Por que o mercado precisa da diversidade, hoje mais do que nunca?
Em um mundo onde a IA padroniza tudo, quem tem a coragem de continuar sendo autêntico é quem, de fato, desenha o amanhã

Recentemente, publiquei uma foto no LinkedIn que quebrava o protocolo do que se espera de um perfil corporativo tradicional.
De um lado, o profissional que transita pelo mercado, dá palestras e mentorias. Do outro, Ramona Pussita, meu alter ego drag queen. A legenda começava com um desabafo honesto. "Eu provavelmente não deveria postar essa foto aqui".
Essa frase acompanha qualquer LGBTQ+ que já foi silenciado no mercado de trabalho. A regra invisível do mercado por muito tempo foi: seja quem você é, mas mascare suas excentricidades.
Estamos em junho, o Mês do Orgulho. Teoricamente, este é o momento em que o mercado se abre para celebrar a existência, a diversidade e a pluralidade de narrativas, enquanto estamos clamando pelos nossos direitos fundamentais. Mas a realidade prática do ecossistema corporativo tem se mostrado bem mais covarde.
Diante de pressões políticas, ondas de conservadorismo e medo constante do cancelamento, grandes marcas têm recuado. Apoios históricos são retirados silenciosamente, campanhas são engavetadas e o discurso de inclusão é esvaziado.
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O mercado, muitas vezes, aceita a diversidade como um selo estético temporário, mas desconhece a sua real potência para os negócios.
Esse recuo corporativo acontece justamente em um momento crucial da história humana: a era da automação e da inteligência artificial generativa. Bilhões de dólares estão sendo investidos para que algoritmos gerem textos impecáveis e agentes produtivos para, praticamente, qualquer coisa que você pedir.
Estamos vendo uma enxurrada de comunicação padronizada, conteúdos homogêneos, respostas calculadas, vídeos, músicas e estratégias medianas. Se todo mundo passa a operar sob os mesmos prompts e as mesmas ferramentas, o resultado lógico é a pasteurização da cultura e dos negócios.
A padronização não gera disrupção, gera a obsolescência programada da criatividade.

É nesse cenário de massificação artificial que mora o verdadeiro valor do que o mercado insiste em chamar de "hobby". A arte drag, o teatro, a palhaçaria e o improviso não são distrações do trabalho sério, são metodologias de inovação e sobrevivência humana.
O improviso, por exemplo, é uma tecnologia que nenhuma inteligência artificial consegue simular atualmente. A máquina calcula probabilidades com base em dados do passado; ela é incapaz de criar a partir do erro ou do vazio.
Já o improviso exige presença absoluta, escuta radical, leitura rápida de contexto e a coragem de abraçar o imprevisto para transformá-lo em valor.

Quando Ramona Pussita sobe ao palco com o coletivo Família Kamburão para contar a história de quatro irmãs que precisam se reinventar diante das dores da vida, não há algoritmo que preveja a conexão humana que se estabelece ali com o público. É na vulnerabilidade dessas histórias que acontece a conexão, que, consecutivamente, gera o impacto real.
Quem vive à margem precisa se reinventar diariamente para existir em um mundo que não foi desenhado para si.
Portanto, quando trazemos a diversidade para a mesa de inovação, não estamos falando de preencher uma cota de representatividade para o mês de junho. Estamos falando de trazer perspectivas que aprenderam a quebrar padrões por necessidade de sobrevivência.
A inovação diversa carrega um repertório de resiliência, pensamento crítico e flexibilidade cognitiva que nenhuma máquina é capaz de replicar.
A padronização não gera disrupção, gera a obsolescência programada da criatividade.
Biologicamente, não estamos conseguindo responder às inovações e às consequências dessas soluções. Os altos índices de depressão, ansiedade e a dependência da tela estão nos comprovando isso.
Estamos reféns de nossas próprias invenções. Por isso, é dever nosso reconhecer que há uma multiplicidade de perspectivas, para que a gente possa habitar o planeta de outra maneira.
Porque criar futuros onde todas as pessoas possam habitar e florescer não é uma pauta de responsabilidade social para ser engatada uma vez por ano e esquecida na virada do mês. É uma estratégia econômica e criativa de sobrevivência a longo prazo.
Se o futuro for construído apenas por mentes padronizadas operando sistemas padronizados, nós vamos extinguir a nossa capacidade de solucionar os problemas complexos que o mundo apresenta.
O mercado precisa entender, de uma vez por todas, que a autenticidade é a última fronteira da relevância humana.
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O futuro não pertence às marcas que recuam por medo da própria voz, nem aos profissionais que se escondem atrás de personas corporativas sem alma.
Em um mundo onde a inteligência artificial padroniza tudo, quem tem a coragem de continuar sendo autêntico é quem, de fato, desenha o amanhã.
Bora agir para criar o futuro que a gente quer que exista.