A China acaba de dar um “RG” para robôs humanoides

Sistema atribui identidade digital e monitora robôs desde a fábrica até o descarte, ampliando o controle estatal sobre a IA física

número de identidade para robôs humanoides
Créditos: Fast Company/ Adobe Stock

Jesus Diaz 4 minutos de leitura

A China lançou um sistema oficial para atribuir carteiras de identidade digitais a todos os robôs humanoides que operam em seu território.

Pode parecer cedo demais, considerando que a maioria das implementações de robôs ainda é bastante limitada. Mas essa legislação urgente é impulsionada por um Estado que sabe exatamente quão rápido a tecnologia está acelerando.

Diante da crise demográfica e do encolhimento da força de trabalho, a legislação segue uma diretriz de Pequim projetada para impulsionar agressivamente a IA incorporada à sociedade “onde quer que ela seja necessária”.

A nova plataforma estatal de controle atribui um código alfanumérico único a cada máquina, rastreando sua existência desde o momento exato em que sai da linha de montagem até o descarte.

Na prática, trata-se da imposição de uma carteira de identidade obrigatória para a nova classe trabalhadora sintética que Pequim quer espalhar pelo país.

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O que, à primeira vista, parece apenas uma formalidade burocrática para padronizar o setor pode ser o prólogo de uma nova versão de Blade Runner. Porque o governo chinês está plenamente consciente da velocidade com que empresas locais de tecnologia estão lançando robôs prontos para o consumidor e, por isso, implementa essa "coleira digital" para garantir que sua capacidade regulatória avance mais rápido do que a inovação comercial.

BLADE RUNNER 3.0

A iniciativa, liderada pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, em conjunto com o Centro de Inovação em Robôs Humanoides de Hubei, não é um plano conceitual para o futuro, mas um sistema totalmente operacional que já estabelece padrões para mais de 100 empresas e codificou cerca de 200 modelos da indústria.

O identificador em si é um gigantesco código de 29 caracteres – 11 dígitos a mais do que o documento de identidade de um cidadão chinês de carne e osso – que detalha nacionalidade, fabricante, modelo e um número de série único.

robô modelo OneRo H1_OneRobotics
Robô modelo OneRo H1, da OneRobotics (Crédito: Divulgação)

Esse RG não funciona como uma simples placa estática. Ele opera como um cordão umbilical telemétrico em tempo real, reportando tudo o que o robô faz – incluindo seus “sentidos” – às autoridades: do desgaste físico das articulações ao estado da bateria e à capacidade cognitiva da inteligência artificial.

Como afirmou Liu Chuanhou, executivo do centro de Hubei, à imprensa chinesa: “se o robô apresentar falhas, podemos verificar seus registros operacionais e históricos de manutenção por meio do ID único para localizar o problema, determinar responsabilidades e realizar uma manutenção eficiente.”

ANDROIDES SONHAM COM O GRANDE IRMÃO?

Há outras dimensões nisso tudo – e, para mim, elas começam a soar como um pesadelo distópico. Basta observar as palavras de Yu Xiuming, vice-presidente do Instituto Chinês de Padronização Eletrônica.

Segundo ele, o modelo desse sistema, ao “atribuir atributos sociais aos robôs humanoides”, vai garantir que eles “fiquem sob controle em diferentes áreas, setores e posições de trabalho”.

A China está construindo a infraestrutura legal que vai administrar uma nova sociedade.

Eles estão sendo tratados legalmente como cidadãos digitais humanos, mas desprovidos de qualquer liberdade e permanentemente monitorados por servidores do governo.

Por enquanto, isso parece aceitável – afinal, esses robôs não possuem consciência. Mas o que acontece se esses “seres” se tornarem autoconscientes?

Em um país que já monitora sua população biológica por meio de milhões de câmeras de reconhecimento facial e um rígido sistema de crédito social, as vastas redes de câmeras e sensores exigidas por robôs domésticos criam o potencial para pontos móveis de vigilância sem precedentes sobre seres humanos.

Embora os documentos oficiais apresentem a plataforma centralizada como uma ferramenta voltada para manutenção de máquinas, telemetria de hardware e responsabilização, o enorme volume de dados necessário para operar esses sistemas significa que o Estado terá acesso a uma quantidade extraordinária de registros operacionais e informações diagnósticas de qualquer lugar onde essas máquinas forem implantadas.

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No filme "Blade Runner: O Caçador de Androides", o slogan da fabricante Tyrell Corporation era “mais humano que os humanos” – uma arrogância que terminou em sangue, lágrimas e rebelião.

A abordagem chinesa é muito mais pragmática: “mais rastreáveis do que humanos”. Eles estão legislando para que o teste Voight-Kampff – usado pelos caçadores de androides para determinar se alguém era humano ou não – se torne desnecessário.

cena do filme "Blade Runner: O Caçador de Androides"
O ex-policial Rick Deckard aplica o teste Voight-Kampff em cena do filme "Blade Runner: O Caçador de Androides" (Crédito: Warner Bros.)

Se uma máquina se tornar instável ou fizer algo inadequado, não será preciso enviar um detetive cansado para persegui-la: bastará consultar sua alma de 29 caracteres, acessar seus registros operacionais e identificar responsabilidades.

E se um cidadão fizer algo “estranho” dentro de casa? Bem, isso talvez descubramos em breve.

Estamos prestes a cruzar o limiar crítico da era da IA incorporada. Enquanto o Ocidente fica preso em debates filosóficos intermináveis sobre ética algorítmica – e limitado pelo domínio da China sobre a cadeia produtiva da robótica – os chineses estão deixando a robótica dos EUA para trás.

A China está construindo a infraestrutura legal que vai administrar uma nova sociedade. Quando a inevitável revolução dos robôs humanoides tomar as ruas, casas, supermercados e fábricas, ela chegará presa a uma coleira forjada pelo Estado, e obedecendo ao que ele mandar.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais