Empresas que trocaram pessoas por IA estão voltando atrás

Pesquisas sugerem que gestores estão percebendo que a tecnologia, em rápida evolução, não consegue substituir completamente os humanos

Empresas recontratam funcionários após perceberem limites da inteligência artificial em algumas funções de trabalho.
Crédito: koyu/ Getty Images

Ella Chakarian 5 minutos de leitura

As demissões relacionadas à inteligência artificial têm chamado atenção nos últimos tempos. No mês passado, a Meta demitiu 10% de sua força de trabalho, poucos meses depois de se comprometer a investir até US$ 135 bilhões no desenvolvimento de IA este ano.

Outras empresas, como Cloudflare, Coinbase e PayPal, também demitiram ou planejam demitir funcionários à medida que se tornam organizações “nativas em IA”.

No ano passado, um relatório da Forrester Research destacou que 55% dos empregadores se arrependeram de ter demitido funcionários por causa da inteligência artificial.

Já uma previsão da Gartner, publicada no início deste ano, afirma que 50% das empresas que substituíram trabalhadores de atendimento ao cliente ou operações por IA serão obrigadas a recriar essas funções, com outros títulos, até 2027.

O QUE É O "BUMERANGUE DA IA"

Um fenômeno conhecido como “efeito bumerangue da IA” começa a ganhar força: empresas que demitiram funcionários por causa da IA ou da automação agora estão recontratando para essas mesmas funções por diferentes motivos.

Segundo uma nova pesquisa da consultoria Robert Half, analisada pela Fast Company, quase um terço (32%) dos gestores de contratação afirma que suas organizações eliminaram uma função ou dispensaram alguém principalmente devido aos ganhos de produtividade proporcionados pela IA ou pela automação, mas depois precisaram contratar de novo para o mesmo cargo.

cadeira vazia representando corte de empregos
Créditos: master1305/ iStock

“Embora tenham observado ganhos iniciais de eficiência, esses esforços também revelaram falhas em qualidade, supervisão e tomada de decisão, especialmente à medida que as demandas dos negócios aumentaram”, afirma Megan Slabinski, presidente distrital de soluções de talentos em tecnologia da Robert Half.

“Em muitos casos, as organizações precisaram reavaliar suas expectativas, reconhecendo que, embora a IA possa ser eficaz em determinadas áreas, ela não é a solução definitiva que alguns acreditavam inicialmente”, acrescenta.

Leia mais: A IA é mesmo a culpada pelas demissões nas big techs?

“Isso está levando os líderes a mudar o foco: em vez de cortar funções, estão repensando essas funções, com uma compreensão mais clara de onde a IA funciona melhor ao lado dos funcionários, e não no lugar deles.”

POR QUE AS EMPRESAS ESTÃO RECONTRATANDO

A pesquisa ouviu dois mil gestores de contratação nos Estados Unidos, de diferentes setores. Finanças (44%), tecnologia (32%) e recursos humanos (35%) foram as áreas com maior número de gestores que afirmaram ter recontratado para as mesmas funções. Marketing e criação, jurídico, saúde, além de suporte administrativo e atendimento ao cliente, apareceram logo atrás.

“Embora isso varie de setor para setor, estamos falando principalmente de áreas em que a IA pode apoiar o trabalho, mas não assumir totalmente a responsabilidade pelos resultados”, diz Slabinski.

Empresas que avançaram rápido demais com a IA agora estão percebendo, na prática, onde a tecnologia falha.

Os dados levantados pela Robert Half mostram que as empresas estão recontratando posições que dependem mais de conhecimento institucional, construção de relacionamentos ou simplesmente de suporte mais prático.

De fato, entre os entrevistados, 40% afirmam que recontrataram porque a função exigia conhecimento institucional ou contexto que a IA não conseguia substituir.

Mais de um terço (35%) diz que os ganhos de produtividade foram menores do que o esperado, enquanto 38% afirmam que a IA exigiu mais supervisão humana e controle de qualidade do que imaginavam.

