Depois da reciclagem, a reutilização ganha seu próprio símbolo
Uma aliança global de empresas, governos e designers acaba de lançar um símbolo universal para produtos reutilizáveis — e ele pode mudar a forma como o mundo lida com o lixo.

As luzes se apagam, o primeiro acorde explode, e você está num estádio com 60 mil pessoas segurando uma cerveja gelada.
Em um número crescente de arenas nos Estados Unidos, o copo na sua mão não é aquele plástico fininho que vai direto pro lixo na saída. É um copo resistente, feito para ser devolvido, lavado e entregue para o próximo. Reutilizável de verdade.
Não é teoria. O Coldplay serviu bebidas em copos reutilizáveis durante toda a turnê Music of the Spheres World Tour. Billie Eilish foi além: incluiu reutilização no contrato da própria turnê, com garrafas e canecas recarregáveis para a equipe e pontos de recarga de água para o público.
Fazer esse copo chegar na sua mão é muito mais complicado do que parece: envolve pontos de coleta, instalações de lavagem, rastreamento digital e contratos que quase ninguém da plateia vê. E agora o consumidor vai ter um novo símbolo para identificar tudo isso de um jeito simples.
O QUE É O NOVO SÍMBOLO DE REUTILIZAÇÃO?
A marca foi criada pela PR3: The Global Alliance to Advance Reuse, uma aliança global de empresas, governos e designers lançada em meio à pressão crescente sobre a crise do plástico — e ao reconhecimento de que a reciclagem sozinha não resolve.

Hoje, apenas 9% do lixo plástico no mundo é reciclado. O resto vai para aterros, é incinerado ou para no meio ambiente. A reutilização ataca o problema na raiz: mantém as embalagens em circulação, reduz a fabricação de descartáveis e diminui as emissões de carbono envolvidas na produção.
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"Acredito que estamos perto de um ponto de virada", diz Amy Larkin, cofundadora e diretora da PR3. Mas para chegar lá, é preciso primeiro construir consciência de que esses sistemas existem — e o novo símbolo é peça-chave nessa construção.
POR QUE É UMA ESPIRAL, E NÃO UM LOOP?
Para criar o símbolo, a PR3 abriu uma chamada global em 2025 que recebeu 236 propostas de 29 países. O vencedor veio do Epigrama Studios, estúdio criativo de Bogotá fundado há quase duas décadas pelos sócios Juan Navarrete e Nicole Ascanio Rodriguez. O design foi escolhido após várias rodadas de avaliação e testes com cerca de 1.275 pessoas em 17 países.
O formato parece uma espiral, mas olhando de perto você vê a letra R.
A espiral, segundo Navarrete, é uma referência à filosofia do Sul Global, que entende o tempo não como uma linha reta, mas como algo que volta sobre si mesmo. A cultura de consumo, pelo contrário, trata o tempo como linear: sempre atrás da próxima novidade, um celular novo a cada dois anos, roupas novas todo verão.
A espiral representa o oposto: a ideia de que algumas respostas para o futuro estão no passado, em formas mais antigas de se relacionar com os materiais. É também, nas palavras do designer, um símbolo de resistência ao status quo sustentado pela cultura de consumo do norte global.
Os criadores estudaram o símbolo de reciclagem a fundo. Admiram sua universalidade, mas sentiram que ele virou algo institucional e levemente culpabilizador: você recicla porque se sente mal. Eles queriam que o símbolo de reutilização fosse um convite. O equivalente visual de estamos juntos nisso.
E não o apresentaram como rival do ícone de reciclagem. "Queremos ser sua evolução", diz Navarrete. O R remete tanto a reuse quanto a recycle — partes da mesma espiral.
ONDE VOCÊ VAI COMEÇAR A VER ESTE SÍMBOLO?
O símbolo já está aparecendo em produtos reutilizáveis. A marca de copos Solo criou um programa de reutilização em parceria com a Bold Reuse, de Portland (Oregon), e já estampa o novo ícone nos seus copos. Os estádios são o campo de teste inicial — em parte porque as arenas não precisam montar nada por conta própria. Os operadores de serviços de reutilização cuidam de tudo: lavagem, coleta, entrega e controle de estoque, com rastreamento digital integrado.
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"O esforço para o local é mínimo, porque os prestadores de serviço gerenciam a logística", explica Larkin.

A expectativa é que o símbolo apareça em grandes eventos esportivos — corridas de NASCAR, zonas de fãs da FIFA — e se torne cada vez mais comum em shows em estádios, especialmente com mais artistas incluindo reutilização em seus contratos de turnê.
O ícone já está sendo testado em mais de uma dúzia de países, incluindo EUA, Reino Unido, Egito, Austráia e Canadá. Diferente de selos vagos de "reciclável", ele está vinculado a critérios específicos e só pode ser usado onde existe um sistema real de coleta, lavagem e reutilização em funcionamento.
POR QUE PROJETOS DE REUTILIZAÇÃO DEVEM DECOLAR
A história da reutilização está cheia de iniciativas bem pensadas que não chegaram longe. A CupClub, startup londrina, criou copos projetados para 132 usos, rastreados por chips e devolvidos em pontos de coleta pela cidade. O Loop — apoiado por Procter & Gamble e Unilever — prometia entregar produtos de grandes marcas em embalagens recarregáveis. Ambos eram bem desenhados. Nenhum chegou ao mercado de massa nos EUA. (O Loop encontrou espaço na França, onde está em supermercados por todo o país.)
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Para Larkin, pontos de virada só acontecem depois de muito trabalho já ter sido feito.
O que é diferente agora, segundo Larkin, é a existência de um esforço global para construir padrões e logística em escala. A PR3 passou três anos desenvolvendo esses padrões com mais de 80 organizações de catadores informais a multinacionais, passando por cidades e grupos de justiça ambiental. Três governos nacionais já estão avaliando a adoção desses padrões em políticas públicas.
"Você abre todas as portas que consegue e aí uma delas abre. Do dia para a noite, lá vai. Um ponto de virada."
E o momento cultural, ela acredita, também está mudando: "Depois de um longo período de cinismo, as pessoas estão procurando formas de fazer o bem."