O poder de ferir

Como o CEO de uma empresa de vigilância decidiu quem merece proteção e quem merece drones

Alexander Karp e Nicholas Zamiska, autores do livro "A República Tecnológica"
Créditos: Magnific/ aetb/ Getty Images

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Uma epígrafe no início de "A República Tecnológica", livro de Alexander Karp e Nicholas Zamiska, merece mais atenção do que normalmente se dá a epígrafes.

Thomas Schelling, economista e Nobel de Paz, escreveu: “O poder de ferir é poder de barganha.” Karp e Zamiska a escolheram com cuidado. A frase funda o livro e reconhecer isso é entender o que ele realmente é antes mesmo de chegar à primeira página.

O livro é inteligente. Karp escreve bem, referencia com seriedade e seu diagnóstico sobre a geração de engenheiros do Vale do Silício tem força: uma elite tecnológica que se beneficia da proteção do Estado americano, constrói sobre infraestrutura pública décadas a fio e recusa qualquer responsabilidade com o projeto coletivo enquanto maximiza retorno para si mesma.

Essa crítica é legítima. O problema está na solução que ele propõe. Karp quer reconectar a elite de engenharia ao Estado, restaurar a aliança entre Vale do Silício e Departamento de Defesa (atualmente de “guerra”) e garantir supremacia norte-americana em IA contra adversários geopolíticos.

A cura indicada para o vazio de convicção da civilização ocidental é mais poder de ferir, com software mais sofisticado.

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Um dos livros mais comentados do mundo ocidental atualmente, "A República Tecnológica" é um manifesto de soberania tecnológica escrito pelo CEO de uma empresa de vigilância e análise de dados para governos e exércitos, que encontra seu fundamento filosófico numa frase sobre a capacidade de infligir dor como instrumento de negociação.

Karp é articulado o suficiente para tornar a premissa palatável. Isso é o que torna o livro importante e inquietante de ter nas mãos.

O argumento central repousa sobre uma separação que nunca é questionada: existe um “nós” ocidental coerente, com projeto e identidade compartilhados, que precisa ser defendido contra um “eles”. Toda a construção histórica do livro, toda a arqueologia da relação entre Estado e inovação desde Roosevelt e Oppenheimer, serve para justificar essa premissa.

Alexander Karp, CEO da  empresa de software de vigilância Palantir
Alexander Karp (Crédito Wolfgang Busch/ Divulgação)

Karp sabe que a separação é uma construção, é homem culto demais para não saber. Trata essa construção como necessária e segue em frente. É exatamente aí que o argumento fecha os olhos para o que mais precisaria ver.

A crise que o livro diagnostica, o vazio de convicção, a elite sem ancoragem, a tecnologia capturada pela trivialidade do consumidor, é o resultado acumulado de um projeto civilizatório que opera há milênios com “o poder de ferir” como fundamento.

Escrevendo sobre a Ilíada, Simone Weil deixou uma observação que o livro de Karp não conseguiria refutar: a força "coisifica" tanto quem a recebe quanto quem a exerce. Hannah Arendt argumentou que violência é o instrumento do poder em colapso, que poder genuíno nasce de ação coletiva coordenada.

Essas observações vêm do interior da própria tradição ocidental que Karp quer defender, e complicam o argumento de Schelling de um lugar que seria difícil para ele desconsiderar.

Karp quer reconectar a elite de engenharia ao Estado e garantir supremacia norte-americana em IA contra adversários geopolíticos.

Karp responderia, com razão, que Weil e Arendt são filosofia, e filosofia não é política externa. Enquanto alguém examina os fundamentos, adversários constroem enxames de drones e sistemas de reconhecimento facial que monitoram populações inteiras sem consentimento.

Esse contraponto é sério. As questões geopolíticas que o livro levanta são reais e nenhum grau de clareza sobre fundamentos resolve o fato de que Estados com ambições autoritárias desenvolvem capacidade de vigilância sem paralelo histórico.

Este ensaio não oferece resposta a essa urgência, mas uma pergunta sobre o fundamento. Ela importa porque fundamentos determinam para onde as soluções apontam, mesmo quando parecem puramente pragmáticas. Se a premissa mudar, a solução muda. A história das ideias mostra isso com frequência suficiente para se levar a sério.

O manifesto que a Palantir publicou no X, rede social de Elon Musk,  para resumir suas teses, mostra nos itens 4, 21 e 22 , exatamente onde o projeto chega quando lido sem o verniz filosófico que suaviza o que está sendo proposto.

O item 4 não usa a palavra sobreviver, nem proteger, nem defender. Usa prevalecer. “A capacidade das sociedades livres e democráticas de prevalecer requer algo mais do que apelo moral. Requer hard power.”

Prevalecer pressupõe que há quem sucumba e os itens seguintes já trataram de identificar quem são os candidatos.

O item 21 afirma que certas culturas produziram avanços vitais enquanto outras se mostraram regressivas e prejudiciais, e que a recusa contemporânea em fazer esse julgamento é ela mesma um dogma. O item 22 pergunta, sobre meio século de pluralismo ocidental: “inclusão em quê?”.

