Fazer nada pode ser exatamente o que seu cérebro precisa

Descansar não é perda de tempo: a chamada preguiça estratégica pode melhorar decisões, produtividade e inovação

cérebro precisa de tempo livre para poder funcionar melhor
Crédito: Deagreez/ Getty Images

Chris Lovett 7 minutos de leitura

Existe uma arte em não fazer nada, e passei anos tentando aperfeiçoá-la.

Algumas pessoas dominam o violino. Outras treinam para correr maratonas. Eu dediquei os primeiros anos de quando cheguei à quadragésima década de vida à delicada busca por alcançar o máximo de resultados com o mínimo de esforço.

Na verdade, toda a minha segunda carreira como autor e coach, iniciada no fim dos 30 anos, nasceu da necessidade de simplificar a vida, ter menos coisas e fazer menos. Tenho literalmente o nada a agradecer por isso.

Escolher quando ser preguiçoso – ou praticar a “preguiça estratégica”, como gosto de chamar – pode destravar o seu melhor trabalho até agora, sem que isso pareça apenas uma desculpa para ficar mais tempo na cama.

Em cérebros fragmentados, à beira do burnout ou tentando se recuperar dele, precisamos nos permitir parecer improdutivos por algum tempo sem sentir culpa.

pesquisas científicas dão total respaldo à "preguiça estratégica".

O conceito de “preguiça estratégica” consiste em reinventar aquela velha máxima de “trabalhar com mais inteligência, não com mais esforço”, algo que todos conhecem, mas poucos conseguem colocar em prática.

Aceitar uma dose de preguiça, e até rebatizá-la pelos benefícios que oferece, significa reconhecer que nem tudo exige 100% da sua energia o tempo todo.

Ao priorizar as tarefas certas, abandonar as erradas e preservar energia sempre que possível, você pode otimizar seu tempo e ainda assim alcançar resultados extraordinários.

A MELHOR IDEIA QUE TIVE FOI NA MINHA CAMA

Recentemente lancei um livro chamado "Relentless: The Power of Doing Less in a Workplace That Demands More" (Implacável: o poder de fazer menos em um ambiente de trabalho que exige mais). Mas, por mais que eu adorasse falar sobre ele, vou falar sobre o evento de lançamento. Ele é igualmente interessante.

O evento deu às pessoas permissão para não fazer nada. Era uma hora reservada na agenda sem pauta, sem link de Zoom e sem qualquer compromisso além de estar consigo mesmo.

Líderes do setor, professores e pessoas consideravelmente mais inteligentes do que eu chamaram a ideia de “genialidade absoluta”. Minha editora disse que foi o melhor lançamento de livro que já tinha visto. Nada mal.

E de onde veio essa ideia? Da minha cama.

homem dorme em uma cama de nuvens
Créditos: Alex Varela/ Unsplash/ Ljupco/ Getty Images

Dormir até mais tarde criou as condições para que meu cérebro conectasse alguns pontos e produzisse algo que fez as pessoas pensarem: “É, isso ficou muito bom”.

Não foi no escritório. Não foi depois da sétima reunião consecutiva do dia. Não foi após 10 horas montando apresentações. Foi ficando mais tempo na cama.

Essa é a preguiça estratégica em ação. E o mais interessante é que as pesquisas científicas dão total respaldo a ela.

O QUE JÁ SABEM AS PESSOAS QUE PARECEM OCIOSAS

Um estudo de 2015 liderado por Todd McElroy, da Universidade da Costa do Golfo da Flórida, ganhou repercussão mundial ao sugerir que pessoas inclinadas ao pensamento mais profundo tendem a ser menos ativas fisicamente. As manchetes logo resumiram a descoberta de forma provocativa: pessoas preguiçosas seriam mais inteligentes.

Também é possível dizer que pessoas vistas como “preguiçosas” muitas vezes desenvolvem maneiras mais eficientes de realizar tarefas do que seus colegas mais esforçados. Em outras palavras: pessoas preguiçosas encontram a forma mais rápida de fazer algo para poder voltar a não fazer nada.

Pensando bem, isso é brilhante.

descansar o cérebro  faz bem para a criatividade e inovação

Outro estudo, publicado em 2022 por Paul Green, professor assistente de gestão da Universidade do Texas, concluiu que trabalhadores que faziam pausas estratégicas e permitiam períodos reais de descanso apresentavam melhor capacidade de resolução de problemas e maior produtividade no longo prazo do que aqueles que trabalhavam sem interrupção.

Um funcionário considerado preguiçoso pode agir de maneira semelhante, resistindo a atividades de baixo valor. Ele simplifica. Evita a areia movediça da análise excessiva e da paralisia decisória na qual colegas mais ocupados afundam diariamente.

