Startups fazem IA entrar na era dos “Jogos Vorazes”
Startup aposta em ferramentas mais abertas e experimentais para designers frustrados com modelos tradicionais

Modelos personalizados de inteligência artificial já não são exclusividade das gigantes do setor. A startup Krea, com apenas 37 funcionários, lançou seu primeiro modelo generativo próprio enquanto se reposiciona como um laboratório completo de pesquisa em IA.
O modelo, chamado Krea 2 (ou simplesmente K2) representa um movimento importante para a empresa, mas também antecipa um momento aparentemente inevitável no mercado de IA: o surgimento de apostas mais ousadas vindas de empresas menores.
Para o cofundador da Krea Diego Rodriguez, é estimulante ser pequeno, ágil e tão bem-sucedido quanto qualquer empresa de modelos de fronteira em termos de negócio principal.
“Até existir um vencedor – até a OpenAI ou qualquer outra se tornar lucrativa – os jogos continuam”, diz ele, com um sorriso malicioso.
A Krea surgiu em 2023 com a ambição de se tornar algo como a Adobe da era da IA: uma plataforma criativa construída do zero não apenas para gerar mídia com inteligência artificial, mas para permitir ajustes detalhados dos resultados, com controles que lembram mais um sintetizador musical do que uma mesa de desenho.
A empresa foi a primeira a oferecer ferramentas de edição em IA em tempo real e também a primeira a integrar APIs de outros modelos de IA dentro do próprio aplicativo, prática que hoje virou padrão no setor.
Rapidamente, ela se tornou lucrativa. Mas, com o tempo, a equipe percebeu um limite claro em sua proposta: a Krea só poderia ser tão aberta quanto os modelos sobre os quais ela operava.
LIMITES DOS MODELOS DE GERAÇÃO DE IMAGENS
Os modelos de geração de imagem atuais são impressionantes quando se trata de prompts específicos, que frequentemente viralizam. Mas também podem transmitir a sensação de que funcionam sobre trilhos.
Formulações criativas ainda acabam levando aos mesmos caminhos previsíveis, porque os modelos falham em reproduzir exatamente aquilo que o usuário imaginou.
Os sistemas atuais são excelentes naquilo que as grandes empresas vêm priorizando: fotorrealismo. Mas qualquer designer sabe que, quando o assunto é design gráfico e ilustração, os limites aparecem mais rápido do que parece.
Em uma demonstração, a Krea compara o prompt “um gato andando de bicicleta” entre seu modelo e o Nano Banana, do Google. No caso da Krea, os resultados iniciais são variados e excêntricos, alguns com aparência desenhada à mão.
Já no modelo do Google, independentemente dos ajustes no prompt, surgem imagens muito semelhantes entre si, com estética parecida à de livros de colorir. Segundo a empresa, é a diferença entre comer em uma rede de fast food ou em uma hamburgueria premiada pelo Guia Michelin.
A INTERFACE COMO DIFERENCIAL
O K2 parece impressionante por si só. Mas o que realmente chama atenção é a forma como a Krea permite utilizá-lo. No básico, a empresa promete que apenas descrever o que você deseja já gera resultados melhores do que os concorrentes. Mas é a interface da plataforma que permite mergulhar profundamente nos ajustes.
Usuários podem arrastar uma ou várias imagens para dentro do campo de prompt, usando-as como referência de estilo. Depois, é possível ajustar um controle deslizante para indicar o quanto cada imagem deve influenciar o resultado visual. Também é possível montar mood boards inteiros para orientar a estética desejada.
Como o sistema é voltado a criativos, a Krea também tenta lidar com propriedade intelectual de forma cuidadosa. Ao treinar um modelo personalizado dentro da plataforma, o usuário pode impedir que esse material seja incorporado ao treinamento geral da Krea. E toda a propriedade intelectual gerada pertence ao usuário.
No longo prazo, a empresa avalia maneiras de dar crédito a artistas cujas obras influenciem, de modo mensurável, determinada mídia criada por IA. A startup também experimenta o uso de IA para identificar essas influências e criar um sistema mais sustentável de royalties.
UMA PEQUENA EMPRESA COM GRANDES AMBIÇÕES
Rodriguez admite estranhar o fato de que, em um setor dominado por empresas como OpenAI, Anthropic e Google, companhias menores não estejam se unindo para desenvolver ideias maiores e dividir ganhos.
Inicialmente, a Krea tentou firmar parceria com uma empresa de modelos que se recusou a oferecer até mesmo uma pequena participação em receita. Isso levou a startup a desenvolver toda a tecnologia internamente. Mas as ambições da empresa claramente cresceram.
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Perez afirma que o K2, lançado agora, é uma aposta “conservadora”. O cluster de GPUs utilizado pela Krea durante um ano – período em que treinará o K2 e mais dois futuros modelos – custará US$ 20 milhões. A startup não podia se dar ao luxo de fracassar com uma abordagem experimental que talvez não funcionasse.
Agora, porém, depois do primeiro sucesso, a empresa afirma se sentir mais confiante para assumir riscos maiores e desafiar os padrões tradicionais de treinamento de IA.



