5 formas como Steve Jobs quase destruiu a Apple
O fundador da Apple precisou de 12 anos, muitos erros e uma quase falência para aprender a liderar

Depois de perder uma disputa de poder na diretoria para o CEO da Apple, John Sculley, Steve Jobs foi exilado para um pequeno prédio do outro lado da rua da sede da empresa. Era maio de 1985. Ele e seus colegas chamavam o novo escritório de “Sibéria”.
Relatórios corporativos deixaram de chegar à sua mesa e executivos pararam de ligar, deixando-o entediado e isolado. “Foi impressionante ver como ele foi ostracizado no Vale”, lembrou Susan Barnes, controladora financeira do Macintosh que anteriormente respondia a ele. “Foi realmente cruel.”
Jobs é lembrado como o visionário que, em 1997, voltou à empresa que ajudou a fundar e a salvou da quase falência. Mas, antes desse retorno triunfal, tomou uma série de decisões que desestabilizaram a companhia e a deixaram à deriva rumo ao colapso.
Existe uma verdade pouco lembrada: os mesmos instintos que tornavam Jobs extraordinário – seu perfeccionismo, sua força de vontade e sua recusa em fazer concessões – quase destruíram a Apple nos primeiros anos.
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Depois de sair da empresa, Jobs passou 12 anos fracassando em uma companhia chamada NeXT. E foram justamente esses fracassos que lançaram as bases para o ressurgimento da Apple com o iPod, o iPhone e o iPad.
Aqui estão cinco vezes em que Steve Jobs errou e aprendeu com seus erros:
1. ELE SE COLOCOU NO CENTRO DE TODAS AS DECISÕES
No início de 1985, a Apple havia se fragmentado em facções rivais. Jobs boicotava Sculley diante dos colegas e contestava todas as suas decisões. “Eu sou o conselho”, dizia Jobs, então presidente do conselho da Apple, a um executivo.
Os apoiadores de Sculley chegaram a invadir o departamento de recursos humanos para reclamar. Como observou um executivo, ninguém sabia quem realmente comandava a empresa.
A guerra civil interna paralisou a Apple no pior momento possível. As vendas do Macintosh caíam, a IBM e seus clones ganhavam mercado e, pela primeira vez na história, a empresa demitiu funcionários (mais de 1,2 mil pessoas), além de anunciar seu primeiro prejuízo trimestral.
Quando o conselho finalmente ficou do lado de Sculley e retirou a autoridade de Jobs, o conflito interno já havia custado meses de progresso à empresa.

Jobs saiu da Apple e fundou uma nova empresa de computadores, a NeXT. O padrão de liderança o acompanhou: ignorando alertas dos cofundadores, lançou às pressas o primeiro computador da NeXT (chamado Cubo), em outubro de 1988, com um sistema operacional imcompleto.
O preço era mais que o dobro do que o público alvo dizia estar disposto a pagar. Vendendo apenas algumas dezenas de computadores por mês, a empresa acabou demitindo metade dos funcionários e abandonou completamente o hardware.
Quando o fundador se torna a única voz na sala, a empresa não tem para onde correr quando essa voz está errada.
2. ELE CRIOU PRODUTOS PARA O PRÓPRIO GOSTO, NÃO PARA O MERCADO
Entre o comercial do Super Bowl, a famosa apresentação e a promessa de um “computador para o resto de nós”, o lançamento do Macintosh, em janeiro de 1984, virou um dos eventos mais mitificados da história empresarial dos EUA.
Nos primeiros 100 dias, as vendas foram fortes e o Mac parecia destinado ao sucesso. Mas a máquina não tinha disco rígido, tinha funcionalidades extremamente limitadas e custava US$ 2.495 (quase US$ 8 mil em valores atuais).