Muito antes dos pesquisadores chegarem a essas conclusões, Henry Ford já entendia isso. Conta-se que, em 1930, um consultor questionou por que Ford pagava US$ 50 mil por ano (cerca de US$ 900 mil em valores atuais) a um funcionário que passava a maior parte do tempo com os pés sobre a mesa.

Leia mais: Você é preguiçoso no trabalho ou apenas prefere uma “carreira minimalista”?

Ford respondeu sem rodeios: “porque alguns anos atrás aquele homem teve uma ideia que me economizou US$ 2 milhões. E, quando ele teve essa ideia, seus pés estavam exatamente onde estão agora.”

Lembre-se disso na próxima vez que decidir colocar os pés para cima.

COMO NÃO FAZER NADA SEM SENTIR CULPA

A ironia é que vivemos uma época em que mais precisamos da preguiça estratégica, mas tudo conspira contra ela.

Com a inteligência artificial supostamente ameaçando empregos, a volta obrigatória ao trabalho presencial ganhando força, níveis crescentes de estresse e burnout e organizações cada vez mais obcecadas por monitorar produtividade, as pessoas trabalham mais do que nunca para provar que merecem permanecer onde estão.

Mais e-mails. Mais horas visíveis. Mais reuniões que ninguém realmente precisa.

pessoas preguiçosas encontram a forma mais rápida de fazer algo para poder voltar a não fazer nada.

O Índice de Tendências do Trabalho da Microsoft de 2022 chamou esse fenômeno de “paranoia da produtividade”: a obsessão da liderança em monitorar trabalhadores remotos, algo que ironicamente torna todos menos produtivos.

Quando as pessoas se preocupam demais em parecer que estão trabalhando, deixam de trabalhar de fato. Participam de reuniões das quais não precisam. Respondem mensagens na hora, independentemente da urgência. Fingem estar ocupadas em vez de fazer o trabalho.

Ser estrategicamente preguiçoso não significa evitar aquela tarefa realmente importante. Significa apenas escolher o que merece sua energia e abandonar o resto. Na prática, isso pode ser feito de algumas maneiras.

Reserve um espaço de verdade para não fazer nada durante o dia: 15 minutos de absoluta inatividade. Nada de redes sociais. Nada de podcasts. Nada de tomar café enquanto confere mensagens no Slack.

Segundo a Teoria da Restauração da Atenção, desenvolvida pelos psicólogos ambientais Rachel e Stephen Kaplan, da Universidade de Michigan, períodos prolongados de concentração esgotam o sistema de atenção dirigida do cérebro.

apenas olhar para o céu já ajuda o  cérebro  a descansar
Crédito: Magnific

É essa parte que trabalha sem parar em reuniões, na solução de problemas e no gerenciamento da interminável lista mental de tarefas. Depois de algum tempo, ela se cansa e você bate no muro da fadiga mental. O antídoto? Descansar.

Se 15 minutos parecem um luxo, tente sair ao ar livre, encontrar um ponto com visão ampla do céu e simplesmente olhar para cima. Não precisa sentar de pernas cruzadas nem meditar. Apenas deixe o olhar vagar.

É o que pesquisadores chamam de “fascinação suave”: um estado de atenção relaxada e difusa que permite a ativação da chamada rede de modo padrão do cérebro (default mode network). Essa é a região associada à criatividade, à imaginação, aos insights e à resolução de problemas.

Também é a parte que você provavelmente vem reprimindo desde as oito da manhã.

PARE E NÃO PENSE

Às vezes, a melhor forma de resolver um problema é parar de tentar resolvê-lo e permitir que o cérebro reflita sobre algo completamente diferente.

Por isso, da próxima vez que você se sentir afogado em uma montanha de tarefas, não tenha medo de parar por alguns instantes, olhar para o céu e dar ao cérebro a pausa que ele merece.

Leia mais A preguiça sem culpa pode ajudar você a ser mais criativo – e feliz

Essas pequenas “férias mentais” podem ser justamente o ingrediente secreto para aumentar a criatividade, encontrar soluções e reduzir o estresse.

E quem sabe? Assim como eu tive uma ideia genial para lançar um livro enquanto estava deitado na cama, alguém pode perguntar de onde veio a sua solução brilhante. E você poderá responder, sem sequer esboçar um sorriso: "do céu.”


SOBRE O AUTOR

Chris Lovett é coach executivo e autor de "Relentless: The Power of Doing Less in a Workplace That Demands More" (Implacável: o poder ... saiba mais