Todo mundo quer transparência – até precisar assumir responsabilidade

A discussão sobre Geração Z no trabalho revela um problema maior: empresas estão confundindo colaboração, transparência e accountability.

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Jeff Leblanc 5 minutos de leitura

A Geração Z mudou as expectativas em relação ao trabalho. Ao valorizar transparência, autenticidade e lideranças guiadas por propósito, ela pressionou empresas e gestores a elevarem seus padrões. Em muitos sentidos, essas demandas deveriam ter sido prioridade desde sempre. O problema é que o trabalho nem sempre foi construído dessa forma.

Com o retorno aos escritórios e a criação de novas dinâmicas profissionais, valores antes tratados como diferenciais deixaram de ser opcionais. Viraram expectativa básica. E o que acontece quando essas expectativas deixam de ser cumpridas por qualquer pessoa?

Leia mais: Por que a transparência virou a moeda mais valiosa da boa liderança

À medida que o trabalho assíncrono dá lugar a uma cultura de performance constante e imediata, uma verdade desconfortável começa a surgir: a mesma geração que cobra mais transparência e responsabilidade das empresas também demonstra dificuldade em assumir responsabilidades quando chega sua vez de agir.

A nova lacuna da responsabilidade

Existe um padrão silencioso surgindo na rotina das empresas. Uma desconexão crescente que começa a ficar difícil de ignorar: a responsabilidade está se tornando cada vez menos consistente.

Pesquisas recentes mostram que compromisso, verificação e acompanhamento nem sempre acontecem de forma sólida. Quando tudo funciona, o alinhamento parece claro. Só que, fora das estruturas formais de reporte, fica mais difícil entender como o trabalho está sendo comunicado, como as responsabilidades estão sendo divididas e como as pessoas reagem quando os resultados ficam abaixo do esperado.

Parte do problema está no fato de que o ambiente de trabalho moderno valoriza excessivamente a visibilidade. Funcionários precisam atualizar status constantemente, demonstrar progresso e manter presença contínua nas plataformas digitais. O trabalho colaborativo é altamente visível. Já as responsabilidades individuais nem sempre são rastreáveis ou claramente definidas.

É justamente nesses momentos que as expectativas são colocadas à prova — e as inconsistências aparecem.

Com o tempo, assumir responsabilidade deixa de ser algo modelado de forma clara dentro das empresas. A consequência é que as pessoas passam a fazer isso cada vez menos.

O problema da transparência no trabalho não é só geracional

Todas as gerações respondem aos incentivos e sinais dos sistemas em que trabalham. O que diferencia o ambiente atual é a intensidade desses estímulos. A visibilidade é constante, o desempenho é monitorado o tempo inteiro e velocidade virou prioridade.

Nesse cenário, profissionais de diferentes idades tendem a priorizar a continuidade do trabalho em vez de parar para lidar profundamente com falhas, conflitos ou responsabilidades mal definidas. O resultado é um desalinhamento entre expectativa e comportamento.

A Geração Z, sem dúvida, pressionou organizações a alinharem discurso e prática. Isso teve impacto real na forma como empresas operam. Só que essa mudança também levanta uma pergunta mais difícil: essas mesmas expectativas são aplicadas de forma consistente quando chega a hora de assumir responsabilidade individual?

Os dados citados no estudo Signature Accountability Crisis mostram que a hesitação costuma aumentar quando pessoas precisam verificar formalmente seu trabalho, validar a precisão de algo ou assumir a responsabilidade por corrigir um problema. Na prática, isso nem sempre aparece como uma recusa explícita. Muitas vezes surge na forma de atrasos, indecisões ou tentativas de dividir responsabilidades entre várias pessoas.

O ambiente digital em que o trabalho acontece também influencia esse comportamento. As plataformas priorizam clareza, confiança e velocidade. Pesquisas do Pew Research Center mostram o quanto esses ambientes estão integrados à vida cotidiana. Quando algo quebra, a reação mais comum é “remendar” o problema para manter o fluxo andando, em vez de parar para lidar profundamente com a responsabilidade envolvida.

Responsabilidade e a transparência no trabalho dependem de expectativas claras. Ainda assim, muitos profissionais acabam improvisando a forma como assumem tarefas, especialmente quando os resultados não saem como esperado.

Essa lacuna da responsabilidade é muito mais um problema sistêmico do que geracional. Enquanto expectativas, incentivos e comportamentos permanecerem desalinhados, a responsabilidade continuará sendo aplicada de maneira desigual dentro das organizações.

Lideranças ambíguas criam equipes paralisadas

Existe uma ironia nessa discussão sobre a transparência e a responsabilidade no trabalho.

As gerações mais jovens pedem mais transparência das lideranças. Ao mesmo tempo, empresas dizem valorizar iniciativa, adaptabilidade, resolução de problemas e senso de dono. Em teoria, essas características deveriam caminhar juntas. Na prática, as inconsistências estão criando confusão.

Em vez de estabelecer métricas claras ou seguir processos objetivos, muitos gestores acabam presos tentando interpretar o que seria “o jeito certo” de agir. Liderança, que antes era associada a visão e capacidade de decisão, agora frequentemente se transforma em excesso de discussão e colaboração sem direção definida.

As consequências aparecem rápido: equipes deixam de entender prioridades, funcionários passam mais tempo debatendo do que executando e o trabalho simplesmente não avança.

As pessoas se importam com o que fazem. O problema é que muitas vezes não sabem exatamente o que deveriam buscar. Líderes que tentam construir culturas excessivamente colaborativas acabam alimentando análise excessiva e paralisando suas equipes sem perceber.

A grande questão passa a ser entender qual é o limite da responsabilidade compartilhada. Empresas deveriam mostrar às equipes quando não têm todas as respostas? A Geração Z está preparada para participar dessas decisões? Ou estamos apenas criando ambientes em que ninguém realmente assume o controle?

Transparência também exige vulnerabilidade

Se essa lacuna continuar crescendo, os riscos são claros: confiança vira algo transacional, autenticidade se transforma em performance e os padrões deixam de ser coletivos para se tornarem circunstanciais.

Para construir culturas em que as pessoas realmente assumam responsabilidades, lideranças precisam criar segurança psicológica real dentro das empresas. Isso significa normalizar processos de tentativa e erro, permitir falhas sem punições desproporcionais e incentivar pessoas a resolver problemas em vez de apenas evitá-los.

Transparência não pode ser algo que cobramos apenas dos outros. Ela precisa ser praticada de forma visível e consistente pelas lideranças.

Admitir quando não se sabe uma resposta, abrir espaço para sugestões e reconhecer quando um trabalho precisa ser refeito cria ambientes em que mais pessoas se sentem confortáveis para assumir responsabilidades e liderar também.tem todas as respostas.

Porque transparência não pode existir apenas no discurso corporativo. Ela também precisa aparecer na forma como pessoas assumem responsabilidades, corrigem falhas e participam das decisões difíceis.


SOBRE O AUTOR

Jeff LeBlanc é professor na Universidade Bentley e criador do Modelo de Liderança com Empatia Engajada (EELM), que foca em estratégias... saiba mais