A primeira onda de clientes adorou. Com esse preço, não houve segunda onda. O Mac era uma máquina linda cuja compra os consumidores comuns não conseguiam justificar.
O fracasso comercial ajudou a desencadear a disputa de poder com Sculley, a demissão de Jobs e os 12 anos de deriva estratégica que quase mataram a Apple.
3. ELE LANÇAVA PRODUTOS ANTES DE ESTAREM PRONTOS E CULPAVA A EQUIPE QUANDO DAVA ERRADO
No começo de 1985, Jobs pressionou a Apple a lançar o Macintosh Office, uma versão do Mac voltada para empresas. Seu coração tecnológico – um dispositivo para compartilhamento de arquivos entre computadores de escritório – sofreu atrasos e não estava pronto.
O produto chegou ao mercado com vendas fracas, acelerando a crise interna que culminaria na saída de Jobs poucos meses depois.
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Na NeXT, ele repetiu o padrão. Depois do lançamento do Cubo, o cofundador Dan’l Lewin apresentou uma lista de problemas. Em vez de resolvê-los, Jobs culpou o time de vendas.
“Estamos muito longe de vender qualquer coisa para qualquer pessoa neste momento”, rebateu Lewin. “Você não quer ouvir isso, mas este não é um problema de vendas.”
Jobs então rebaixou Lewin e anunciou a decisão por e-mail para toda a empresa.
4. ELE NÃO CONSEGUIA ABANDONAR O QUE NÃO FUNCIONAVA
Quando Gil Amelio assumiu o cargo de CEO da Apple, em 1996, escutava constantemente a mesma frase dos engenheiros: “Steve Jobs pode fazer o que quiser, então eu também vou fazer o que quiser.”
Naquele momento, a Apple havia perdido completamente o foco. A empresa lançou mais de 70 produtos em um ano, incluindo um laptop de US$ 6,5 mil que pegava fogo e precisou ser recolhido.

A Apple também gastou US$ 500 milhões em um novo sistema operacional chamado Copland, que jamais foi lançado. Ninguém conseguia decidir quando era hora de parar e cortar perdas.
Jobs passou uma década na NeXT cometendo o mesmo erro, recusando-se a abandonar o negócio de hardware muito depois de seus conselheiros dizerem que ele estava morto. Mas, quando voltou à Apple em 1997, cortou 70% do portfólio de produtos.
O visionário que antes não conseguia abrir mão do elegante Cubo preto aprendeu, a um custo enorme, que sobreviver às vezes significa abandonar justamente o produto que você ama.
5. ELE TRATAVA AS PESSOAS DE QUEM PRECISAVA COMO OBSTÁCULOS
No domingo do Super Bowl, em janeiro de 1985, a Apple exibiu uma sequência do icônico comercial “1984”. Chamado “Lemmings”, o anúncio mostrava executivos vendados marchando rumo a um penhasco. A mensagem para clientes corporativos era clara: vocês são idiotas se não comprarem nosso produto.
Na NeXT, Jobs chamou as lojas de um parceiro de distribuição de “feias”. Também ignorou reuniões lucrativas organizadas por seu maior investidor, Ross Perot, o bilionário texano que acabaria concorrendo à presidência dos Estados Unidos.
Perot decidiu ensinar a lição pessoalmente. Durante um jantar com executivos da NeXT e clientes corporativos, pediu que todos os clientes se levantassem.

Depois virou-se para quem continuava sentado – Jobs incluído: “agora, todos vocês que continuam sentados, aplaudam essas pessoas que estão de pé, porque é por causa delas que estamos aqui.”
Foram necessários 12 anos de humilhações para Jobs absorver essas lições. Em 1997, ele havia aprendido a recuar, delegar e desapegar. Passou a escolher suas batalhas, em vez de lutar todas.
Os acessos de raiva que definiam seu estilo de gestão diminuíram. Em vez disso, passou a ouvir seus subordinados nas reuniões de segunda-feira de manhã, seguir seus conselhos e construir uma equipe executiva na Apple que permaneceu unida por oito anos.
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“Às vezes, eu busco o ‘melhor’ quando deveria buscar o ‘melhor possível’ e acabo não chegando a lugar nenhum – ou até andando para trás”, admitiu mais tarde.
Era o tipo de confissão que o Steve mais jovem jamais teria feito.