Geração Z teme perder habilidades por causa da IA

Pesquisa mostra que trabalhadores ganham produtividade, mas perdem confiança e habilidades ao depender cada vez mais da inteligência artificial

Geração Z teme perder habilidades por causa da IA
Créditos: 4zevar/ Adobe Stock/ Christian Velitchkov/ Unsplash

Dan Schawbel 5 minutos de leitura

A IA está economizando mais de duas horas por dia dos trabalhadores. Isso parece uma grande vitória – e, em muitos aspectos, realmente é. Mas, por trás das manchetes sobre produtividade, algo mais complexo está acontecendo.

Os funcionários estão ficando mais rápidos, mas alguns também estão se tornando menos confiantes, menos qualificados e menos seguros de que conseguem fazer seu trabalho sem uma máquina pensando por eles.

Essa tensão é o grande desafio do mercado de trabalho em 2026, e a maioria das empresas ainda não está preparada para enfrentá-lo.

Uma nova pesquisa da GoTo, realizada em parceria com a Workplace Intelligence, entrevistou 2,5 mil funcionários e líderes de TI em vários países sobre o uso e a percepção da IA. Os resultados revelam uma força de trabalho dividida entre as ferramentas que ajudam e os hábitos que essas ferramentas estão criando.

Hoje, 50% dos funcionários dizem depender demais da IA, sendo que 30% afirmam que já não conseguem trabalhar sem ela. Entre os entrevistados, 39% acreditam que a dependência excessiva da tecnologia está corroendo suas habilidades e os tornando menos inteligentes. Esse índice sobe para 46% entre trabalhadores da geração Z.

Essas não são opiniões isoladas. Elas refletem um consenso silencioso de uma força de trabalho que adotou a IA rapidamente e agora começa a lidar com as consequências.

PRESSÃO PARA USAR IA AVANÇA MAIS RÁPIDO QUE AS REGRAS

Uma das principais descobertas da pesquisa é o quanto a pressão externa está moldando o comportamento relacionado à IA no ambiente de trabalho.

Seis em cada 10 funcionários dizem sentir pressão para usar ferramentas de IA com o objetivo de aumentar a produtividade, independentemente de a tarefa realmente exigir isso. Sem treinamento adequado e políticas claras, essa pressão cria um cenário propício para o uso inadequado da tecnologia.

Os números confirmam isso: 70% admitem já ter usado IA em tarefas sensíveis ou de alto risco (contra 54% há apenas um ano), incluindo trabalho jurídico ou de compliance, decisões que exigem inteligência emocional e atividades envolvendo informações confidenciais.

Essas são justamente as áreas em que o julgamento humano continua sendo mais insubstituível e onde os erros da IA têm o maior custo. O fato de esse número ter saltado 16 pontos percentuais em apenas um ano sugere que o problema não vai desacelerar sozinho.

A situação é agravada pelo “trabalho ruim feito por IA”, que começa a sobrecarregar toda a força de trabalho. Nada menos que 43% dos entrevistados afirmam já ter enviado conteúdos gerados por IA mesmo suspeitando que fossem de baixa qualidade ou contivessem erros.

Não surpreende, portanto, que 77% digam que revisar trabalhos gerados por IA leva mais tempo do que revisar trabalhos feitos por humanos. Para 66%, ter de filtrar a produção de IA de outras pessoas gera trabalho extra.

Os funcionários não estão usando IA de maneira inadequada por preguiça ou má-fé, e sim porque receberam ferramentas poderosas sem o contexto e o preparo necessários para utilizá-las corretamente. E também porque foram incentivados, de forma explícita ou implícita, a entregar resultados.

Quando organizações recompensam apenas o volume de produção sem questionar como ela foi gerada, acabam recebendo exatamente o comportamento que incentivaram.

O QUE AS EMPRESAS QUE ACERTARAM VÃO FAZER DE DIFERENTE

A mesma pesquisa que expõe esses problemas também aponta soluções que não exigem avanços tecnológicos revolucionários. Exigem comprometimento da organização.

A primeira prioridade é criar políticas de IA que realmente funcionem. Isso significa regras que os funcionários entendam, considerem relevantes para o trabalho cotidiano e se sintam preparados para seguir – e não documentos de compliance esquecidos em uma página da intranet.

Considerando que 65% dizem que seus empregadores não os prepararam adequadamente para um ambiente em que a IA assume mais tarefas, isso precisa vir acompanhado de investimento em treinamento, incluindo orientações específicas por função sobre onde a IA agrega valor e onde ela não deveria ser usada.

A segunda prioridade é investir em habilidades humanas. Os próprios trabalhadores identificaram quais capacidades consideram mais importantes em um ambiente dominado pela IA: pensamento criativo, inteligência emocional, bom senso e a habilidade de saber quando confiar nos resultados da IA e quando ignorá-los.

Essas não são “soft skills” no sentido pejorativo do termo. São competências difíceis de automatizar e que determinam se a IA vai ampliar o potencial da força de trabalho ou esvaziá-lo silenciosamente. Também são a base de uma colaboração eficiente entre humanos e máquinas.

As empresas que treinarem funcionários para atuar nesse modelo de parceria, em vez de apenas distribuir ferramentas e cobrar resultados, estarão mais preparadas quando chegar a próxima onda de capacidades da IA.

A terceira prioridade é cultural: líderes precisam dar o exemplo do que significa usar IA de forma responsável, e não apenas impor regras. Funcionários que veem seus gestores usando IA com critério – sabendo quando confiar nela, quando questionar suas respostas e quando deixá-la de lado – têm mais chances de desenvolver o mesmo discernimento.

A esmagadora maioria (88%) afirma que a IA trouxe benefícios para sua vida profissional. Esse número deveria dar confiança aos líderes de que a tecnologia está funcionando. Mas a mesma pesquisa deixa claro que ganhos de produtividade, sozinhos, não constituem uma estratégia.

As empresas que vão se dar bem na próxima década não serão necessariamente as que pressionaram mais pela adoção da IA. Serão aquelas que construíram a disciplina organizacional para usá-la com sabedoria, mantendo suas equipes capacitadas, confiantes e dignas de confiança no processo.


SOBRE O AUTOR

Dan Schawbel é autor de livros que figuraram na lista de mais vendidos do "The New York Times", especialista em futuro do trabalho, pa... saiba mais