Outros motivos incluem aumento da demanda dos negócios, preocupações com riscos e conformidade na ausência de um humano na função, esgotamento das equipes, sobrecarga de trabalho e adoção inconsistente das ferramentas de IA entre diferentes times.

AS HABILIDADES QUE A IA AINDA NÃO SUBSTITUI

“Em um nível mais amplo, isso reflete a percepção de que as empresas estão sentindo falta de habilidades que não podem ser automatizadas, como julgamento, colaboração entre áreas e responsabilidade”, afirma Slabinski.

Leia mais: Nem a Apple escapou: como as demissões estão redefinindo a cultura da big tech

“O efeito bumerangue geralmente tem mais a ver com o retorno da função do que com a volta da mesma pessoa. Ainda assim, candidatos que conseguem assumir rapidamente a posição e trazem forte experiência no setor se tornam especialmente atraentes.”

O PROBLEMA DO ROI DA IA

Alguns CEOs também estão tendo dificuldades para enxergar retorno sobre o investimento (ROI) em IA – que, ao que tudo indica, é bastante cara.

Recentemente, a Uber limitou o orçamento mensal destinado ao uso de ferramentas de IA por seus funcionários, enquanto a Microsoft cancelou licenças do Claude Code para reduzir gastos e concentrar esforços em modelos desenvolvidos internamente.

A IA pode apoiar o trabalho, mas não assumir totalmente a responsabilidade pelos resultados.

Em um episódio de podcast na semana passada, Andrew Macdonald, presidente e COO da Uber, afirmou que “é muito difícil traçar uma linha direta” entre a adoção de IA e o lançamento de novos produtos para consumidores.

Outros executivos têm destacado que humanos e IA precisarão trabalhar juntos.

Em uma publicação recente no X, Aaron Levie, CEO da Box, usou a engenharia de software como exemplo de uma área amplamente vista como candidata à substituição pela IA.

Segundo ele, a tecnologia levou empresas a assumir mais projetos, o que pode exigir mais engenheiros com conhecimento técnico aprofundado. “É possível sobreviver por algum tempo desenvolvendo software sem conhecimento técnico”, escreveu Levie.

entrevista de emprego feita por inteligência artificial
Crédito: Andrey Popov/ Getty Images

“Mas, em algum momento, alguém precisa entender o que foi construído, fazer manutenção, corrigir problemas de segurança, atualizar os sistemas que sustentam tudo isso e assim por diante. Tudo isso são empregos.”

Levie argumenta aplicando essa lógica a outras funções. "A IA vai fazer com que as empresas contratem mais pessoas em vendas, porque agentes de IA permitem processar mais oportunidades e fazer mais pesquisas sobre clientes. Também vai provocar uma explosão de novos cargos em marketing, porque torna muito mais eficiente lançar campanhas e segmentar públicos. E a lista continua.”

COMO RECUPERAR A CONFIANÇA DOS FUNCIONÁRIOS

Sobre como as empresas podem recuperar a confiança dos funcionários depois de demissões em massa seguidas pelo efeito bumerangue, Slabinski afirma que a transparência é fundamental.

“As empresas precisam ser mais intencionais ao explicar como a IA se encaixa no negócio e o que se espera dela desde o primeiro dia. Isso ajuda a criar expectativas mais realistas”, diz.

Leia mais: CEOs culpam IA pela onda de demissões, mas o caso é bem mais complicado

“Acho igualmente importante reconhecer de forma consistente as contribuições dos funcionários, especialmente das pessoas por trás do trabalho. Isso faz muita diferença para reforçar a confiança e mostrar que, mesmo com novas tecnologias, as pessoas continuam no centro de tudo o que é feito.”


SOBRE A AUTORA

Ella Chakarian é jornalista e cobre os temas de tecnologia e cultura. Seus trabalhos foram publicados em veículos como Rolling Stone, ... saiba mais