Backrooms: como a A24 deu vida ao lugar mais assustador da internet
O designer de produção Danny Vermette revela como construiu o cenário físico do filme mais aguardado da A24 — e por que até as roupas do set cheiravam mal de propósito

Existe um lugar onde você nunca esteve de verdade, mas que o seu subconsciente reconhece. Um labirinto de corredores com papel de parede amarelado, carpete creme surrado e luz fluorescente, uma mistura de todos os espaços de passagem que você já ocupou por alguns minutos na vida. Só de ver uma imagem, você sente um déjà vu daquele consultório médico esquecido da infância, de uma sala de espera, de um corredor de loja. Esse lugar é o Backroom e é lá que se passa o novo filme de terror surreal da A24.
Backrooms: Um Não-Lugar estreou no Brasil em primeiro lugar das bilheterias na última semana de maio. No mundo, o filme fez a melhor estreia da história da A24 e já levantou US$ 118 milhões. O sucesso tem ainda mais peso quando a gente lembra que a película foi dirigida por Kane Parsons, de apenas 20 anos de idade (o diretor mais jovem da história da produtora). Parsons descobriu a lenda urbana digital (conhecidas na web como creepypasta) ainda no ensino médio, garimpando subreddits, fóruns de fãs e wikis.
O jovem diretor fez parte da creepypasta ao transformar o backroom em uma série de vídeos para o seu canal do YouTube. Parsons, ou Kane Pixels, teve milhões de visualizações e de comentários em vídoes que tratavam dessass salas vazias extradimensionais. O assunto ganhou fãs e devotos a discutir o tema, a criar novas teorias e lendas.
Leia também: 10 filmes de “terror tecnológico”
O filme expande um fragmento da história que Parsons viralizou no YouTube em 2022. A trama se passa em 1993 e acompanha um dono de loja de móveis, vivido por Chiwetel Ejiofor, que descobre um portal para o "Backrooms" no porão do seu depósito e acaba sendo seguido até lá pela própria psiquiatra, interpretada por Renate Reinsve. ara transportar o espectador para esse mundo junto com os personagens, Parsons deu à sua equipe de design de produção uma missão intimidadora: transformar o espaço de pesadelos mais icônico da internet em um set físico de cinema.
O QUE SÃO OS BACKROOMS?

A primeira referência conhecida ao Backrooms apareceu num post do 4chan nos anos 2010. A imagem mostrava uma série de quartos vazios com papel de parede amarelo, teto baixo e luz fluorescente de escritório.
Um comentário no post, que acabou definindo a essência dos Backrooms, dizia: "Se você não tomar cuidado e escorregar para fora da realidade no lugar errado, vai acabar nos Backrooms, onde só existe o cheiro de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o ruído de fundo interminável de lâmpadas fluorescentes no limite do zumbido e aproximadamente seiscentos milhões de milhas de quartos vazios e aleatórios para ficar preso."
Essa publicação ganhou vida própria, gerando histórias escritas por usuários (fanfics), sua própria wiki, gráficos e inúmeras teorias. Mas o conceito realmente se solidificou quando Parsons, então com 16 anos, publicou seu primeiro vídeo no YouTube sobre os Backrooms em 2022. O vídeo, intitulado "The Backrooms (Found Footage)", tem mais de 78 milhões de visualizações e é o primeiro de uma série de 16 partes.
Ao longo do tempo, os vídeos revelam que uma misteriosa corporação chamada Async Research Institute, responsável pela criação dos Backrooms, aparentemente em um esforço para lidar com a superpopulação e criar um espaço de armazenamento infinito, embora suas motivações e operações exatas permaneçam envoltas em mistério. Parsons escrevia o roteiro, compunha o som e editava os efeitos visuais de cada um dos novos episódios. Uma legião de fãs dissecavam cada fotograma dos vídeos por horas, em buscas de informações sobre como os Backrooms foram criados.

