A economia do medo

Hoje tem predominado um modelo de distribuição de informação que joga de forma ardilosa, irresponsável ou no mínimo ingênua: manter as pessoas permanentemente preocupadas, mas nunca suficientemente esclarecidas.
Aquela meia-informação que não resolve. Que atrai as pessoas que voltam porque precisam do outro lado do conteúdo. Até porque informação completa liberta e a meia-informação aprisiona.
E poucos temas criam um contexto tão perfeito para esse modelo quanto a inteligência artificial. Ela é técnica o suficiente para parecer inacessível. Futurística o suficiente para que qualquer previsão apocalíptica seja impossível de ser contestada no presente.
É o cenário ideal para distribuir ameaça sem responsabilidade e principalmente sem precisar nomear quem decide o quê. E faz isso sem explorar como toda e qualquer profissão pode ser incrementada por IA em uso consciente e responsável. Com isso todos ficam paralisados, da academia que influencia diretamente escolas até as estruturas organizacionais, sejam elas privadas ou não.
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Grande parte do conteúdo sobre IA hoje traz menos esclarecimento, educação intelectual básica e mais estímulo recorrente de ameaça: "seu trabalho acabou", "o humano ficou obsoleto", "já é tarde demais". O problema não é só o alarmismo é o efeito cognitivo que ela acumula no tempo e nas pessoas.
A neurociência mostra que a nossa estrutura cerebral que lida com ameaças não sabe distinguir o que é perigo real de uma notícia angustiante. O conteúdo ansioso gera o desconforto E busca por resolução liberando dopamina. A próxima meia-informação dá ignição novamente a esse ciclo sem fechá-lo em um loop químico interno que consome exatamente a capacidade cognitiva que o cérebro usa para fazer perguntas melhores.
Uma pessoa mantida em estado de ameaça emocional sem clareza tem menor capacidade neurológica de perguntar: quem está decidindo como essa tecnologia é usada? Que regulação existe? O que posso exigir? Quem está por trás das decisões? É justo tornar uma decisão humana mecanizada?
Enquanto o medo mobiliza, a inevitabilidade neutraliza.
É aqui que começa, na minha opinião, a pior parte dessa prática: o sequestro do futuro.
O futuro sempre foi o espaço simbólico sagrado onde nós humanos depositamos projeto, ambição, inconformismo e transformação. Quando esse espaço passa a ser ocupado ininterruptamente por narrativas de aceitação passiva de fracasso, algo muito mais profundo do que ansiedade é gerado: a inoculação da vontade de agir e reagir.
Quando a percepção de inevitabilidade se instala, ela não precisa nem ser verdadeira para funcionar. Basta ser repetida.
As pessoas deixam de agir não porque não são inteligentes, mas porque foram convencidas de que chegaram tarde demais e que tudo já está decidido.
O pior é que não é preciso convencer uma pessoa de que ela está errada. Basta convencê-la de que chegou tarde. E isso não pode ser tratado com passividade. Há escolhas sendo feitas hoje, por pessoas identificáveis, que podem e devem ser cobradas.
A ausência de perspectivas não é só a omissão do que é possível questionar. É a omissão de que a tecnologia em si não tem lado, e que esse lado pode ser definido por qualquer pessoa que decida usá-la de forma consciente.
É fato que a tecnologia amplifica quem a opera com consciência. E isso inclui você fazer coisas que antes simplesmente não eram possíveis.
O que está paralisando nosso estímulo sobre o futuro não é a tecnologia. É a narrativa de que seu destino já foi definido pelo seu fracasso. E na verdade, será decidido pela sua capacidade de fazer alguma coisa útil nesse processo.
A IA hoje também está sendo usada agora por pessoas comuns para aprender mais rápido, trabalhar melhor, acelerar e dar mais precisão a diagnósticos científicos, criar com mais alcance e resolver problemas que antes exigiam recursos que simplesmente não tinham, a começar pelo tempo.
A IA não é promessa de futuro. É prática, aprendizado e massa de modelar no presente. E a pergunta não é o que a IA vai fazer conosco. É o que cada um de nós vai fazer com ela.
Na minha opinião o primeiro movimento nessa direção é criar um filtro de energia para o que entra ou não na sua vida. Elimine o apocalipse e as meias-verdades. Discutir o potencial de todas as coisas é necessário. Limitar o bombardeio ao seu sistema límbico, à sua fé em futuro é sobrevivência.
Proteja-se. Porque no fim do dia, pouco importa se essa narrativa de desamparo é intencional ou não. O fato é que ela já está sendo mais prejudicial para as pessoas do que qualquer outra coisa já inventada.
