hoje, são uma infraestrutura global de poder.


SOBRE O AUTOR

Gustavo Giglio é publicitário, consultor e mentor. Fundador da Giglio Consultoria e Conteúdo e do Coffee Hunter. Tem passagens pela Tr... saiba mais