COMO FOI CONSTRUIR OS BACKROOMS NA VIDA REAL
Para capturar o clima perturbador do espaço, o designer de produção Danny Vermette que também assina filmes de terror como Longlegs e The Monkey, de Osgood Perkins, construiu um set físico gigante para os atores. Mais de 37 mil metros quadrados de papel de parede e 29 mil metros quadrados de carpete! Depois, a equipe combinou as imagens com cenas digitais criadas principalmente no Blender na pós-produção.
A Fast Company conversou com Vermette sobre como ele deu vida ao Backrooms. O processo envolveu pesquisa intensa, dezenas de amostras de papel de parede e alguns props com cheiro bastante desagradável.
FC — Quanto você sabia sobre os Backrooms antes desse projeto?
Dunny Vermette — Eu conhecia o conceito de espaço liminar e sabia que era uma tendência. Sempre fui fã daquele design torto com qualidade surreal, mas não fazia ideia de quão profundo era o universo. Foi uma experiência reveladora.
FC — Assisti a uns cinco vídeos de uma hora explicando o Backrooms e sinto que mal arranhai a superfície. Como foi seu processo de pesquisa?
Danny Vermette — É engraçado porque acabei assistindo alguns vídeos errado, que não eram do Kane, eram de outros criadores de conteúdo sobre os Backrooms. Achei interessante, mas só um dia depois foi que realmente caiu a ficha. Isso foi bem antes de sabermos que faríamos o filme. Quando finalmente encontrei o conteúdo do Kane e assisti bastante antes da nossa primeira conversa, ficou muito claro que aquele era o mundo dele. A forma como ele fala sobre isso com tanta eloquência — ele odeia a palavra "lore", mas vou usar mesmo — tem uma sequência e uma sensação tangíveis. É uma entidade com regras e limites.
Quando recebi o roteiro original, havia elementos que simplesmente não se encaixavam nessa mitologia, e Kane deixou claro que precisariam mudar. Minha primeira ideia de como o filme funcionaria estava errada. O Backrooms não muda na sua frente. Não está em constante transformação. É um espaço repetitivo e ilimitado.
FC — Kane claramente tem uma visão muito específica. Qual foi seu primeiro passo para executá-la?
Danny Vermette — Perguntei "Me diz qual é o seu cenário dos sonhos. O que você quer construir de forma prática?" Então Kane passou algumas semanas construindo tudo no Blender, e quando me mandou o arquivo, travou meu computador. Era algo como 100 mil metros quadrados. Falei: "Bom, temos um orçamento aqui. Temos X metros quadrados de espaço físico para construir. Vamos ter que ser muito criteriosos sobre o que construímos na prática e o que vai para os efeitos digitais." Era uma questão de decidir quais ambientes ele queria criar e até onde dentro do Backrooms queríamos ir. Quanto queríamos mostrar fisicamente para que os atores pudessem interagir?
FC — O set tinha cerca de 30 mil metros quadrados — é isso?
Danny Vermette — Ficamos um pouco abaixo de 30 mil metros quadrados de área. Mas foram 37 mil metros de papel de parede e 29 mil metros quadrados de carpete.
FC — O papel de parede amarelo é um dos elementos mais icônicos do Backrooms. Como foi o processo para encontrar os materiais certos?
Danny Vermette — O papel de parede foi um capítulo à parte. Havia duas preocupações principais: o volume absurdo de material e o timing — foi justamente quando as ameaças de tarifas comerciais apareceram. Estávamos em Vancouver, e boa parte dos nossos fornecedores principais eram americanos — não dava para trazer material de lá. Precisamos buscar localmente e acabamos encontrando um fornecedor a cinco quarteirões do escritório. Era uma empresa nova e o cara topou na hora. Fizemos de 30 a 40 versões do papel de parede para acertar a tonalidade, o estampado e a escala. Precisávamos garantir que o contraste entre o fundo e o estampado não fosse alto demais. Testamos combinações com o carpete, com as luzes, para ter certeza de que seria reconhecível para os fãs. Existe um debate acalorado online sobre qual é o amarelo verdadeiro dos Backrooms — e todo mundo tem uma opinião. Você ainda precisa considerar a iluminação, a câmera cinematográfica, os atores e a mobília real no espaço, que mudam a percepção de tudo. Desenvolvemos uma fórmula para que o resultado ficasse o mais próximo possível de uma imagem do Blender.
Quando fomos montar o cenário, as roupas estavam todas mofadas e fediam muito. Na sessão para a equipe, todo mundo caiu na gargalhada — afinal, passamos dias lá dentro e não foi nada agradável. Método involuntário.

FC — E a iluminaçãom como foi conseguir aquele efeito de que é real mas surreal?
Danny Vermette — Com o forro de teto rebaixado predominante nos sets, o normal seria usar luminárias embutidas com lâmpadas fluorescentes. Percebemos rápido que isso não ia funcionar pela qualidade da luz. Tivemos que inventar nossa própria solução: usamos luzes de cinema suspensas bem acima do nível do forro e criamos uma espécie de máscara para controlar a luz. Se ficassem perto demais, as lâmpadas apareciam. Longe demais, a luz não chegava onde precisava. Foi um equilíbrio muito fino.
FC — Como você decidiu o que construir fisicamente e o que ficaria no digital?
Danny Vermette —Uma parte importante era adicionar verticalidade aos sets para tirar os atores da zona de conforto. Construímos sets em plataformas de 4 a 6 metros de altura. Nas cenas em que os personagens percorrem túneis, esses túneis são físicos — construídos sobre estruturas de 6 metros. E tem um detalhe que a equipe não esquece: precisávamos de pilhas de roupas como adereços de cenário. Conseguimos contêineres enormes de roupas, mas tinham ficado expostos à chuva. Quando fomos montar o cenário, as roupas estavam todas mofadas e fediam muito. Na sessão para a equipe, todo mundo caiu na gargalhada — afinal, passamos dias lá dentro e não foi nada agradável. Método involuntário.