Foram necessários três anos para criar a grama da Copa do Mundo

Nova tecnologia de cultivo permitiu produzir gramados mais fortes para os 16 estádios da Copa do Mundo

grama especialmente desenvolvida para os campos de jogo da Copa do Mundo
Crédito: Nick Schrader/ Universidade Estadual de Michigan

Nate Berg 4 minutos de leitura

A Copa do Mundo da FIFA de 2022 nem havia começado quando pesquisadores iniciaram o trabalho para cultivar o gramado perfeito para a Copa do Mundo de 2026.

Muito antes de as seleções sequer garantirem vaga no torneio deste ano, a FIFA contratou duas equipes de pesquisadores da Universidade Estadual de Michigan (MSU) e da Universidade do Tennessee (UT), nos Estados Unidos, para desenvolver a grama que serviria como campo de jogo desta edição da Copa.

Ao longo de quase três anos, os pesquisadores testaram diferentes combinações de espécies de grama capazes de formar um tapete denso e resistente o suficiente para suportar partidas de futebol de altíssimo nível em até nove jogos durante os 39 dias do torneio.

Tudo isso enfrentando os climas extremamente distintos das 16 cidades-sede, que vão de Toronto a Seattle, Dallas, Miami, Cidade do México e Guadalajara.

O projeto foi liderado por John “Trey” Rogers III, professor da Faculdade de Agricultura e Recursos Naturais da MSU, e por seu ex-aluno de doutorado John Sorochan, hoje professor de destaque em ciência de gramados no Departamento de Ciências Vegetais da UT.

Pesquisadores, professores e alunos da MSU preparam o gramado para a Copa do Mundo de 2026
Pesquisadores, professores e alunos da MSU preparam o gramado para a Copa de 2026 (Crédito: Nick Schrader/ MSU)

Segundo Rogers, a combinação final desenvolvida pela equipe resultou em uma mistura extremamente precisa: 84% de sementes de Kentucky bluegrass e 16% de sementes de azevém perene.

“Estudamos muitas proporções diferentes para descobrir com que rapidez conseguiríamos produzir algo pronto para a colheita, ao mesmo tempo maximizando a resistência sem comprometer a maturidade da grama”,explica Rogers.

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Essa mistura compõe o campo de jogo de 10 dos 16 estádios do torneio, graças à sua melhor adaptação às temperaturas mais amenas de cidades do norte, como Nova York e Boston, e aos ambientes climatizados de arenas cobertas, como as de Atlanta e Houston.

Os outros seis estádios, localizados em regiões mais quentes, como Miami, utilizarão grama Bermuda de alta performance.

COMO SE CULTIVA A GRAMA DE UMA COPA DO MUNDO

Pela primeira vez na história de uma Copa do Mundo, toda a grama foi cultivada em estruturas que Rogers compara a grandes vasos de flores rasos feitos de plástico.

Preenchidas com cerca de quatro centímetros de areia, essas bandejas recebem as sementes, que crescem durante várias semanas recebendo irrigação e cortes regulares, como qualquer gramado residencial.

Mas há uma diferença importante: como as raízes só podem crescer até encontrar o fundo plástico da bandeja, elas passam a se espalhar lateralmente.

Nesse processo, as raízes se entrelaçam e formam uma rede extremamente densa, capaz de ajudar o gramado a suportar arrancadas, mudanças bruscas de direção e carrinhos típicos de uma partida de futebol.

Depois disso, as bandejas podem ser enroladas, transportadas e instaladas nos estádios.

O gramado da Copa  do  Mundo de 2026 nasceu em bandejas rasas e passou por anos de testes
Crédito: Nick Schrader/ MSU

Antes desta Copa do Mundo, Sorochan e sua equipe na UT também desenvolveram uma máquina chamada fLEX, capaz de simular o impacto do pé de um atleta no solo. O equipamento utiliza um pé produzido em impressão 3D equipado com uma chuteira real.

O dispositivo mede exatamente o que um jogador sente ao correr sobre o gramado.Os pesquisadores o utilizaram para avaliar a qualidade de campos de futebol e futebol americano em diversas partes do mundo.

Rogers acredita que a grama terá o desempenho esperado durante o torneio. E, embora essa abordagem de raízes rasas seja tecnicamente uma novidade em Copas do Mundo, não será a primeira vez que gramados do torneio são cultivados em estruturas semelhantes a vasos gigantes.

dispositivo mede o que um jogador sente ao correr sobre o gramado
Crédito: Jacob Templin-Fulton

A primeira experiência ocorreu durante os preparativos para a última Copa do Mundo realizada nos Estados Unidos, em 1994 — e o próprio Rogers foi responsável pelo cultivo.

Utilizando recipientes hexagonais com cerca de 15 centímetros de profundidade, Rogers e sua equipe cultivaram a grama em uma estufa do tipo quonset no campus da MSU. Depois, o gramado foi transportado para o estádio coberto que sediaria quatro partidas do Mundial.

bola oficial da Copa  do Mundo de 2026 sobre trecho de novo gramado

O resultado foi tão bem-sucedido que o comitê organizador local decidiu preservar o campo após o torneio.

Depois da última partida disputada em Michigan, a grama foi removida, enrolada e transferida para o Parque Belle Isle, em Detroit, onde permanece há três décadas. Até hoje existe uma placa na borda do campo com a inscrição: “Campo de Futebol da Copa do Mundo de 1994”.

“A menos que tenha sido completamente destruída, eu apostaria que ainda existem plantas sobrevivendo ali desde os tempos do Silverdome”, afirma Rogers.

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Agora, ele espera que algo semelhante aconteça novamente — desta vez com 16 campos de uma grama que pode ser ainda mais especial.


SOBRE O AUTOR

Nate Berg é jornalista e cobre cidades, planejamento urbano e arquitetura. saiba mais