Um trabalhador levaria 200 anos para ganhar o salário anual de um CEO

A aguardada abertura de capital da SpaceX reacendeu a atenção sobre os salários astronômicos que Elon Musk conseguiu assegurar em suas empresas.
No ano passado, acionistas da Tesla aprovaram um pacote de remuneração para Musk que pode chegar a valer US$ 1 trilhão, caso a empresa atinja determinadas metas na próxima década. Em 2025, essa remuneração foi avaliada em mais de US$ 158 bilhões. Já outro pacote generoso, desta vez na SpaceX, poderia valer cerca de US$ 760 bilhões — desde que Musk consiga alcançar metas extraordinariamente ambiciosas.
Musk pode ser o exemplo mais extremo da inflação dos salários de CEOs, mas muitos de seus pares não estão tão distantes assim.
Uma nova análise da Associated Press e da Equilar mostra como a remuneração executiva continua subindo ano após ano, mesmo enquanto os salários médios dos trabalhadores avançam em ritmo muito menor.
Em 2025, a remuneração mediana dos CEOs das empresas do S&P 500 chegou a US$ 17,7 milhões — alta de quase 6% em relação ao ano anterior.
Os cinco CEOs mais bem pagos — grupo que inclui, além de Musk, David Zaslav, da Warner Bros. Discovery, e David Solomon, CEO do Goldman Sachs — receberam pacotes de remuneração superiores a US$ 100 milhões.
Enquanto isso, o salário médio dos trabalhadores ficou em US$ 89.744 em 2025, crescimento de 4,7% frente ao ano anterior.
Em metade das empresas analisadas, um funcionário médio precisaria trabalhar 200 anos para ganhar o equivalente ao que seu CEO recebeu em apenas um ano — um salto relevante em comparação aos 192 anos registrados no levantamento de 2024.
As maiores disparidades geralmente aparecem em empresas onde os pacotes de remuneração executiva incluem grandes concessões de ações ou onde os trabalhadores recebem salários particularmente baixos. Como bônus em ações costumam ser o principal componente da remuneração dos CEOs, boa parte desses ganhos permanece atrelada ao desempenho das companhias.
Nas últimas três décadas, os salários dos executivos cresceram em ritmo muito superior ao da renda dos trabalhadores.
Segundo o Instituto de Política Econômica dos Estados Unidos, em 1989 um CEO médio ganhava 60 vezes mais que um trabalhador típico. Em 2000, essa proporção já havia saltado para 380 para 1. Em 2024, CEOs recebiam, em média, 281 vezes mais do que trabalhadores comuns.
Entre 1978 e 2024 — quase meio século — os salários médios dos trabalhadores cresceram apenas 26%. No mesmo período, a remuneração dos CEOs disparou 1.094%.
Como a Fast Company já mostrou anteriormente, cresce o número de iniciativas voltadas a limitar remunerações executivas e ampliar a transparência sobre esses pagamentos.
Desde 2018, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos exige que empresas divulguem a proporção entre salários de CEOs e trabalhadores. Legisladores também propuseram impostos maiores para empresas cuja proporção salarial ultrapasse 50 para 1.
Em cidades como San Francisco e Portland, no estado do Oregon, já existem regras destinadas a limitar remunerações executivas, aplicando tributos adicionais a empregadores quando executivos recebem mais de 100 vezes o salário médio dos funcionários.
Ainda assim, há poucas evidências de que essas mudanças regulatórias tenham produzido impacto relevante sobre os salários dos CEOs — embora tenham colocado o tema sob os holofotes.
E, embora os pacotes bilionários de Musk sejam exceções até mesmo entre executivos muito bem remunerados, eles ilustram como salários desproporcionais no topo corporativo passaram a ser encarados como algo normal nos últimos anos.