Apple deixa de atualizar relógio de R$ 11 mil após apenas 4 anos
Novo sistema operacional da empresa não será compatível com alguns modelos antigos do Apple Watch – incluindo um relógio premium lançado em 2022

A Apple acaba de encerrar sua rodada anual de anúncios da WWDC, sua conferência para desenvolvedores. Como acontece quase todos os anos, não houve lançamentos de hardware. Afinal, esse nunca foi exatamente o foco do evento, que costuma ser dedicado às plataformas de software da empresa e às ferramentas disponíveis para desenvolvedores.
Como já virou tradição, a Apple anunciou novas versões de todos os seus sistemas operacionais, agora unificados sob a numeração “27”. No segundo semestre chegam o macOS 27, iOS 27, visionOS 27 e os demais sistemas da companhia.
Mas a notícia mais interessante envolvendo hardware não foi um novo dispositivo, e sim descobrir quais aparelhos vão continuar recebendo atualizações.
O CASO DO APPLE WATCH ULTRA
A situação mais surpreendente envolve o watchOS 27. A próxima versão do sistema dos relógios da Apple vai funcionar apenas nos modelos Apple Watch SE 3, Series 9, Series 10, Series 11, Ultra 2 e Ultra 3. Quem tem versões anteriores vai ficar sem a atualização. Isso inclui até mesmo o primeiro Apple Watch Ultra.
A decisão chama atenção porque o relógio foi lançado em 2022. Na prática, ele terá recebido apenas três grandes atualizações de sistema operacional ao longo de toda a sua vida útil.

E não se tratava de um produto qualquer. O Apple Watch Ultra marcou a primeira grande expansão da linha Apple Watch, trazendo um design totalmente novo e preço inicial de US$ 799 – valor que, no Brasil, ultrapassava facilmente os R$ 11 mil nas primeiras semanas de venda.
O modelo continua funcionando perfeitamente. Muitos usuários, inclusive, não encontraram motivos suficientes para migrar para o Ultra 2 ou Ultra 3. Ainda assim, a Apple decidiu encerrar seu ciclo de atualizações.
A mudança é relevante porque o watchOS 27 traz novidades importantes, incluindo uma grade de aplicativos redesenhada e uma nova versão da Siri. Nenhum desses recursos chegará ao Ultra original.
O PROBLEMA ESTÁ NO CHIP
A explicação mais provável é o hardware. O primeiro Apple Watch Ultra utilizava o chip S8. Apesar do nome, esse processador usava exatamente a mesma CPU presente nos chips S7 e S6.
Em outras palavras, o Ultra chegou ao mercado equipado com um processador que já tinha uma arquitetura de dois anos antes.
Na época, isso não parecia um grande problema – e, honestamente, ainda não parece. Os Apple Watch já haviam superado os problemas de lentidão das primeiras gerações.
O Ultra marcou a primeira grande expansão da linha Apple Watch, trazendo um design totalmente novo.
Mesmo no Ultra original, aplicativos continuam abrindo rapidamente e o desempenho é adequado para quase qualquer tarefa. O maior atrativo sempre foi outro: bateria de longa duração, resistência, tela maior e recursos voltados para atividades ao ar livre.
A situação mudou em 2023, quando a Apple lançou o Apple Watch Ultra 2 e o Series 9. Os dois modelos receberam o chip S9, que trouxe uma GPU mais rápida, um novo Neural Engine e recursos inéditos, como processamento local da Siri e o gesto de toque duplo entre polegar e indicador.
Como o Series 9 vai continuar recebendo o watchOS 27, tudo indica que a Apple escolheu justamente essa geração para estabelecer uma nova linha de corte entre dispositivos compatíveis e incompatíveis.
O APPLE WATCH NÃO FICOU RUIM
O ponto mais frustrante para os donos do Ultra original é que o produto continua excelente. Ele ainda oferece autonomia de bateria superior à dos modelos convencionais, conta com uma tela grande e brilhante e mantém o mesmo design robusto adotado pelas gerações mais recentes.
Para as tarefas que foi projetado para executar, o relógio continua tão competente quanto no dia em que foi lançado. O problema não é o hardware ter se tornado inutilizável. O problema é que o software deixará de ser atualizado. Um movimento surpreendente.

Essa é uma guinada incomum para a Apple e diz algo sobre a complacência da empresa ao atualizar o hardware do Apple Watch ao longo dos anos. A Apple dizia que atualizava o relógio todos os anos com os chips “S6”, “S7” e “S8”, mas, na prática, todos tinham desempenho idêntico.
Depois, decidiu lançar uma nova linha premium baseada na mais recente reembalagem desse mesmo chip, antes de atualizá-la, um ano depois, com um hardware que de fato estava preparado para o futuro.
Na mesma apresentação da WWDC, a Apple destacou que o iOS 27 chegaria ao iPhone 11, um aparelho lançado lá em 2019 e que custava US$ 100 a menos que o Apple Watch Ultra original.
Leia mais: 13 funções do Apple Watch que você pode usar mesmo longe do iPhone
Muitas vezes, deixar de oferecer suporte de software a hardwares ultrapassados é a decisão certa. Mas, neste caso, é difícil concluir que a Apple fez as escolhas corretas.
A empresa lançou um produto de ponta com hardware defasado. A consequência é que seu software deixará de ser atualizado muito antes do que muitos de seus donos provavelmente esperavam.