A sequência entre a epígrafe de Schelling e esses três itens revela um projeto que se constrói por camadas: o poder de ferir como premissa, a dominância como objetivo declarado, a hierarquia cultural como critério de quem merece prevalecer.

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Karp formula tudo isso sem afirmar superioridade diretamente; diz apenas que a recusa em fazer julgamentos de valor é ela mesma ideológica. O que poderia ser defensável, mas, no contexto desse projeto específico, funciona como autorização intelectual para o que vem a seguir. 

Um CEO de empresa de vigilância militar, escrevendo sobre soberania tecnológica ocidental, estabelecendo que certas culturas são regressivas e prejudiciais e que democracias precisam prevalecer, está fazendo algo que a epígrafe já anunciava: definindo quem tem o direito de ferir, e em nome de quê.

No próprio livro, sem eufemismo, Karp escreve: “Os recursos de software e inteligência artificial que nós da Palantir e outras empresas estamos construindo podem permitir a implantação de armas letais.” E conclui que isso é não só aceitável, mas urgente.

O verbo “permitir” faz o trabalho mais pesado da frase. A Palantir não implanta armas. Apenas permite. É a mesma lógica que Karp usa para criticar o Google, páginas antes: a de uma empresa que fornece infraestrutura e se isenta das consequências.

uso militar da inteligência artificial pelo Pentágono
Crédito: Logan Voss/ Unsplash

Há um paradoxo que o livro não resolve: o argumento de que é preciso construir armas de IA primeiro, para garantir que sejam éticas, ignora que numa corrida armamentista a ética é sempre a primeira vítima da necessidade de velocidade. Uma IA desenhada para superar o adversário em milissegundos remove o humano da decisão por pura necessidade operacional.

A incoerência não está velada, está impressa, no mesmo livro que diagnostica o vazio moral de uma elite que cria sem convicção e sem responsabilidade coletiva. A solução que Karp propõe para esse vazio é construir armas letais autônomas, com mais convicção.

Há ainda uma inversão que o título do livro carrega sem perceber. República, no sentido que a palavra ainda guarda, é coisa pública, governo do povo sobre o que é de todos.

A "República Tecnológica" que Karp quer construir transfere essa soberania das urnas para os conselhos de administração das empresas que operam o software do Estado. O cidadão vai deixar de ser sujeito do projeto nacional e virar usuário de sistemas que não escolheu e não compreende.

fundamentos determinam para onde as soluções apontam, mesmo quando parecem puramente pragmáticas.

O debate que a República pressupõe não cabe em um projeto onde a dúvida moral é tratada como ineficiência a ser corrigida.

A inteligência artificial que Karp quer armar é construída sobre dados extraídos de bilhões de seres humanos que nunca consentiram, que nunca saberão como seus padrões de comportamento foram convertidos em capacidade preditiva e vantagem militar. A separação opera em camadas que o argumento da soberania tecnológica prefere não iluminar.

Preencher um vazio de sentido com identidade coletiva hierarquizada e armada é uma aposta que a história registrou com resultados que o próprio Karp, leitor atento de Asch e Milgram¹, conhece. O risco mais profundo é vencer tornando-se o que se pretendia combater.

O esperado choque que poderia arrancar uma civilização dessa hipnose já está acontecendo. A ascensão da inteligência artificial acelerada é ela mesma o choque, distribuído ao longo de anos, invisível na sua totalidade porque cada etapa parece administrável isoladamente.

O choque chegou e a espécie que o produziu é a mesma que agora precisa decidir o que fazer com ele, sem a distância que a separação entre “nós” e “eles” sempre ofereceu como consolo.

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Karp percebe a urgência e oferece aceleração dentro da mesma lógica. A "República Tecnológica" que ele quer reconstruir é um ego coletivo mais bem armado, uma civilização que decidiu que o problema foi ter relaxado a vigilância sobre si mesma e sobre os outros. Há algo tragicamente coerente nisso, dentro dos limites da premissa que Karp nunca examina.

O que o livro não consegue ver é que o observador e o observado pertencem ao mesmo movimento. Quem aponta o drone e quem o recebe respiram o mesmo ar, habitam a mesma consciência, e nenhuma epígrafe de Schelling muda esse fato.

A fome que Karp diagnostica com tanta lucidez é real. O que o livro não alcança é que milênios operando com o poder de ferir como fundamento produziram exatamente essa fome. Os itens 21 e 22 do manifesto revelam quem, nesse projeto, tem permissão de ter fome.

1. Os experimentos de Solomon Asch e Stanley Milgram são marcos na psicologia social que demonstram como o contexto social influencia o comportamento individual. Asch provou que pessoas se conformam à opinião incorreta da maioria (conformidade), enquanto Milgram mostrou que indivíduos obedecem a autoridades para aplicar punições severas (obediência), mesmo contra sua moral.


SOBRE O AUTOR

Cadu Lemos é idealizador do Projeto Flow. saiba mais