O som do silêncio

Para algo novo nascer, precisamos estar sintonizados em frequências que nos permitam receber informação, força, inspiração

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Fabíola Carvalho 4 minutos de leitura

Recentemente, fui atravessada por um livro. Desses que chegam e mudam a vida. “Falando sobre Deus”, do autor e filósofo coreano Byung-Chul Han, que escreveu também “Sociedade do Cansaço” e o “O Desaparecimento dos Rituais”, começa com um parágrafo arrebatador:

“Há antes, razões estruturais, das quais, é verdade, não temos consciência, mas que são responsáveis pela ausência de Deus. Uma delas é o declínio da atenção. Nesse sentido, a crise da religião é também uma crise da atenção, uma crise do ver e do ouvir. Não é Deus quem está morto. Está morto o ser humano ao qual Deus se revelava.”

Essa última frase ficou ecoando por dias. 

Ao longo do livro ele discorre com profundidade sobre nosso modo de vida, que nos distancia do silêncio, do vazio, da presença, da atenção, da inatividade, em reflexões que vão muito além de lugares óbvios.

Hoje em dia, somos constantemente distraídos. Saltamos, ou melhor, cambaleamos de uma informação para outra, de um estímulo para outro. Basta essa constante distração para nos afastar de Deus.

“Deus é atenção sem distração. Se não estivéssemos distraídos, estaríamos com Deus.”

Simone Weil

Aproveitei para observar como estava a minha relação com o mundo digital, o quanto eu andava distraída nos últimos tempos e o quanto é fácil o celular nos colocar no modo “anestesia, dormência espiritual.”

Sim, a tecnologia está aí. Não é sobre demonizar a era da digitalização, mas questionar o quanto de sabedoria estamos aplicando para realmente fazer bom uso dela. No meu caso, me dei conta de que havia ajustes a serem feitos.

Byung-Chul também deixa claro pontos que venho estudando há alguns anos, sejam com fontes de tradições antigas ou contemporâneas, como Joe Dispenza e Lisa Miller, e que trago nos trabalhos com lideranças.

Não somos nós que pensamos, criamos, fabricamos algo. Nosso cérebro é a antena, o receptor. Nós recebemos a informação

Leia mais: Não é impressão: nossa capacidade de prestar atenção está mesmo diminuindo

Tesla dizia que “no universo existe um núcleo do qual obtemos conhecimento, força e inspiração.”

Você não cria uma grande ideia, você a recebe. Porém, a maioria dos seus pensamentos diários são repetições automáticas. Você capta do ambiente, das pessoas, das crenças herdadas, das notícias, das redes sociais, do inconsciente coletivo. 

Vamos para mais uma de Byung-Chul:

“Somente o silêncio traz o espírito para a proximidade da criação. A comunicação ruidosa bloqueia qualquer acesso ao silêncio. Sem o silêncio o igual tem continuidade. O silêncio é a parteira do novo.”

Ou seja, para algo novo nascer, precisamos estar sintonizados em frequências que nos permitam receber. Estar conectados com essa fonte, de onde surgem as grandes ideias. 

E aí vem a reflexão: como perceber, estar disponível para receber uma ideia, uma inspiração, passando de um post a outro? Rolando feed sem fim? Pegando o celular a cada cinco minutos? Clicando sem perceber em redes sociais e depois se perceber abduzido lá dentro?

Me parece impossível.

silhueta masculina olha para o céu através de uma grande janela circular
Créditos: Mikkel William/ Getty Images/ Clicker Happy/ Pexels

No meu caso, o silêncio é prática diária há muitos e muitos anos, assim como acredito profundamente que pelos sonhos recebemos as ideias e inspirações, como já contei em um artigo anterior. Mas ainda assim, senti a necessidade de recalcular a rota na relação com o celular e com o mundo digital.

Foram pequenos atos, como por exemplo, entrar em redes e WhatAspp em horários específicos, deixar celular em outro cômodo e por aí vai, mas mudanças gigantes. Nessas semanas, ganhei muito. Em atenção, em foco, em presença, em escuta, em produzir projetos, em me perceber na vida, em me relacionar diferente e muito mais.

Eu entendi, em uma outra camada, o que é estar disponível para ser encontrada. A não ação, a espera, o vazio. Para receber, para ser preenchida por algo maior que rede social nenhuma jamais trará. 

“Os bens mais preciosos não devem ser buscados, mas aguardados. Pois o ser humano não pode encontrá-los pelos seus próprios esforços e, caso se dedique a buscá-los, encontra em seu lugar bens falsos, cuja falsidade ele não é capaz de reconhecer.”

Simone Weil

É Deus que busca o ser humano. A busca por parte do homem leva apenas à exaustão.

Byung-Chul faz ainda excelentes provocações sobre a busca desenfreada pela autenticidade, pela economia da reciprocidade e pelo consumo espiritual em busca de performance. Vou deixar essas pautas para futuros artigos.

Espero que esta tenha te tocado, de alguma forma, em lugares profundos como me tocou. E que seus dias tenham espaço para ser encontrado no silêncio.


SOBRE A AUTORA

Fabíola Carvalho é fundadora do The Soul Hub, palestrante, consultora em saúde espiritual e carreira com propósito. saiba mais